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O enigma da terra Carolina Derivi - 01/06/2011 às 16:28

É difícil de explicar, mas fácil de perceber como um dos sintomas de que algo está muito errado nos rumos da Amazônia. Se o destino de um terço da área desmatada é ficar abandonada ou subutilizada, como aponta o IBGE, por que raios a região Norte concentra o maior índice de conflitos violentos por terra?

Tanta terra sobrando de um lado, e de outro tem gente se matando por ela. Não vou tentar exaurir aqui as explicações e as possíveis soluções, missão digna de um livro e para a qual eu não tenho total domínio. Mas é importante que cada vez mais pessoas compreendam o diagnóstico histórico simples. A Amazônia é como aquele armário da bagunça em que as pessoas entulham o que não querem ver e se esquecem do problema assim que fecham a porta. Quanto mais tempo leva para resolver a bagunça, mais complexa se torna a solução. Até o dia em que o problema não cabe mais no armário e a desordem toma conta de tudo.

(Não que São Paulo ou qualquer outra região brasileira tenha méritos de racionalidade, bem entendido)

É possível que a mesma velha sequência continue se repetindo há décadas. Os usurpadores de madeira nobre fazem a limpa e passam terra rasa para o próximo, um pecuarista sem preparo que vai ficar por ali enquanto durar o capim. Depois parte para a próxima fronteira, grilada a preço de nada ou invadida mesmo. Pode até vender a terra original para o último aventureiro, um pequeno agricultor que sem acesso a crédito e sem meios de escoar a produção, por falta de estradas, logo também vai seguir outro rumo.

É triste, mas a pobreza comprovadamente tem um papel desbravador importante na equação do desmatamento. Os grandes só vão se instalar onde estiver a infraestrutura. E quando encontram por lá algum projeto que aponta para a sustentabilidade (como o Assentamento Agroextrativista Praialta-Piranheira, de José Claudio Ribeiro, assassinado na semana passada) as velhas práticas, a terra desvalorizada e a ausência do Estado são ingredientes da cobiça e da violência.

Dá para entender por que as estradas são o maior vetor do desmatamento. Mas o problema não é o asfalto, inerentemente. É a permissividade e a falta de planejamento que permitem que os interesses pessoais de curto prazo se sobreponham a uma visão coletiva (estratégica?) de desenvolvimento.

Não há saída que não aponte para um ordenamento territorial maciço, um controle eficiente da origem de produtos madeireiros que enforque o mercado para os criminosos e o empoderamento de produtores rurais. Falo de capacitação e crédito que coloquem os incentivos no lugar certo: o aumento da produtividade na terra já desmatada. Na pecuária, isso a equivale a uma verdadeira revolução tecnológica que tomaria pelo menos 20 anos.

Infelizmente, um grande problema só se resolve com grandes soluções.

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Comentários

17/06/2011 às 16:58 Anonymous - diz:

ROSA TIGRE – diz:NÃO VOU COMENTAR NADA DO LI.A RAIVA E A FRUSTRAÇÃO SÃO TÃO GRANDES QUE NÃO HÁ ESPAÇO SUFICIENTE.SIMPLESMENTE ME SINTO INÚTIL E SEM AÇÃO.ONDE ESTÃO NOSSOS REPRESENTANTES ELEITOS POR PROMESSAS CHEIAS DE VISÃO DE UM AMANHÃ SAUDÁVEL,SUSTENTÁVEL?QUE HERANÇA DEIXAREMOS PARA FILHOS E NETOS?NO CONGRESSO, NENHUM DOS DEPUTADOS E SENADORES TÊM FILHOS?NETOS?FAMILIARES QUE IRÃO VIVER MAIS TEMPO DO QUE ELES?DESCULPEM O DESABAFO……MAS ESTE ESPAÇO ME DEU LUGAR PRA “BOTAR A BOCA NO TROMBONE”.BJUX

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Eco BalaioCarolina Derivi

Carolina Derivi é jornalista especializada em sustentabilidade. Começou há sete anos, como estagiária na ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira e de lá pra cá foi repórter e subeditora da revista Página22. Hoje, como freelancer, colabora com diversos projetos de comunicação. Desde que passou uma temporada como voluntária na Chapada dos Veadeiros (GO), aos 18 anos, não perdeu mais a mania de encontrar relações entre meio ambiente e tudo o mais que há na vida. Aqui, discorre sobre as múltiplas conexões entre sustentabilidade, política e economia.

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