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Burnout de Belo Monte Carolina Derivi - 30/11/2011 às 18:00
Não sei quanto a vocês, mas boa parte dos meus amigos está vivendo uma mini-síndrome-de-burnout com o assunto de Belo Monte. Todo mundo confuso, abarrotado de informações suspeitas, sem saber em que confiar. Um amigo escreveu o seguinte no Facebook: “alguém tem um opinião baratinha pra vender sobre Belo Monte?”. Resolvi atender ao pedido dele, e dar uma humilde contribuição sobre alguns pontos que, me parece, causam mais dúvidas.
Vou começar revelando uma coisa que você, leitor sagaz, provavelmente já percebeu: o motivo pelo qual ninguém sabe quem está falando a verdade é que ambos os lados dessa peleja contam verdades incompletas.
Dificilmente um ambientalista dirá que o motivo pelo qual Belo Monte só vai produzir um terço da sua capacidade instalada, em média, é que a usina foi reprojetada para operar como fio d’água, o que permitiu diminuir drasticamente o reservatório e… voilà! Menor impacto ambiental.
Mas o outro lado não te conta que os engenheiros não fizeram isso porque têm a floresta no coração, mas porque o projeto anterior era tão absurdo que esse foi o único jeito de destravar o processo, embargado pelo STF desde 2002. E que a teimosia de manter os planos mesmo com essa enorme perda de eficiência (sim, nenhuma usina opera no total de sua capacidade o tempo todo, mas a discrepância de Belo Monte é acintosa) revela duas possibilidades:
1- A principal motivação para essa usina não é tanto o suprimento energético nacional quanto a necessidade de fazer girar a manivela dos favores e benefícios escusos da política municipal, estadual e federal. E/OU 2- O projeto atual é um drible no licenciamento ambiental, quando o verdadeiro plano seria construir outras hidrelétricas na bacia do Xingu. Portanto, um acúmulo de reservatórios que permitiria a Belo Monte operar com muito mais eficiência. E daí o impacto ambiental será muito, mas muito maior.
Alternativas
“Uma Pergunta!” diz Ingrid Guimarães. “Qual é a solução para a questão energética no Brasil?”, complementa Marcos Palmeira, ambos no vídeo Gota d’Água. E eis que surge a grande besteira da campanha: dizer que as alternativas são energia solar e eólica. Ambas são fontes intermitentes. O sol se põe, o vento para de soprar. Com a tecnologia atual, o papel que essas fontes podem desempenhar é de complementaridade. A espinha dorsal da matriz elétrica brasileira é hidrelétrica e continuará sendo assim.A pergunta que se deve fazer é: precisa construir mais 77 usinas hidrelétricas na Amazônia, entre elas Belo Monte? As opiniões técnicas mais engajadas já cansaram de apontar a importância de medidas de eficiência, como ampliar a potência de usinas já existentes, e combater o desperdício da energia que se perde no caminho da distribuição, em níveis alarmantes. Mas isso nunca tem destaque –ou às vezes sequer aparece – na política pública. Por quê? Aquilo que não é grande obra não interessa?
Diálogo
E ainda que a gente fizesse tudo certinho, desse um tremendo gás no quesito eficiência, botasse freio nas indústrias eletrointensivas e revertesse o quadro de primarização da economia brasileira, ainda assim, daria para não construir mais nenhuma hidrelétrica e continuar crescendo?Não sei. E acho que ninguém sabe. Isso porque o planejamento energético nacional padece de falta de transparência. Ouço essa crítica há anos, tanto das ONGs quanto da Academia. Certa Vez, Gilberto Jannuzzi, professor livre-docente em sistemas energéticos da Unicamp, me disse que os estudos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) são tão obscuros que às vezes nem ele consegue entender.
O que se quer, mais que interromper Belo Monte, é iniciar um processo de diálogo com atores da sociedade e do governo e entender por que algumas recomendações técnicas são solenemente ignoradas enquanto outras são blindadas de participação.
