BuscaBusca avançada
Publique
o selo
no seu blog
Moradores ameaçados de despejo no Madeira Carolina Derivi - 13/10/2010 às 14:11
Sempre que o governo ou as empreiteiras responsáveis por hidrelétricas na Amazônia querem desqualificar o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o papo é o mesmo: as histórias tenebrosas de usinas como Tucuruí no Pará, Balbina no Amazonas ou Samuel em Rondônia são coisa do passado, coisa da ditadura. Hoje, com a democracia operando no máximo vigor, ninguém mais é removido sem aviso prévio, sem indenização, sem planejamento, com uma mão na frente e outra atrás.
Verdade? Mais ou menos. Os moradores de Mutum-Paraná, na área de influência da usina de Jirau no rio Madeira, pelo menos receberam aviso prévio. Têm menos de 10 dias para sair de suas casas, ou serão despejados. O Ministério Público de Rondônia já ingressou com ação para tentar impedir o despejo. Argumentam que a área a ser alagada ainda não foi definitivamente demarcada e que as famílias não concordam com o valor da indenização.
Não sei qual a é a justificativa do consórcio Energia Sustentável do Brasil (ESBR), mas a prova de que a negociação com a comunidade foi mal conduzida é que as coisas tenham chegado a esse ponto. Uma ação de despejo é o anti-diálogo. Especialmente quando se trata da realocação de pessoas pobres, de baixa escolaridade, que estão passando pelo processo traumático de abandonar a região onde muitas delas fizeram suas vidas há gerações. Ou seja, é demorado mesmo, requer esforço, respeito, cuidado.
Muita gente reclama da morosidade do licenciamento ambiental. Mas a verdade é que as questões sociais são sempre as últimas a serem equacionadas. Essas pessoas da beira do rio passam ainda um longo tempo observando as providências para os peixes migratórios, para os sedimentos, para a captura e remoção da fauna terrestre, sem saber quando vão sair e para onde.
Mais curioso ainda é que eu estive em Mutum duas vezes nos últimos três anos conversando com os moradores. De todas as comunidades atingidas pelo complexo hidrelétrico do rio Madeira, essa me pareceu de longe a mais organizada. Eles tinham um conselho de moradores há muito tempo instituído para negociar com o consórcio e já em 2007 haviam escolhido coletivamente o local para onde gostariam de ser removidos, batizado de Nova Mutum.
Se houvesse uma gestão prévia de relacionamento por parte das empresas, aplicada durante todas as fases do licenciamento ambiental, o impasse chegaria à justiça? Esse é o salto definitivo de qualidade em responsabilidade social que falta a esses grandes projetos. E depois ainda dizem que o MAB vive no passado…
ver este postcomente
Não há nenhum comentário. Seja o primeiro!
Deixe aqui seu comentário: Preencha os campos abaixo para comentar, solicitar ou acrescentar informações. Participe!
Enviar
Carolina Derivi é jornalista especializada em sustentabilidade. Começou há sete anos, como estagiária na ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira e de lá pra cá foi repórter e subeditora da revista Página22. Hoje, como freelancer, colabora com diversos projetos de comunicação. Desde que passou uma temporada como voluntária na Chapada dos Veadeiros (GO), aos 18 anos, não perdeu mais a mania de encontrar relações entre meio ambiente e tudo o mais que há na vida. Aqui, discorre sobre as múltiplas conexões entre sustentabilidade, política e economia.
• A soma de todos os problemas…
• Ombudsman para as futuras gerações
• Código Florestal: presente e futuro
• Rio+20: o racha que vem de baixo
• A economia florestal vai mal
• Desigualdade faz mal à saúde?
• Nas entrelinhas de uma conferência
• O país mais sustentável do mundo
• Sobre dar valor ao que tem valor
• Trabalhar menos para ser sustentável
• Impacto ambiental na ponta do lápis
• A economia e os arreios ambientais
• Ambientalistas gregos e troianos
• Fundos ambientais: aprender com a África
• Para entender o desmatamento
• A Amazônia e seus quatrilhões
• Embu das Artes e o caminho das pedras
• O melhor investimento do mundo
• Na Amazônia não tem efeito Fukushima
• Sustentabilidade by the book
• Debates esquecidos em Belo Monte
• Código Florestal e as enchentes
• Abrolhos não rima com Petróleo
• Adeus ano velho, adeus Código Florestal
• Sustentabilidade dá dinheiro?
• Pensar global, sabotar local
• Moradores ameaçados de despejo no Madeira
• 100 empresas para mudar o mundo
• Munição para debates climáticos
• Código Florestal tem solução
• Amazônia equatoriana abre mão do petróleo
• A morte da lei climática americana
• Código Florestal: a história sem fim
• Campos de morango para sempre
• O incrível duelo do ruim contra o menos pior
• Pizza na legislação ambiental
• Cadeia do couro fecha cerco contra o desmatamento
• Vila japonesa encara lixo zero
• A economia pode crescer para sempre?
• Sem os gatos, os ratos fazem a festa
• Entre a mata e o machado, quem vai ceder?
• Brasil, terra de “contradições”
• Menos criança, menos carbono
• Congresso pode extinguir leis ambientais
• MP 458 e a repetição da história
• Nove em cada dez são pessimistas
• Por que aderir à Hora do Planeta
• Licenciamento ambiental for dummies
• O salvamento da crise e do clima
• Cidade quebrada reage na Amazônia
• Ideias infames pra salvar o planeta
• A vida menos verde do vizinho
• Além do que agrada aos olhos
• Reino do gado na terra de ninguém
• Rio Madeira, direito e esquizofrenia
• Pódio para os biocombustíveis