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Biodiversidade minguante Carolina Derivi - 17/05/2012 às 16:46

Eu costumo evitar aqui as previsões catastróficas para um futuro sombrio. Procuro me focar nas boas ideias capazes de entusiasmar os leitores. Mas fiquei abismada com a informação de que a humanidade conseguiu eliminar 30% das espécies biológicas que existiam no planeta desde 1970. Em apenas quarenta anos, quase um terço da biodiversidade mundial foi para o saco. A constatação está no relatório bianual Living Planet, produzido pelo WWF.

É uma proeza assustadora. E confirma o que os cientistas que estudam resiliência (a capacidade dos sistemas de resistirem a tensões e impactos) infelizmente já constataram: no que diz respeito à biodiversidade e à mudança do clima, ultrapassamos um ponto sem volta. A grande maioria dos efeitos é imprevisível.

O declínio da biodiversidade é muito, mas muito mais grave do que o aspecto ético e espiritual de sermos os responsáveis pela extinção de uma espécie. Do ponto de vista utilitarista, eu costumo comparar a biodiversidade a uma caixa de ferramentas. Toda forma de vida cumpre um papel no fino equilíbrio da vida. São como engenhocas que podemos usar ou com quais podemos aprender para evoluir e superar os mais diversos desafios da aventura humana. Agora e para sempre, essa caixa de ferramentas ficou um terço mais pobre.

Assim, a perda de espécies também representa a perda dos serviços que elas prestavam dentro de seus contextos. Esse processo pode (e deve) aumentar a vulnerabilidade dos ecossistemas terrestres e aquáticos à mudança do clima, por exemplo, ou agravar a acidificação dos oceanos que, vamos lembrar, são o principal sumidouro de carbono do mundo e uma fonte importantíssima de comida.

Mais perverso ainda: o enlace entre humanidade e natureza é tão profundo, embora a gente frequentemente se esqueça disso, que a degradação da biodiversidade se transforma cabalmente em menos sociodiversidade. Se desaparecem aqueles elementos que compõem a feitura de remédios naturais, a culinária, os rituais religiosos, as artes e o folclore, então nossa cultura se empobrece. Como seres culturais, estamos nos tornando paulatinamente commoditizados.

É claro que a extinção não é nenhuma novidade para a natureza. Espécies desapareceram aos montes desde o princípio dos tempos. Como resultado, outras evoluem numa determinada direção e os ecossistemas se reorganizam. Isso é a resiliência. Mas como disse antes, a ciência começa a arranhar a superfície do que seria um abuso da capacidade de adaptação dos sistemas naturais. Estudos do Centro de Resiliência de Estocolmo indicam que esse limite seria em torno de dez vezes superior à taxa de extinção que existia no planeta mil anos atrás. No entanto, as taxas atuais já atingem pelo menos um fator de 100.

Foto: Filhote de louva-deus sobre um dedo humano. A extinção é “a morte do nascimento”. Crédito: Woodley Wonderworks

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A soma de todos os problemas… Carolina Derivi - 10/05/2012 às 16:49


…às vezes é a solução.

As agendas social e ambiental permaneceram separadas – e frequentemente como adversárias – durante muito tempo. Mas nesse começo de século, a desigualdade socioeconômica que motiva acampados e indignados, também motiva ambientalistas. A crise ambiental planetária (não só a climática) chegou a tal ponto que as pessoas começam a reconhecer na redução das desigualdades a única saída efetiva para promover a sustentabilidade ambiental e o bem estar social simultaneamente.

Eu já falei sobre isso aqui no blog algumas vezes. Mas estou cada vez mais convencida que a desigualdade é o fator x que permeia todos os problemas, desde a crise financeira até a mudança do clima.

Creio que a maneira mais didática para que o leitor possa visualizar o problema é navegar um pouco pelos gráficos de países no Global Footprint Network. A organização compara a biocapacidade de cada nação (o total de recursos e serviços naturais disponíveis no território) com a pegada ecológica (o que efetivamente aquela sociedade consome, em termos biofísicos).

