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O massacre dos golfinhos Carolina Derivi - 22/09/2010 às 14:17

 

Finalmente assisti ao documentário The Cove, vencedor do Oscar de 2010, que conta a história de uma enseada na cidade de Taiji, no Japão, onde todo mês de setembro se dá o maior massacre de golfinhos do mundo. A matança ultra-secreta foi revelada pelos documentaristas e pelo diretor Luc Besson depois de uma operação totalmente ilegal naquele país, quase uma guerrilha high-tech.

O filme é bárbaro, e como jornalista me empolga ver até onde as pessoas vão para revelar uma história. Mas aqui quero comentar duas coisas que sempre me intrigaram e que o filme me ajudou a compreender.

A primeira é o contraponto para o argumento de que, em se tratando de biodiversidade, os bichos mais fofinhos são sempre os mais favorecidos. É uma pedra no sapato dos ativistas pela preservação dos tubarões, por exemplo. Falar em golfinhos pode soar até cafona de tão pop. Mas há alguma coisa poderosa na relação que se estabelece com espécies tão inteligentes, e os golfinhos são considerados os mais próximos dos seres humanos nesse quesito.

O movimento “salvem as baleias” está entre os mais icônicos da história do ambientalismo. O turning point foi quando o canto desses animais ficou conhecido e daí se descobriu uma forma de comunicação, ou seja, de inteligência, de senso de comunidade e autoconsciência. São esses elementos, que nos acostumamos a entender apenas como humanos, que fazem com que o argumento da extinção nem seja o mais importante. Lá nos confins dos gens que dão origem à ética, dá simplesmente para sentir que matar esses animais é errado. É como matar gente. É visceral.

O segundo ponto que nunca consegui entender é como um animal mundialmente protegido desde 1986 pode continuar sendo abatido sob a justificativa de “pesquisa científica”. O mundo inteiro sabe que isso é uma mentira deslavada. Como é que a Comissão Baleeira Internacional engole a ladainha japonesa de que são baleias e golfinhos (e não a sobrepesca) que estão esgotando os peixes do cardápio humano? E como é que golfinhos até hoje não gozam da mesma proteção, ainda que capenga, conferida às baleias?

"Siga o dinheiro" é a resposta. O governo do Japão compra o voto de países miseráveis africanos e insulares, muitos dos quais não têm nenhuma relação comercial ou cultural com cetáceos. Seus representantes ganham trocados de propina e apoio para infra-estrutura de pesca e assim se consegue reproduzir a oposição “pobres contra ricos”, difícil de contornar.

Depois descobri que o jornal Sunday Times já tinha dado esse furo em junho. Leia aqui o relato do Estadão sobre o caso.

É uma pena que The Cove ainda não esteja disponível no Brasil. Tenho amigos no ramo audiovisual que dizem que a baixa popularidade do gênero documentário faz com que os melhores filmes nunca cheguem aos cinemas brasileiros. Eu comprei a minha cópia fora do País, mas você também pode baixar no Itunes por um preço razoável. Vale a pena.

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Comentários

22/09/2010 às 17:44 Anonymous - diz:

Alexandre – diz:Carolina, o documentário The Cove vai estar no Festival do Rio deste ano. Segue o link com as datas de exibição: http://www.visualnethost2.com.br/festrio/2010/web/filme.asp?id_filme=310

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Eco BalaioCarolina Derivi

Carolina Derivi é jornalista especializada em sustentabilidade. Começou há sete anos, como estagiária na ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira e de lá pra cá foi repórter e subeditora da revista Página22. Hoje, como freelancer, colabora com diversos projetos de comunicação. Desde que passou uma temporada como voluntária na Chapada dos Veadeiros (GO), aos 18 anos, não perdeu mais a mania de encontrar relações entre meio ambiente e tudo o mais que há na vida. Aqui, discorre sobre as múltiplas conexões entre sustentabilidade, política e economia.

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