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Pobre demais para ser verde Carolina Derivi - 15/09/2010 às 01:00
Quando ouço as histórias do ambientalismo das antigas, nao é raro aparecer um testemunho do tipo "naquela época" meio ambiente era coisa de país rico, "naquela época" meio ambiente era perfumaria. Daí que eu sempre fico com a pulga atrás da orelha: será mesmo que as coisas mudaram tanto assim?
Recentemente, mergulhei no universo da política para uma reportagem e ouvi do especialista em marketing e eleições, Antonio Lavareda, que no Brasil "a miséria ocupa todo o espaço da compaixão". Da mesma forma, o cientista político Claudio Couto disse que o eleitorado de Marina Silva é "essa classe média progressista que há muito tempo está com o seu problema econômico básico resolvido".
Costumo dizer aqui neste blog que muitos problemas sociais têm fundo ambiental e vice-versa. Se pensarmos nos centros urbanos, são as populações mais pobres que convivem com os problemas ambientais mais graves na porta de casa. Mas, por alguma razão, na nossa escala de prioridades, primeiro vem a pobreza, depois o meio ambiente.
O exemplo mais famoso é Curva Ambiental de Kuznets. A ideia é que num primeiro momento de industrialização e crescimento econômico, a degradação ambiental vai para o espaço. Mas depois, quando a afluência já atinge um nivel razoável, a sociedade se volta para limpar a sua própria bagunça. Seria o caso entao de deixa a sustentabilidade de stand by, que um dia, por combustao espontanea, o progresso econômico daria conta do recado.
Hoje se sabe que a coisa nao é bem assim, já que alguns problemas só fazem aumentar pari passu com a economia. É o caso do lixo e das emissões de gases de efeito estufa. Mas nao dá para ignorar que alguma coisa acontece no coração daquelas sociedades cuja nível de vida coletivo está muito acima das necessidades básicas. Nas palavras do economista José Eli da Veiga, as pessoas começam a reparar que a vida pode ser melhor com ar limpo, belas paisagens, menos barulho, menos sujeira.
Estou de passagem por Barcelona. Não quero me alongar na rasgação de seda, mas preciso dizer que sustentabilidade aqui é o que se pode ver, sentir e tocar. Trata-se de buscar uma vida que vale a pena ser vivida (como diz Amartya Sen). E para isso tem que haver uma cidade, ou meio ambiente, no qual as pessoas se sintam acolhidas, orgulhosas e inspiradas.
Para a grande fatia do mundo em que a miséria ainda é uma realidade, o desafio é trilhar esse caminho sem a fase de estouro de degradação ambiental. Mas o ideal socioambiental, apesar de tão falado, ainda tem muito chão de convencimento pela frente.
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Carolina Derivi é jornalista especializada em sustentabilidade. Começou há sete anos, como estagiária na ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira e de lá pra cá foi repórter e subeditora da revista Página22. Hoje, como freelancer, colabora com diversos projetos de comunicação. Desde que passou uma temporada como voluntária na Chapada dos Veadeiros (GO), aos 18 anos, não perdeu mais a mania de encontrar relações entre meio ambiente e tudo o mais que há na vida. Aqui, discorre sobre as múltiplas conexões entre sustentabilidade, política e economia.
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