Índios
Quando o sujeito vira pra você e fala “nenhum índio será atingido”, ele está se escondendo atrás das diferentes interpretações que apalavra “atingido” pode denotar. Aperte a tecla SAP do seu televisor e leia o seguinte: é que nenhum índio será afogado (como disse Celio Bermann em entrevista recente) pela cheia do reservatório e não haverá obras dentro da terra indígena. Mas isso está longe de significar uma boa noite de sono para os povos do Xingu.Como aponta um painel de 40 cientistas independentes, não se pode garantir que a mobilidade dos índios não será afetada pela diminuição da vazão do rio e nem que o suprimento de peixes continuará como dantes. Se os índios tiverem reduzida sua principal fonte de proteína e ficarem isolados em algum período do ano, a terra ancestral se tornará imprestável, mesmo sem obras ou inundação. Isso sem falar na dor de cabeça com o previsível aumento das invasões.
População local
Desconfie de quem defende que Belo Monte é uma grande oportunidade de desenvolvimento local. Oportunidade é potência, não é realidade. Poderia melhorar a vida das pessoas? Poderia, sim. É uma montanha de dinheiro que começa a circular nos arredores de uma obra gigantesca. Às vezes, a arrecadação municipal dobra ou até triplica. Mas se o hospital modelo só fica pronto depois do pico das obras (como já aconteceu na Amazônia), quando milhares de migrantes já se mandaram para outras fronteiras, se o troço se torna caro e ocioso… de que adianta?Isso requer um planejamento muito bem feito, com medidas que precisam ser adotadas muito antes das obras, coisa que nenhum governo até hoje conseguiu implementar na Amazônia. Não é à toa que a prefeitura de Altamira, antes defensora fervorosa de Belo Monte, hoje pede a interrupção do projeto até que as medidas de compensação mais fundamentais sejam concluídas.
A corda, como sempre, arrebenta no lado mais fraco… Seriam os efeitos colaterais relativizáveis de um bem maior, O Desenvolvimento Do País? Você é quem sabe.
ver este postcomente
01/12/2011 às 01:14 João Vicente - diz:
http://www.youtube.com/watch?v=JhYd48tQav4
“Se algo não puder ser expresso em números não é ciência. É opinião”.
Robert Heinlein (1907 – 1988)
01/12/2011 às 12:06 Felipe Jannuzzi - diz:
Parabéns pelo texto, Carolina. Finalmente uma visão esclarecedora.
01/12/2011 às 13:39 allan graba - diz:
issaí carol.
01/12/2011 às 14:03 Guilherme Augusti Negri - diz:
Ola Carolina e equipe do Planeta Sustentável, parabéns pelo artigo!
Posso posta-lo no blog Coletivo Verde (www.coletivoverde.com.br)? Claro com os devidos créditos ao portal e a Carolina.Obrigado
01/12/2011 às 15:24 Céu D'Ellia - diz:
Esclarrecedor e obrigatório este seu post. Obrigado.
Estou na torcida para que o assunto Belo Monte inicie uma mudança na forma dos brasileiros lidarem com sua sociedade e com as decisões que são tomadas nestas terras.
A evidente e enorme corrupção que está associada à construção dessa usina só acontece porque a sociedade persiste em ignorar o que é feito com os impostos.
Todo o impacto socio-ambiental, que é o que realmente importa, deixa de ser discutido, legitimando a ação, que culmina no desvio desonesto, puro e simples, dos bens públicos, ao bolso de gente da pior qualidade.
E, como sempre, sobra lógica rasa, muito rasa, de todos os lados. Há gente que afirme: – Se você é contra Belo Monte, então não pode usar computador, que precisa de energia elétrica.-
Incrível, né? Precisa explicar que Bela Monte (que ainda não existe) não é responsável por toda energia elétrica do Brasil? Parece que precisa… E para estudade de engenharia da Unicamp…
01/12/2011 às 16:22 Frank Urben - diz:
João Vicente, quando vc quer dizer para sua namorada ou mulher que a ama, você apresenta para ela cálculos matemáticos provando isso? A matemática é uma ciêcia exata? Irrefutável? Cuidado rapaz a matemática não explica tudo e nunca vai explicar! Tem coisas que são bem mais complicadas que uma simples tabela estatística!
01/12/2011 às 17:47 vânia medeiros - diz:
texto maravilhoso. compartilhadíssimo.
01/12/2011 às 17:48 Pedro Diniz - diz:
Isso aqui é um blog, não é uma tese acadêmica. É evidente que o texto reflete opinião, o objetivo é incitar a reflexão, não produzir ciência. Parabéns Carolina, muito sensato seu texto.
