BLOGS |Eco Balaio

O índio e o Google Carolina Derivi - 14/04/2008 às 12:19


Conheci Almir Suruí em julho do ano passado, em Porto Velho (RO). O líder indígena que caiu nas graças do Google, e conquistou a cooperação que vai levar o Google Earth a fornecer mapas da devastação na Amazônia, estava preocupado com o aumento das invasões de terras indígenas no estado.

Uma das conseqüências da construção do complexo hidrelétrico do rio Madeira, em Rondônia, é a especulação fundiária e a migração acelerada. São dois ingredientes fundamentais para uma explosão de desmatamento em áreas protegidas. “Se a Funai não consegue dar conta dos invasores agora, imagina se piorar”, disse ele.

Quando me contou sobre sua negociação com o Google, Almir se mostrou bastante tranqüilo e consciente: “Esses madeireiros e grileiros que me ameaçam, eu também estou pensando neles. Se eles desmatarem tudo que há para desmatar, como vão viver depois?”  

Acho triste a ao mesmo tempo fascinante que o índio tenha que recorrer a um gigante norte-americano para fortalecer a proteção de sua terra (no caso, a TI Sete de Setembro, entre Rondônia e Mato Grosso). Na falta de instrumentos nacionais eficientes, vale a criatividade e a ousadia de brasileiros que, como eu já comentei aqui, prestam um baita serviço pela preservação da Amazônia.

Antes de se aventar teorias conspiratórias sobre o domínio estrangeiro na Amazônia, que naturalmente surgem frente a uma iniciativa como essa, é bom que se pense primeiro sobre a falta que o Google Earth pretende ajudar a preencher: como fazer com que as áreas protegidas o sejam na prática e não só no papel.

Especialmente agora, com toda a polêmica sobre a desocupação da TI Raposa Serra do Sol, em Roraima, as discussões estão focadas em compensar financeiramente estados e municípios. É o que ocorre hoje com o ICMS ecológico e o que se pretende fazer com o Fundo de Participação dos Estados (FPE Verde), ainda em discussão no Congresso. Em ambos os mecanismos os princípio é o mesmo: unidades da Federação que abrigam áreas protegidas recebem uma fatia a mais dos repartes a título de compensação.

Na minha modesta opinião falta uma “virgulazinha” nesse tipo de incentivo. Que sejam liberados os recursos apenas mediante comprovação de desmatamento zero nas devidas áreas. Do contrário, há o risco de que os incentivos econômicos não cumpram o papel para o qual foram criados, e as chamadas “áreas protegidas” permaneçam na ficção. E Aí nem o Google salva.

Foto: Google Earth – TI Igarapé Laje, em Rondônia, pressionada pelo desmatamento.
Aqui, a reportagem do Estadão sobre a pareceria entre os índios e o Google.

ver este postcomente
Comentários

11/02/2012 às 17:57 Carbono Suruí: primeira ação indígena de REDD+ no país | Planeta em Perigo - diz:

[...] O cálculo da quantidade de emissões de CO2 que foram evitadas graças às ações de REDD+ na TI é feito pela própria comunidade indígena, por meio de aparelhos Android – isto porque os Suruí são uma das etnias indígenas mais ligadas à tecnologia no Brasil e, inclusive, utilizam o Google Earth como ferramenta de combate ao desmatamento na Amazônia (para saber mais, leia O índio e o Google).  [...]

Deixe aqui seu comentário: Preencha os campos abaixo para comentar, solicitar ou acrescentar informações. Participe!

Enviar

Eco Balaio

Carolina Derivi é jornalista especializada em sustentabilidade. Começou há sete anos, como estagiária na ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira e de lá pra cá foi repórter e subeditora da revista Página22. Hoje, como freelancer, colabora com diversos projetos de comunicação. Desde que passou uma temporada como voluntária na Chapada dos Veadeiros (GO), aos 18 anos, não perdeu mais a mania de encontrar relações entre meio ambiente e tudo o mais que há na vida. Aqui, discorre sobre as múltiplas conexões entre sustentabilidade, política e economia.

Clique e faça o download

Revista do clima Material de etiqueta

Posts anteriores

Receba as noticías mais recentes

assine RSS Eco Balaio