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Combustíveis da discórdia Carolina Derivi - 13/04/2011 às 14:24
A esta altura do campeonato tecnológico, biocombustíveis são parte indispensável da estratégia para mitigar emissões de carbono no mundo todo. Mas será que a gente não pode ao menos conversar sobre os riscos dessa atividade, seja segurança alimentar, sejam direitos humanos ou preservação de florestas?
Estou perguntando isso porque sempre que se levantam críticas e dúvidas, os defensores do filão costumam (não tenho intenção de generalizar) apresentar argumentos marginais, a despeito do núcleo da questão. Exemplo: Esses estudos de contestação são patrocinados pela indústria do Petróleo. Querem difamar a concorrência!.
Esse argumento é um tipo de falácia, conhecida domo envenenar o poço. Você desqualifica a fonte, não o mérito. É como se o resultado do debate fosse inevitavelmente maligno, por isso o debate cai fora da mesa.
Mesmo assim, estudos e relatórios continuam a questionar os biocombustíveis. O mais recente é de uma organização britânica dedicada à bioética, supostamente independente. Os cientistas estão cobrando uma política de importação mais arrojada da União Europeia, que garanta a sustentabilidade social e ambiental dos produtos.
(Ainda não desceu pela garganta a decisão da UNICA de apoiar o relatório de Aldo Rebelo para reforma do Código Florestal. O que prova que nem todos os riscos dos biocombustíveis para o meio ambiente podem ser balela)
Outro argumento marginal muito comum é que não precisamos aceitar esses riscos. Podemos fazer sistemas integrados com alimentos e o aproveitamento de resíduos vegetais e animais pode alavancar a indústria sem aumentar a área plantada. Sim, podemos. Mas então vamos conversar sobre como agilizar isso?
Aí acho que o debate começa a ficar mais produtivo e interessante e é aí também que eu faço ressalvas ao relatório britânico. A recomendação dos autores é que se imponha um sistema de certificação. Um monte de regras sem as quais ninguém poderá exportar para a Europa.
Estou pessoalmente enjoada de certificação. É tanto selo verde no mundo que a vida de produtores e consumidores ficou muito mais complicada. O mais rígido processo de monitoramento não elimina os riscos de fraude, e quanto mais rídigo, mais custoso. Por fim, seguir uma séries de receitas prontas é anti-inovação. E é de inovação que precisamos.
Tenho visto empresários e consultores apostando mais na via da cenoura que na do chicote, com excelentes resultados. Ou seja, você incentiva fornecedores a seguir a linha do bem, compartilha tecnologia, promove treinamentos, em lugar de apenas proibir e mandar que se virem. Talvez esse seja um bom caminho para a Europa.
Sei lá, eu não sou especialista, posso estar dando tiro nágua. Mas o que sei com certeza é que matar o debate não dá.
Foto: juvertson / Creative Commons
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Carolina Derivi é jornalista especializada em sustentabilidade. Começou há sete anos, como estagiária na ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira e de lá pra cá foi repórter e subeditora da revista Página22. Hoje, como freelancer, colabora com diversos projetos de comunicação. Desde que passou uma temporada como voluntária na Chapada dos Veadeiros (GO), aos 18 anos, não perdeu mais a mania de encontrar relações entre meio ambiente e tudo o mais que há na vida. Aqui, discorre sobre as múltiplas conexões entre sustentabilidade, política e economia.
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