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Floresta sem gente não dá Carolina Derivi - 07/04/2010 às 12:27

Rezava a cartilha original do ambientalismo que preservar é deixar a mata intocada, quase como num museu. A inspiração não passaria de altruísmo e estética. Eu acho que até hoje é isso que deixa as pessoas meio irritadas com o discurso verde. Vocês querem salvar a Amazônia? Mas e os quase 25 milhões de pessoas que moram lá?

Que bom que o pensamento se refinou.  Veio a conservação (preservar com alguma finalidade mais utilitarista) e finalmente a sustentabilidade, que celebra a interdependência econômica, social e ambiental, e nada mais é do que uma resposta mais adequada a um mundo complexo.

Vejam um exemplo prático. Uma pesquisa de campo realizada por pesquisadores da Universidade Lancaster em mais de 10 mil quilômetros de rio e Igarapés Amazônicos concluiu que onde faltam comunidades florestais, sobra espaço para a devastação.

“Alguém poderia pensar que se as pessoas saem da floresta, haveria mais ganho de conservação – que terras e rios abandonados ficariam aos cuidados da própria natureza. No entanto, descobrimos que esse não é o caso. Apesar de plantas e animais não serem mais explorados para subsistência, outras atividades mais comerciais entram em cena”, disse Luke Parry, cientista que liderou o estudo.

A explicação para isso é que populações tradicionais com direitos de propriedade assegurados dificultam muito a vida de grileiros e outras variantes de criminosos ambientais. Terra de ninguém é terra de ninguém, com todos os malefícios que a gente já conhece. Mas para fixar o homem na terra, ou na floresta, é preciso garantir condições de vida economicamente viáveis. Ou seja, é preciso uma economia verdadeiramente florestal.

Esse é o principal fator que explica o espantoso crescimento urbano da Amazônia nos últimos quarenta anos. Os filhos e netos de colonos pioneiros ainda estão zanzando por lá, à procura das oportunidades prometidas que nunca vingaram. E caminham para as cidades, como outros fizeram antes deles em direção ao Sudeste brasileiro.

O problema é que as cidades amazônicas, com exceção talvez de Manaus e sua Zona Franca, não oferecem renda e bens públicos capazes de fazer frente às necessidades sociais. A subsistência tradicional é substituída então pela miséria urbana. Segundo dados do censo de 2000, 45% da população da Amazônia vivem abaixo da linha da pobreza.  Quase a metade das pessoas, dá pra acreditar?

E aí se fecha a equação da sustentabilidade. Miséria socioeconômica = abandono e maior vulnerabilidade da floresta à depredação irracional. A conclusão é que não dá para escapar do caminho mais longo e tortuoso da conservação. Mercado de carbono, bolsa-floresta, tudo isso é muito bom. Mas enquanto não se profissionalizar o mercado de produtos e serviços florestais, com diversidade e justiça social, a Amazônia vaicontinuar sendo um problemão para o qual não há comando e controle que chegue.

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Comentários

08/04/2010 às 13:19 Anonymous - diz:

Márcia – diz: Infelismente a situação da Amazonia é”mais embaixo. Segundo os poucos Roraimenses que ainda ocupam a região que lhe é devida, a Amazonia já deixou de ser do Brasil faz tempo, aliás, tentarei enviar um texto que espero de todo o coração que vocês publiquem, é realmente revoltante.Quanto ao fato de”gente na floresta”, eu era uma das que pensava que o melhor era “não mexer no que está quieto”,porém as informações me convenceram de que, “o olho do dono é que engorda o boi”,ou “Se você não cuida do que é seu, alguém vai cuidar por você”. Resumindo, se ainda há o que ser feito, com certeza não é esperar de braços cruzados, mas as pessoas que ocupam a mata, ainda mais se vivem em condições de dificuldades de sobrevivência como diz o texto acima, estão correndo também o risco de não fazer nada, vendendo o “amor a patria” por um fardo de arroz ,fubá e feijão. Precisaria ser um grupo selecionado, muito preparado e protegido pelo governo, como protetores da mata. Esse detalhe teria mil formas de ser resolvido se tivessemos governantes menos canalhas, o senado”aprova” coisas que o Lula, ou concorda, ou se faz de morto, porque sabe que o senado tem mais força que o proprio Presidente. E nós? Será que realmente estamos fazendo alguma coisa que nos faça dignos da Amazônia?

21/04/2010 às 14:47 Anonymous - diz:

Carolina Derivi – diz:Oi Márcia! Até sei a que texto (spam) sobre Roraima você se refere… Meu conselho é: não acredite em tudo que você lê na internet! ;)Tem um ufanismo histerico que distorce informações sobre gringos na Amazônia, haja vista a reação raivosa que provocou a passagem de James Cameron pelo Pará.Se “o olho do dono engorda o boi” as terras indígenas são comprovadamente o modelo mais eficaz para conter o desmatamento. Se a terra é dos roraimenses, os índios não estão incluídos não? “Rora” “íma” = Serra Verde na lingua dos Tauperang. Um abraço!

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Carolina Derivi é jornalista especializada em sustentabilidade. Começou há sete anos, como estagiária na ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira e de lá pra cá foi repórter e subeditora da revista Página22. Hoje, como freelancer, colabora com diversos projetos de comunicação. Desde que passou uma temporada como voluntária na Chapada dos Veadeiros (GO), aos 18 anos, não perdeu mais a mania de encontrar relações entre meio ambiente e tudo o mais que há na vida. Aqui, discorre sobre as múltiplas conexões entre sustentabilidade, política e economia.

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