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Para inglês ver e acontecer Carolina Derivi - 23/02/2011 às 15:59
Tempos atrás, alguns amigos meus envolvidos em produção e desanimados com o que apresentou o SWU vieram me perguntar como seria um festival de música realmente sustentável. Respondi de bate-pronto: não sei. E isso é que é legal.
Às vezes é difícil explicar que sustentabilidade tem uma ligação umbilical com inovação. Hoje em dia a gente tem tanta informação disponível que é natural que as pessoas queiram uma receita pronta para fazer bonito. Diga-me de quais carimbos eu preciso (Leed? FSC? Comércio Justo?) e vamo que vamo.
O motivo pelo qual eu fiquei tão impressionada com o projeto olímpico britânico, apresentado à imprensa brasileira dias atrás, tem a ver com isso. Há que se pensar grande. O que eles fizeram foi imaginar a melhor Londres possível de ser catalisada pelos jogos e só depois foram atrás de desenvolver as soluções para isso.
Trilharam um caminho que combina fortemente os resultados práticos com técnicas inovadoras e simbologias poderosas. O complexo olímpico se transformará no maior parque urbano já projetado naquele país. Está sendo construído sobre um antigo distrito industrial do século XIX, Stratford, cujo solo era ainda profundamente contaminado por petróleo, arsênico, cianureto e outros venenos mais.
Eles poderiam ter cavado a sujeira toda para largá-la em outro lugar, e ainda ter ganhado os louros por livrarem a área de poluentes. Mas não. No vídeo abaixo, parte do documentário Going for Green – Britain’s 2012 dream, você pode ver como eles retiram mais de duas mil toneladas de terra, levam para limpar em laboratórios (com água mesmo!) só para devolver tudo depois.
Imagine o pesadelo logístico que deve ter sido separar e destinar todo o entulho das edificações demolidas para o projeto, a ponto de alcançar um índice de 98% de reaproveitamento de materiais. A minha parte preferida é que o gigantesco parque olímpico foi concebido com técnicas de manejo florestal, de modo a conferir um ganho de biodiversidade urbana. O parque é cheio de novos habitats capazes de atrair espécies de anfíbios, insetos e aves antes desaparecidas e vai impedir que mais de 5 mil residências sejam ameaçadas por enchentes. Isso é que é legado.
Eu sempre digo que o verdadeiro impacto positivo de um evento afinado com sustentabilidade não são as emissões poupadas, o lixo reciclado, as guimbas de cigarro armazenadas em frascos. É, em primeiro lugar, o poder da mensagem e a capacidade de inspirar pessoas. Na outra ponta, e esse sim deveria ser o padrão de excelência, estão a inventividade e o desenvolvimento de novas ideias, novas soluções capazes de serem replicadas em outros cantos do mundo.
Pra terminar, minha namorada, jornalista de esportes, foi perguntar ao Comitê Organizador Rio-2016 qual o plano de sustentabilidade carioca à luz dos novos padrões londrinos. Ouviu apenas uma variante sonora da biodiversidade brasileira: grilos.
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Carolina Derivi é jornalista especializada em sustentabilidade. Começou há sete anos, como estagiária na ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira e de lá pra cá foi repórter e subeditora da revista Página22. Hoje, como freelancer, colabora com diversos projetos de comunicação. Desde que passou uma temporada como voluntária na Chapada dos Veadeiros (GO), aos 18 anos, não perdeu mais a mania de encontrar relações entre meio ambiente e tudo o mais que há na vida. Aqui, discorre sobre as múltiplas conexões entre sustentabilidade, política e economia.
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