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Ambiental de dois gumes Carolina Derivi - 10/03/2010 às 16:31
Fiquei besta com essa notícia: a versão preliminar do próximo Plano Decenal de Energia (PDE) estabelece um redondo zero para participação de termelétricas na expansão energética do país até 2018. Zero. Nada mal considerando que muitos analistas apostam que a matriz elétrica brasileira tende a sujar cada vez mais, e a fissura do governo por térmicas sempre foi a principal crítica.
Segundo a reportagem do Jornal da Energia, o governo acredita que uma capacidade excessiva de termelétricas foi contratada nos últimos anos. Ninguém duvida. Mas o próximo PDE traria ainda uma novidade expressiva: 30% dos novos 26,5 mil MW previstos para o período viriam de energia renováveis alternativas, como eólica e biomassa. A título de comparação, o último PDE estimava apenas 4,5% para essas pequenas notáveis.
O que não mudou é a ameaça de sempre, segundo a mesma reportagem: Esta estratégia de expandir com fontes limpas só não será colocada efetivamente em prática se entraves ambientais impedirem a entrada de plantas hídricas nos próximos leilões de energia. É uma chantagem antiga e aparentemente inescapável: vocês quem energia limpa? Então parem de reclamar das grandes hidrelétricas e liberem nossas licenças.
O que mais me interessa não é nem o argumento de que hidrelétricas não são tão limpas assim, afinal, as alterações químicas de grandes reservatórios provocam maior emissão de metano, um gás mais perigoso que o carbono para a mudança do clima. O diacho mesmo é que o discurso ambiental, amplamente apropriado por todo tipo de gente, tem dois gumes.
A minha aposta é que a chantagem só vai aumentar. O que antes era um dilema entre hidrelétricas e termelétricas passará a ser ainda mais contundente. Ou teremos as gigantes da energia hídrica ou nada das amadas e tão esperadas renováveis alternativas. O fato é que essa dicotomia imposta pelo governo não traduz a realidade que, como sempre, é muito mais complexa.
Estive recentemente em Altamira e Anapu, a região que vai receber a hidrelétrica de Belo Monte. São municípios miseráveis que terão de enfrentar uma lista imensa de problemas por conta da nova obra: comprometimento da qualidade da água, extinção de espécies, perda de vias navegáveis, sucateamento de serviços públicos, aumento descontrolado da população e por aí vai…
Não tive tempo de me aprofundar em cada um desses problemas, mas me apoquenta a ideia de que em mais de 20 anos o Ibama não foi capaz de aprovar um projeto inatacável. Pra mim, o dilema é outro: ou se encontra uma maneira qualificada de discutir e preparar as condições para instalação desses grandes empreendimentos, ou o movimento ambiental pousará cada vez mais de incoerente, permitindo que seus próprios argumentos lhe venham morder o traseiro.
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Carolina Derivi é jornalista especializada em sustentabilidade. Começou há sete anos, como estagiária na ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira e de lá pra cá foi repórter e subeditora da revista Página22. Hoje, como freelancer, colabora com diversos projetos de comunicação. Desde que passou uma temporada como voluntária na Chapada dos Veadeiros (GO), aos 18 anos, não perdeu mais a mania de encontrar relações entre meio ambiente e tudo o mais que há na vida. Aqui, discorre sobre as múltiplas conexões entre sustentabilidade, política e economia.
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