É batata. Quase todos os países ricos têm um gráfico vermelho, indicando que a pegada ecológica supera muito a biocapacidade doméstica. Os únicos continentes com saldo positivo, cuja pegada ecológica é menor que a biocapacidade, são a América Latina e a África.

É de se perguntar: como é que os Estados Unidos têm esse saldo devedor gigantesco e até agora não aconteceu uma hecatombe ambiental por lá? Como é que eles têm esse saldo devedor gigantesco e mesmo assim conseguiram estabilizar a cobertura florestal desde os anos 1950?

A resposta, meus amigos, é vazamento. Como não existe cheque especial na natureza, a realidade é que o planeta é um só, em algum lugar esse sobreconsumo estoura na forma de degradação e esgotamento de recursos naturais. E isso está acontecendo nos países do Sul Global, aqueles que ainda têm reservas a oferecer. E viva a economia globalizada.

O problema é que, no longo prazo, os países que mais precisam de crescimento econômico e mais precisam de inclusão social estão arruinando a biocapacidade necessária para promover essa transição. Assim, a injustiça do consumo de recursos naturais é a mesma injustiça da distribuição de riquezas no mundo. Não tem diferença. É a cara de uma e o focinho da outra.

É por isso que a Oxfam (já falei deles por aqui) defende que a humanidade precisa viver dentro de uma rosquinha. Ou seja, dentro dos limites sociais mínimos e dos limites ambientais máximos. Não existe possibilidade biofísica de erradicar a pobreza sem que se diminua o fosso da desigualdade, entre os países e no interior dos países.

Constatar é uma coisa. Solucionar é outra, bem diferente. Mas, como diriam os alcoólicos anônimos, reconhecer o problema é o primeiro passo.

Foto: HikingArtist.com

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Ombudsman para as futuras gerações Carolina Derivi - 02/05/2012 às 20:25

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Estou entusiasmada com a Rio+20. Sério. Cada vez mais. Como diz o meu perfil aí do lado, o grande barato da sustentabilidade é o ambiente criativo que essa conversa provoca. Tantas boas ideias já surgiram – e surgem a todo momento – a partir da provocação pelo desenvolvimento sustentável.

Um exemplo é a proposta da ONG World Future Council para o eixo temático da governança. Problema: Como fazer com que os governantes assumam compromissos de longo prazo, quando todos eles estão atrelados a agendas de curto prazo, determinadas pelos ciclos eleitorais? Proposta: institua um ombudsman das futuras gerações. Ou ombudsperson, para ser politicamente correta.

A experiência começou na Hungria, em 2007, com o Comissário Paralamentar para as Futuras Gerações. O comissário tem a função de avaliar todas as políticas e programas, desde a formulação até a aplicação, e ver se há algum risco para o bem-estar da população no longo prazo.

Ele tem total acesso a informação dentro do governo e alto nível de interlocução com a sociedade. Investiga denúncias, faz recomendações e em último caso pode acionar a justiça. Seu mandato não pode ser interrompido. A escolha é feita pelo parlamento, a partir de uma lista de representantes da sociedade civil, com o único critério de reputação e excelência.

Claro, o ombudsman não tem poder executivo. É um palpiteiro. Mas é justamente essa característica que lhe confere total independência. E que lhe obriga a ficar atento à transparência e à legitimidade.

É certo que nem todo governante gostaria de instituir um corneteiro intrometido nos assuntos de Estado. Qualquer instituição que contrata um ombudsman já precisa ter uma trajetória de compromisso com a transparência. Ainda assim, é uma ótima ideia fora da caixa. Pois se é tão difícil reformar a velha política por dentro, por que não estabelecer um contrapeso paralelo que não tem nada a ver com a velha política?

Essa é uma dentre várias boas ideias que venho conhecendo e todas elas têm o mesmo vertedouro: a Rio+20. A conferência mobiliza uma enxurrada de lobbys de todos os tipos e direções. Ninguém pode dizer que isso não vai dar em nada, mesmo que O Grande Acordo Multilateral deixe a desejar. É como diz o outro: “vamos guardar o pessimismo para dias melhores”.

