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Amazônia equatoriana abre mão do petróleo Carolina Derivi - 04/08/2010 às 13:11

Na última hora, depois de vencidos todos os prazos para um acordo, o Parque Nacional do Yasuní, no Equador, livrou-se de virar uma imensa plataforma de exploração de petróleo. Essa é uma daquelas notícias paradigmáticas, que indicam que apesar das previsões sempre desoladoras, o mundo pode mesmo se tornar um lugar em que floresta, direitos humanos e biodiversidade valem mais que o próprio ouro negro.

O acerto prevê a criação de um fundo administrado pelo Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD) que receberá aportes milionários de países e empresas. Em troca, o governo de Rafael Correa deixará intocados os cerca de um bilhão de barris que dormem sob o solo amazônico.

Alemanha, Itália, Espanha e Bélgica já se candidataram a contribuir e o fundo pode chegar a US$ 100 milhões nos primeiros 18 meses. A expectativa do Equador é levantar pelo menos metade dos US$ 7 bilhões que renderia o petróleo do Yasuní e todo o dinheiro será usado pelo país para incentivar o desenvolvimento de formas alternativas de geração de energia limpa.

Meu queixo quase caiu quando li a notícia. Isso porque acompanhei essa história durante anos. Com mais de 900 mil hectares, o Yasuní é Reserva da Biosfera e um dos campeões mundiais em biodiversidade, além de ser lar de populações indígenas e tradicionais. Mas, por trágica ironia, também abriga essa fortuna em petróleo. O mesmo vale para várias outras regiões da Amazônia continental, aliás, inclusive no Brasil.

Em janeiro, publiquei aqui um post desanimado sobre esse assunto. O plano de salvar o Yasuní dava sinais de arrefecer e havia ainda um ultimato até o mês de junho para que a comunidade internacional se dignasse a colocar o dinheiro na mesa.

Vontade de dar um beijo na testa do Correa! Que baita ideia essa! E tão improvável, tão utópica… Pouca gente acreditava que poderia dar certo. E agora esse é mais um dos casos que entram para os anais do “ganha-ganha” ambiental.

Ganham os povos do Yasuní com saúde e dignidade. Ganham os países apoiadores que vão poder debitar o investimento de suas próprias metas de redução de emissões de carbono. Ganha o Equador com dinheiro no bolso e a possibilidade de fazer parte da solução e não do problema.

E claro, ganhamos todos nós, porque essa jogada evitará mais de 400 milhões de toneladas de carbono na atmosfera, quase equivalente ao que o Brasil emite em um ano.

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Comentários

05/08/2010 às 08:42 Anonymous - diz:

Gustavo Faleiros – diz:CarolA notícia é boa não há dúvida. Mas o precedente que essa atitude abre não é bom, na minha opinião. Se a biodiversidade é tão importante porque o Rafael Correa simplesmente não a protegeu sem cobrar por compensações? O precedente para os países em desenvolvimento da Amazônia, incluindo o Brasil, é esse: me paga ou eu destruo. Yasuní é utópico é verdade. Mas leva muita da disputa o Norte contra o Sul.

05/08/2010 às 12:51 Anonymous - diz:

Carolina Derivi – diz:Oi Faleiros, legal você por aqui! Pois é, eu entendo seu ponto de vista. Mas acho que há uma diferença muito grande entre evitar o desmatamento ilegal, que sob todas as perspectivas é um prejuízo, e deixar de ganhar os bilhões de dólares do petróleo. O embaixador Sergio Serra já até esnobou o Redd e disse que o Brasil vai cumprir seus compromissos mesmo sem a ajuda de ninguém. No caso do Yasuní, não vejo outra solução. E acho incrível um arranjo econômico capaz de priorizar a floresta em detrimento do petróleo. O que se pode argumentar é que a legislação equatoriana que permite exploração dentro dos parques nacionais é sem cabimento. Mas mesmo que fosse diferente, bastaria mudar o parque. O Brasil já alterou o traçado de unidades de conservação por muito menos. Acho que a remuneração por iniciativas como a de Correa é o que permite as coisas acontecerem agora, sem que seja preciso esperar por um patamar “xpto” de consciência ambiental global. Enfim, essa conversa é boa!

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Eco BalaioCarolina Derivi

Carolina Derivi é jornalista especializada em sustentabilidade. Começou há sete anos, como estagiária na ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira e de lá pra cá foi repórter e subeditora da revista Página22. Hoje, como freelancer, colabora com diversos projetos de comunicação. Desde que passou uma temporada como voluntária na Chapada dos Veadeiros (GO), aos 18 anos, não perdeu mais a mania de encontrar relações entre meio ambiente e tudo o mais que há na vida. Aqui, discorre sobre as múltiplas conexões entre sustentabilidade, política e economia.

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