BuscaBusca avançada
Publique
o selo
no seu blog
Biodiversidade repartida Carolina Derivi - 25/08/2010 às 11:44
O aniversário mais memorável da minha vida foi o de 18 anos. De adolescente urbanóide mimada e entediada passei a aprendiz de ambientalista, durante uma temporada na cidade de Alto Paraíso, em Goiás. Foi um baita processo de negociação com os meus pais, até que eles permitiram que eu passasse alguns meses como voluntária na ONG local GAMA (Grupo de Apoio ao Meio Ambiente), então administrada pelo Mauro e pela Marla, que me acolheram na casa deles.
Nesse dia, o presente da Marla foi me guiar em uma das minhas primeiras caminhadas pelo Cerrado. A minha guia me proporcionou uma experiência inédita: comer coisas que não vinham numa caixa, ou que não tinham sido lavadas. Prova, prova, ela dizia, enquanto me passava folhas e frutinhas estranhas com sabores totalmente diferentes.
O que não servia para comer ganhava uma explicação. Aquela flor aparece só por três dias no ano e tem um perfume assim-assado, aquela planta tem uma raiz que você faz um chá e ajuda a dormir, aquela folha…
É uma epifania a primeira vez que alguém se descobre um idiota (algumas pessoas nunca descobrem, é verdade). Tudo que eu sabia nos meus parcos 18 anos de vida tinha aprendido nos livros. E todo o incrível conhecimento da Marla vinha simplesmente de viver naquele lugar. Me senti pequena, mas crescendo pela primeira vez. Foi demais.
Estou contando essa história porque ilustra um grande dilema da proteçâo à biodiversidade. A inserção dessa riqueza na contabilidade humana depende muito de ciência e tecnologia, pesquisa, academia, livros. Mas a porta de entrada inevitável é o conhecimento tradicional. Larga um botânico PHD no Cerrado, sem as dicas da Marla, e espera para ver em quantos anos se tira uma agulha do palheiro.
O principal desafio é como conciliar esses dois mundos. O desenvolvimento de um novo produto com os aparatos da modernidade deve algum prêmio aos detentores do conhecimento local associado. No Brasil, esse tema é regulado pela Medida Provisória 2.186/01, que fala em repartição justa e equitativa dos benefícios. Mas o que raios é justo e equitativo? E quem são os donos do saber tradicional? Ninguém sabe dizer ao certo.
A incerteza regulatória, então, desestimula a empreitada comercial da biodiversidade ou estimula pilantragens, como o caso do cupuaçu que foi patenteado no Japão. As indústrias de fármacos e cosméticos têm ampla preferência pelos ativos sintéticos (desenvolvidos em laboratório). É mais simples, as regras são claras, o processo é exclusivo e ninguém tem nada com isso.
Mas pensa só. De um lado do ringue temos o gênio humano, representado por um cientista com um par de décadas de estudo que resumem alguns séculos de conhecimento, brincando de criar moléculas. De outro, temos o gênio da natureza com bilhões de anos de erros e acertos nas costas, com moléculas prontinhas e acabadas. Quem você acha que tem mais chance de oferecer grandes descoberta, soluções nunca dantes imaginadas?
Agora é ficar de olho na próxima conferência das partes da Convenção sobre a Diversidade Biológica, em outubro, na cidade de Nagoya. Um dos principais objetivos é formular um protocolo de ABS (acesso e repartição de benefícios, na sigla em inglês), com regras claras, capaz de estimular as parcerias, a proteção e o aproveitamento econômico dos recursos biológicos.
ver este postcomente
31/08/2010 às 17:50 Anonymous - diz:
Lívia Brito – diz:Simplesmente adoro suas postagens! alias elas já me inspiraram muitas vezes nos meus posts.
01/09/2010 às 11:12 Anonymous - diz:
Carolina Derivi – diz:Lívia, obrigada! Deixe aqui o endereço do seu blog para que eu possa visitar também. Um beijo.
Deixe aqui seu comentário: Preencha os campos abaixo para comentar, solicitar ou acrescentar informações. Participe!
Enviar
Carolina Derivi é jornalista especializada em sustentabilidade. Começou há sete anos, como estagiária na ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira e de lá pra cá foi repórter e subeditora da revista Página22. Hoje, como freelancer, colabora com diversos projetos de comunicação. Desde que passou uma temporada como voluntária na Chapada dos Veadeiros (GO), aos 18 anos, não perdeu mais a mania de encontrar relações entre meio ambiente e tudo o mais que há na vida. Aqui, discorre sobre as múltiplas conexões entre sustentabilidade, política e economia.
• A soma de todos os problemas…
• Ombudsman para as futuras gerações
• Código Florestal: presente e futuro
• Rio+20: o racha que vem de baixo
• A economia florestal vai mal
• Desigualdade faz mal à saúde?
• Nas entrelinhas de uma conferência
• O país mais sustentável do mundo
• Sobre dar valor ao que tem valor
• Trabalhar menos para ser sustentável
• Impacto ambiental na ponta do lápis
• A economia e os arreios ambientais
• Ambientalistas gregos e troianos
• Fundos ambientais: aprender com a África
• Para entender o desmatamento
• A Amazônia e seus quatrilhões
• Embu das Artes e o caminho das pedras
• O melhor investimento do mundo
• Na Amazônia não tem efeito Fukushima
• Sustentabilidade by the book
• Debates esquecidos em Belo Monte
• Código Florestal e as enchentes
• Abrolhos não rima com Petróleo
• Adeus ano velho, adeus Código Florestal
• Sustentabilidade dá dinheiro?
• Pensar global, sabotar local
• Moradores ameaçados de despejo no Madeira
• 100 empresas para mudar o mundo
• Munição para debates climáticos
• Código Florestal tem solução
• Amazônia equatoriana abre mão do petróleo
• A morte da lei climática americana
• Código Florestal: a história sem fim
• Campos de morango para sempre
• O incrível duelo do ruim contra o menos pior
• Pizza na legislação ambiental
• Cadeia do couro fecha cerco contra o desmatamento
• Vila japonesa encara lixo zero
• A economia pode crescer para sempre?
• Sem os gatos, os ratos fazem a festa
• Entre a mata e o machado, quem vai ceder?
• Brasil, terra de “contradições”
• Menos criança, menos carbono
• Congresso pode extinguir leis ambientais
• MP 458 e a repetição da história
• Nove em cada dez são pessimistas
• Por que aderir à Hora do Planeta
• Licenciamento ambiental for dummies
• O salvamento da crise e do clima
• Cidade quebrada reage na Amazônia
• Ideias infames pra salvar o planeta
• A vida menos verde do vizinho
• Além do que agrada aos olhos
• Reino do gado na terra de ninguém
• Rio Madeira, direito e esquizofrenia
• Pódio para os biocombustíveis