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Emissões na caixa preta? Carolina Derivi - 25/11/2009 às 16:41
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Chegou a hora de falar sobre a meta brasileira para Conferência do Clima. Mas não vou me ater ao entusiasmo, merecido até, com o expressivo número que fez o Brasil abafar no cenário internacional. Tudo muito bom, mas como foram calculadas as metas e com base em quais dados?
Não sabemos. E o governo não pretende contar. Tudo que se tem de informação oficial é essa tabelinha aí em cima, que apresenta as projeções para 2020 e as metas de corte em setores que ninguém sabe como foram definidos (por que esses e não outros?).
Vou confessar que até cheguei a pensar que era eu a foca* desavisada à procura de documentos que muitos repórteres já folheavam há semanas.
Pois se o Brasil assume um compromisso tão revolucionário, ao mesmo tempo com a sua população e com a comunidade internacional, não pode fazê-lo com essa falta de transparência. Mas estava enganada, e a obscuridade das metas brasileiras já levanta suspeitas.
Cinco entidades que acompanham a questão climática apontaram, entre várias outras críticas, que as estimativas para o crescimento no setor de energia "não apresentam justificativa plausível, superam qualquer projeção linear de crescimento de acordo com o PIB ou a população". Isso vale tanto para o cenário tendencial, quanto para aquele que incorpora as metas de redução.
Amigos da Terra, Greenpeace, Idec, Vitae Civillis e Sociedade Brasileira de Economia Ecológica, que assinam a nota, cobram o elementar: cadê a memória de cálculo? Cadê as informações sobre o estado atual de emissões, para que se possa avaliar o prometido? Cadê as estimativas de custo oportunidade com relação a outros setores e ações que não entraram na dança das metas?
Para completar, a excelente reportagem de Marta Salomon, na Folha de S. Paulo, indica que os dados oficiais podem estar inflados. Enquanto o governo estima em 2,7 bilhões de toneladas a emissão anual do País em 2020, um estudo inédito do Banco Mundial aponta apenas 1,697 bilhão. E isso para 2030.
Se os dados estiverem furados, o esforço de redução de emissões brasileiras pode ser muito menor do que parece. Para dirimir as suspeitas, bastaria que o governo disponibilizasse os detalhes do processo que culminou com as metas. E se não for pedir demais, quem sabe até arredar o Ministério de Ciência e Tecnologia de cima do inventário nacional de emissões, que não rende versão atualizada desde 1994.
*jargão para repórter inexperiente
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Carolina Derivi é jornalista especializada em sustentabilidade, subeditora da revista Página 22. Durante seus "verdes anos", foi ativista pelo cerrado na Chapada dos Veadeiros (GO). Trabalhou na ONG Amigos da Terra e dedicou o último ano da faculdade a um livro-reportagem sobre o complexo hidrelétrico do rio Madeira (RO). Desde então, seu assunto preferido, seja neste blog ou em mesa de bar, é a Amazônia brasileira. Acha que o barato do jornalismo ambiental são as boas histórias, e da sustentabilidade, as boas ideias. Aqui, discorre sobre os rumos do meio ambiente e as múltiplas conexões com política e economia.
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