01/12/2011 às 17:48 Eng. Pentian - diz:
Carolina gostei muito do seu texto, entretanto, discordo quando você fala ” A principal motivação para essa usina não é tanto o suprimento energético nacional… “, pois o crescimento brasileiro está a todo vapor com copa e olimpíadas e a geração do brasileira esta quase em seu limite de operação, graças a inserção da geração distribuída esse colapso pode estar sendo revogado. Entendo todos os motivos culturais e ambientais, mais nos brasileiros sempre reclamamos que somos um pais sub desenlvolvido e quando há a possibilidade de desenvolvimento para o brasil todos querem fude com a coisa.
Achei publicações na internet inaceitáveis, como por exemplo o brasil realizar um programa de eficiência energética em todo pais, agora imagina as repartições públicas sem climatizadores de ambiente, imagine limitar banho de 3 minutos pra cada pessoa, chapinha e secador nem pensa, assistir tv apenas 30 minutos por dia, acessar o seu face book por 20 minutos apenas por dia, quem deu a ideia de eficiência energética no Brasil é um louco, alem do que, é impossilvel com qualquer programa de eficiência economizar a potencia gerada pelas usinas belo monte e girau. Gostaria de ver quando começar a falta energia nas residencias se ainda assim cintinuaram apoiando esse embargo da construção de novas usinas. A degradação do meio ambiente é inevitável para o desenvolvimento humano, entretanto tem q ser feita de maneira sustentavel e com responsabilidade.
01/12/2011 às 17:51 arhtur - diz:
Muito bom!
sempre pensei isso: é melhor aumentar a eficiência do que aumentar a produção, e é mais barato também, por que não fazem isso? Provavelmente porque não aparece, ninguém vai mostrar na televisão o número de empregos gerados para trocar as lampadas dos semaforos para LED, melhorar o sistema de distribuição ou qualquer coisa nesse sentido. Só importa o número de pedreiros que estarão lá construindo uma hidrelétrica, com algumas mortes na construção e tudo mais…
01/12/2011 às 19:26 Isa - diz:
Sou a favor da obra com planejamento e monitoramento corretos. Do contrário… Alguns ganham e muitos perdem, como sempre. Mas, se isso fizer com que jovens da mesma idade que eu, que vivam na região norte, tenham acesso a esse desenvolvimento… O abandono da vida “primitiva” pode ter sua razões positivas.
02/12/2011 às 05:09 daniela demetrio - diz:
Gente, quando dizemos eficiencia, quer dizer diminuir o banho, facebook e chapinha ou economia nas produçoes empresas e manutençao correta das linhas energeticas e outras maneiras?
02/12/2011 às 12:04 Lúcio Flávio Pinto - diz:
Prezada Carolina. Seu texto é realmente excelente. O que me surpreende é que questionamentos como o seu parecem encontrar uma parede de concreto à frente do governo. Em 2002 publiquei um livro, “Hidrelétricas na Amazônia: predestinação, fatalidade ou engodo?”. Acho que foi a primeira reação contra o novo projeto de Belo Monte, arquivado em Altamira (e em Washington), em 1989. Eu estava na reapresentação do projeto, feito pela Eletronorte no auditório do Crea, em Belém, no ano anterior. Para viabilizar o empreendimento, a principal atração era a redução da área do reservatório à metade da previsão anterior. Palmas para a Eletronorte. O problema é que para encurtar o lago o efeito era reduzir a oferta de água para garantir a energia firme das 20 gigantescas turbinas, maiores do que as de Tucuruí. Um trunfo ecológico se tornava um golpe na engenharia econômica. Uma usina a fio d’água no Xingu, que perde no verão 30 vezes a água que flui no “inverno” (o que não acontece no Madeira, favorecendo o pequeno reservatório e as turbinas bulbo). A polêmica continuou. Corta daqui, acrescenta dali, conforme o jogo de pressões e interesses, o resultado foi a criação de um Frankenstein. Quanto mais a Eletronorte agiu para agradar os ambientalistas, mais contribuiu para inviabilizar economicamente (e aré tecnicamente) a usina. Claro: não agradou inteiramente a ninguém. Qual a saída? Recomeçar a história. Não para nunca mais construir hidrelétricas na Amazônia, o que seria uma insensatez em tese. Mas para provar qual é a maneira certa de construir hidrelétricas na Amazônia. Nessa perspectiva, sabe-se pouco como fazer. O único avanço desde Tucuru~i/Balbina foi proporcionado por Jirau e Santo Antônio, mas ainda longe de ajustar a nossa engenharia de barragens ao melhor conhecimento atual. Grande abraço, Lúcio Flávio Pinto
02/12/2011 às 12:37 arcturo - diz:
Sobre energia solar tenho um comentário. Dizem que nao vale a pena pelo alto custo correto? Porém isto é uma meia verdade. Veja bem, o custo é alto exatamente por que ninguem utiliza energia solar. Se as pessoas comprassem o preço seria menor. Sem contar que o governo poderia dar icentivo fiscal para quem utilizasse energia solar.
