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Memórias do Rio Madeira Débora Spitzcovsky - 17/02/2010 às 18:42
Há dois anos, quando comecei este blog, escrevi o meu post inaugural nesta mesma lan house em Porto Velho, Rondônia. Era o início de um período de 20 dias, dedicados a investigar o que pensam os moradores da região sobre a construção das hidrelétricas que mudariam suas vidas para sempre.
Estar de volta depois de tanto tempo é um doce meio amargo: tanta coisa para perguntar, para descobrir, e desta vez apenas dois dias para dar conta de tudo.
As obras já começaram e minha maior curiosidade é saber o que foi feito dos personagens que conheci, especialmente os ribeirinhos que viviam, na barranca do rio, a esperança e a espera. Assim que terminar de publicar esse texto, vou subir numa moto e cruzar a famigerada BR-364 até o vilarejo do Teotônio, a 25 km de Porto Velho. Lá vou procurar pela Dona Maria Salomé, que há dois anos me perguntou se eu achava que Furnas a tiraria de casa mesmo contra sua vontade. Não tive coragem de responder. Hoje, se tudo der certo, vou descobrir.
Eis o que escrevi sobre ela em 2007:
Em comunidade de pescadores, o que não falta são histórias. Dona Maria Salomé, 61 anos, é mais afeita ao seu pomar de melancias, mas é mãe de quatro pescadores e também tem as suas. Conta que, em 1997, houve uma cheia como nunca se viu igual no rio Madeira e que obrigou os moradores do Teotônio a abandonarem suas casas. Todos, menos dona Maria. Todo mundo me dizia tu é louca, mas eu que não ia deixar o rio levar minha casa, lembra. Ela e os filhos fizeram vigília durante três noites, debruçados sobre as palafitas, sob a luz dos lampiões, para afastar os troncos carregados pelo rio e impedir que a casa fosse derrubada.
E a água baixou, não foi? conclui dona Maria, cutucando um vizinho que acompanha a conversa. Essa história é a resposta escolhida pela ribeirinha para demonstrar que não pensa em sair de onde mora, com ou sem hidrelétricas. Eu me mudo aqui mais pra cima, não tem problema. Esse foi o lugar que eu escolhi pra passar a minha velhice., diz cruzando os braços, numa postura de profunda convicção.
Dona Maria é amazonense e diz que quando chegou ao Teotônio, há 12 anos, ficou espantada porque num lugar tão bonito desse não morava quase ninguém. Vaidosa, só aceita ser fotografada depois que vai buscar o chapéu de palha que usa para trabalhar na plantação. Não economiza as assertivas de que sua vida inteira foi uma luta, no que se inclui um entrevero que teve com alguns vizinhos nos primeiros anos em Rondônia, cujo resultado foi uma denúncia de que estaria plantando maconha na várzea. A palavra maconha, ela diz baixinho, envergonhada.
Segundo consta, a Polícia Federal só encontrou melancias e mandiocas no terreno de dona Maria, mas apesar de não esquecer o constrangimento, diz ela que já perdoou os maledicentes. A vida é isso. Uma luta. E agora vem Furnas lutar comigo, diz escondendo com a mão, ao mesmo tempo, o sorriso e os olhos molhados. Ao final da entrevista, depois de um longo silêncio e um olhar pensativo, a ribeirinha parece perder a convicção. Leva a repórter pelo braço até um canto da casa e questiona: Você acha que se eu disser que não vou sair, mesmo assim, eles me tiram de dentro da minha casa?.
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Carolina Derivi é jornalista especializada em sustentabilidade. Começou há sete anos, como estagiária na ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira e de lá pra cá foi repórter e subeditora da revista Página22. Hoje, como freelancer, colabora com diversos projetos de comunicação. Desde que passou uma temporada como voluntária na Chapada dos Veadeiros (GO), aos 18 anos, não perdeu mais a mania de encontrar relações entre meio ambiente e tudo o mais que há na vida. Aqui, discorre sobre as múltiplas conexões entre sustentabilidade, política e economia.
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