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Desenvolvimento? Carolina Derivi - 22/12/2011 às 00:57
Há algumas semanas, quando falei sobre as dúvidas que cercam Belo Monte, o que mais me chamou a atenção nos comentários foi o uso que as pessoas fazem da palavra desenvolvimento. E essa pulga ficou na minha orelha. Para alguns, a polêmica grande obra do PAC é um dilema maquiavélico, uma espécie de bem maior cujo preço se desenrola em injustiças mais ou menos relativizáveis.
O show do desenvolvimento não pode parar. Alguns terão que sofrer por isso. É a vida.
Para mim, essa concepção é completamente nula de sentido. E, neste ponto, paro de falar de Belo Monte especificamente. Falo de um ano em que o grande acontecimento foi a emergência de uma expressão global de que a vida – esta que “é como é” – não está boa. Não para 99% de nós. E desconfio que alguns do grupo do 1% devem estar também pelas tabelas.
Um ano em que a desigualdade, pela primeira vez em muito tempo, é o que mais incomoda. Isso desde que a promessa “a sua vez ainda vai chegar”, graças a uma divina sapiência inerente ao bonde do mercado sem freio, ruiu mais que Fukushima.
Só quem ignora esses acontecimentos pode deixar de perceber que o conceito de desenvolvimento está sendo redefinido. E já que estamos naquela época, meu desejo de fim de ano é que as pessoas parem de permitir que o significado dessa palavra intrinsecamente positiva seja imposto pelos outros, como um dogma ancestral.
Desenvolvimento, para mim, seria morar numa cidade em que eu pudesse respirar, figurada e literalmente. Um lugar em que não apenas fosse possível transitar com dignidade, mas que me fizesse desejar sair de casa. Lugar que fosse um verdadeiro “habitat da espécie humana”, para usar a expressão que inspirou a Natália Garcia no projeto Cidades para pessoas.
Desenvolvimento, para mim, seria que os passageiros do metrô deixassem de ignorar a carinha risonha que suplica simplesmente: espere as pessoas saírem para embarcar no trem. Desenvolvimento, para mim, seria despoluir os rios e botar abaixo o Minhocão, senão por tantos motivos sensatos e pragmáticos, porque teríamos enfim aceitado que a beleza do meio que nos cerca é importante.
Desenvolvimento, para mim, seria que ao menos um político corrupto fosse parar na cadeia. Minto. Não precisaria ser político. Que apenas um criminoso rico e poderoso estivesse ao alcance da justiça brasileira. Só um, e eu já chamaria isso de progresso. Desenvolvimento, para mim, seria que deixássemos a natureza continuar a prover de graça o que a tecnologia narcísica se propõe a substituir.
Mas isso sou eu. E você? O que é desenvolvimento, afinal?
Adeus ano velho, feliz ano novo. Este blog voltará a cuspir ideinhas deste naipe em janeiro.
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22/12/2011 às 17:08 Luiz de Campos Jr - diz:
eu também…. punto!
boas festas Carolina e demais leitores, e muitos anos novos de resignificado desenvolvimento
luiz cjr.
26/12/2011 às 14:58 Andre - diz:
A busca do desenvolvimento tem-se valido da ideia do utilitarismo, ou seja, se vai ser útil ao um grande número de pessoas, não há nada de errado que um minoria seja de pessoas ou da natureza pagarem o preço. Além do utilitarismo, o que move o desenvolvimento é o egoismo.
Desenvolvimento veradeiro não ignora a natureza e nem o bem estar das pessoas, sejam elas minoria ou não.
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Carolina Derivi é jornalista especializada em sustentabilidade. Começou há sete anos, como estagiária na ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira e de lá pra cá foi repórter e subeditora da revista Página22. Hoje, como freelancer, colabora com diversos projetos de comunicação. Desde que passou uma temporada como voluntária na Chapada dos Veadeiros (GO), aos 18 anos, não perdeu mais a mania de encontrar relações entre meio ambiente e tudo o mais que há na vida. Aqui, discorre sobre as múltiplas conexões entre sustentabilidade, política e economia.
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