Vou usar carros como exemplo: A 10 ou 20 anos atras quem tinha condições de comprar carro? Hoje com 23 mil eu compro um carro zero. Com 14 mil compro um carro usado modelo 2005. Com 7mil eu compro um carro mais antigo.
Se a Caixa Economica por exemplo, criasse um programa de credito para que quisesse investir em energia solar, e ao mesmo tempo houvesse um incentivo fiscal sobre o IPTU de quem utilizasse as energias solares, e ainda baixasse as aliquotas sobre o produto, e outras taxas, ou ainda se o Brasil se tornasse produtor de celulas fotovoltaicas, bem… o o preço sairia mais em conta. Ai vao dizer ” Nao vai sair mais em conta que uma usina hidrelétrica”. bom, mas pelo menos nao vai ter um monte de indio migrando para as cidades grandes. Ou seja, sai mais em conta SIM
03/12/2011 às 00:36 Ivan B. - diz:
Parabéns pelo texto! O primeiro muito bom que eu leio.
Mas…
…Existem 3 tipos viáveis de energia:
Termoelétrica, Nuclear ou Hidroelétrica. Pode escolher a vontade. Eu duvido que alguém fique com as duas primeiras podendo escolher a última.
Haaaa, mais duas escolhas: vc pode também escolher entre usina hidroelétrica e plantio de soja e extração ilegal de madeira.Aí vc fala: esses depredadores da natureza ! criminosos !
Só que sua casa tem vigamento de madeira, vc come coxinha, arroz, ou qq comida frita e toma banho quente (inclusive no verão).Quem é inocente que atire a primeira pedra.
03/12/2011 às 03:00 Alcides Aluizio de Souza - diz:
Por favor, cada comentário que li ora a favor ora contra e com todas informações técnicas não me convenceram a aceitar a Hidroelétrica de Belo Monte. Conheço muito bem a área, principalmente como vivem o p ovo ribeirinho, com sua cultura e preservando o meio ambiente. O PLANETA TERRA DEPENDE DA FLORESTA AMAZÔNICA, como todos sabem o PULMÃO DO MUNDO. VAMOS RESPEITA-LA.
09/12/2011 às 13:48 Google Earth mostra o impacto das barragens hidrelétricas em rios, pessoas e no clima - Blog da Redação - diz:
[...] também: Burnout de Belo Monte Google Earth estimula geração de energia solar Qual será o impacto ecológico da usina Belo [...]
09/12/2011 às 13:52 Google Earth mostra o impacto das barragens hidrelétricas em rios, pessoas e no clima – Planeta Sustentável - diz:
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22/12/2011 às 16:58 Desenvolvimento? - Eco Balaio - diz:
[...] algumas semanas, quando falei sobre as dúvidas que cercam Belo Monte, o que mais me chamou a atenção nos comentários foi o uso que as pessoas fazem da palavra [...]
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Carolina Derivi é jornalista especializada em sustentabilidade. Começou há sete anos, como estagiária na ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira e de lá pra cá foi repórter e subeditora da revista Página22. Hoje, como freelancer, colabora com diversos projetos de comunicação. Desde que passou uma temporada como voluntária na Chapada dos Veadeiros (GO), aos 18 anos, não perdeu mais a mania de encontrar relações entre meio ambiente e tudo o mais que há na vida. Aqui, discorre sobre as múltiplas conexões entre sustentabilidade, política e economia.
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