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Eco BalaioCarolina Derivi

Carolina Derivi é jornalista especializada em sustentabilidade. Começou há sete anos, como estagiária na ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira e de lá pra cá foi repórter e subeditora da revista Página22. Hoje, como freelancer, colabora com diversos projetos de comunicação. Desde que passou uma temporada como voluntária na Chapada dos Veadeiros (GO), aos 18 anos, não perdeu mais a mania de encontrar relações entre meio ambiente e tudo o mais que há na vida. Aqui, discorre sobre as múltiplas conexões entre sustentabilidade, política e economia.

Posts anteriores

• Biodiversidade minguante

• A soma de todos os problemas…

• Ombudsman para as futuras gerações

• Código Florestal: presente e futuro

• Rio+20: o racha que vem de baixo

• Dilma e o desgosto

• Nada é tão fácil

• A economia florestal vai mal

• Desigualdade faz mal à saúde?

• A última de Kátia Abreu

• Além do Código Florestal

• Não será por falta de aviso

• Nas entrelinhas de uma conferência

• O país mais sustentável do mundo

• O tripé das dúvidas

• Rio+20 em miúdos

• A boa vida e a velhice

• Sobre dar valor ao que tem valor

• Trabalhar menos para ser sustentável

• Desenvolvimento?

• Impacto ambiental na ponta do lápis

• Calar com convicção

• Burnout de Belo Monte

• A economia e os arreios ambientais

• Ambientalistas gregos e troianos

• Geração meio ambiente

• O ótimo é inimigo do bom?

• #Florestafazadiferença

• Rio+20 e a participação

• Contornos da Rio+20

• Falta pânico?

• Floresta que dá dinheiro

• Floresta boa é…

• Fundos ambientais: aprender com a África

• Para entender o desmatamento

• Falando em comida…

• A volta do Capitão Planeta

• A Amazônia e seus quatrilhões

• Embu das Artes e o caminho das pedras

• Eficiência bumerangue

• Ainda Kyoto

• Ambientalismo festivo

• Clássicos da maquiagem

• O enigma da terra

• Ressaca florestal

• Cenoura ou chicote?

• Imitando a natureza 2

• Imitando a natureza

• O melhor investimento do mundo

• Combustíveis da discórdia

• Aprender a conversar

• Na Amazônia não tem efeito Fukushima

• Sustentabilidade by the book

• A farra no licenciamento

• Mulheres florestais

• Ecobag econfusa

• Para inglês ver e acontecer

• Acomodação

• Oscar verde

• Debates esquecidos em Belo Monte

• Momento Sputnik

• Código Florestal e as enchentes

• Abrolhos não rima com Petróleo

• Fatos Florestais 2010

• Um calorzinho a mais

• Adeus ano velho, adeus Código Florestal

• REDDenção

• Etanol pela culatra

• Sustentabilidade dá dinheiro?

• O piloto do clima

• Ponto para a biodiversidade

• Pensar global, sabotar local

• Manejar e deslanchar

• Moradores ameaçados de despejo no Madeira

• A ressaca de Copenhague

• Pra quê serve uma floresta?

• O massacre dos golfinhos

• Pobre demais para ser verde

• 100 empresas para mudar o mundo

• Munição para debates climáticos

• Biodiversidade repartida

• Diversidade bio e cult

• Código Florestal tem solução

• Amazônia equatoriana abre mão do petróleo

• A morte da lei climática americana

• Madeeeeeeira

• O quinto elemento

• Código Florestal: a história sem fim

• Campos de morango para sempre

• A moda das palavras

• O incrível duelo do ruim contra o menos pior

• Pizza na legislação ambiental

• Façam suas apostas

• Biodiversidade e pobreza

• Pesca irracional

• Contabilidade ambiental

• Petróleo em toda parte

• Cadeia do couro fecha cerco contra o desmatamento

• Verde, não. Turquesa

• Vila japonesa encara lixo zero

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