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O tripé das dúvidas Carolina Derivi - 08/02/2012 às 15:59
Peço já uma licença preventiva para esse post algo presunçoso, que consiste em compartilhar com você o que – me parece – são os três grandes debates sobre sustentabilidade. Lanço mão desse atrevimento porque acho que pode ser surpreendente para muitas pessoas. E porque tenho sentido, em encontros presenciais e nas redes sociais, um clima de desapontamento com as promessas desse ideário.
As pessoas desconfiam da eliminação das sacolinhas plásticas porque acham que os supermercados estão apenas cortando despesas. Desconfiam do movimento contra Belo Monte porque sinceramente não enxergam como vamos conseguir passar sem a expansão da oferta de eletricidade. Desconfiam das ecochatices, das cobranças malucas para que nos tornemos consumidores-detetives, da ameaça a modos de vida que já nos parecem azeitados e essenciais.
Eu entendo que esse foco exagerado na conduta individual pode provocar cansaço e ceticismo. Mas acho que em algum ponto dessa trajetória perdemos a clareza de que a discussão de alto nível sobre sustentabilidade não se resume à cobrança para que todos tenhamos uma vida mais frugal, agora, já, valendo. A discussão trata de criar condições para que todos possamos ter uma vida que merece ser vivida. Isso, no meu entender, passa por três grandes nós:
- Macroeconomia: Basicamente, o que os economistas ecológicos estão dizendo é que os preceitos da nossa economia não servem para esse novo paradigma. Porque o sistema parte do pressuposto de que o crescimento pode ser infinito, de que tudo que foi feito pode ser desfeito (desmatou a floresta? Planta de novo, uai) e de que o capital natural do qual dependem todos os processos econômicos reais não tem valor. O desafio, enfim, é dissociar o consumo do progresso humano.
- Governança: Diz respeito à participação. E como, num planeta ultraconectado e interdependente, vamos ser cada vez mais capazes de dar vazão à inteligência coletiva, no desabrochar de soluções locais e globais. Também diz respeito, especialmente, ao sistema de governança internacional. Significa fazer a comunidade de países caminhar com algum nível de consenso, em fórum multilaterais nos quais (quando muito) se concorda com um plano de ação para decidir qualquer coisa em X anos.
- Indicadores: Por incrível que pareça, as medidas são uma baita pedra no caminho. Se o PIB é um porcaria de índice, se o IDH é simplista, como vamos mensurar o verdadeiro progresso? Que unidade de medida de prestará ao valor de uma bela paisagem, do cheiro de mato, do ar respirável, da cultura vibrante e democratizada, do tempo livre para nutrir amores e amizades?
Conhece o tripé da sustentabilidade? Meio ambiente + economia + sociedade? Pois bem. Este que apresento aqui é o tripé das enrascadas. O tripé do “e agora?”. O tripé do “chupa essa manga!”. Os três pontos têm muitos palpites, mas nenhuma resposta absoluta. E é por isso que eu ainda acho sustentabilidade um troço super interessante. Porque levanta perguntas que precisam ser feitas. E se ainda não conseguimos dar um cavalo de pau no Titanic é porque a saída também atende pelo nome de processo.
Crédito/foto: Haldane Martin
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09/02/2012 às 11:31 Antonio - diz:
Cuidado com o cavalo de pau no Titanic, hein?
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Carolina Derivi é jornalista especializada em sustentabilidade. Começou há sete anos, como estagiária na ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira e de lá pra cá foi repórter e subeditora da revista Página22. Hoje, como freelancer, colabora com diversos projetos de comunicação. Desde que passou uma temporada como voluntária na Chapada dos Veadeiros (GO), aos 18 anos, não perdeu mais a mania de encontrar relações entre meio ambiente e tudo o mais que há na vida. Aqui, discorre sobre as múltiplas conexões entre sustentabilidade, política e economia.
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