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Confissões de insustentabilidade Carolina Derivi - 04/12/2012 às 18:34

Pouco antes da Rio+20, perguntei à economista Kate Raworth (autora do diagrama da rosquinha) sobre o inconveniente de se falar que o planeta tem limites para atender às nossas necessidades e desejos. A conversa é especialmente difícil quando ainda existe tanto déficit social a remediar. Devemos ficar espremidos entre uma fronteira e outra? Ela me respondeu o seguinte:

Os seres humanos prosperam dentro de limites físicos. Há um limite para a velocidade de nossos batimentos cardíacos, ou para a temperatura do nosso corpo, o que evita o risco de um colapso. Respeitar esses limites corporais não restringe o nosso potencial. Pelo contrário, nos protege do perigo e assim possibilita que busquemos as nossas aspirações.

Da mesma forma, os limites planetários têm o intuito de manter a humanidade dentro da boa saúde do Holoceno, era geológica extraordinariamente estável e benevolente dos últimos 10 mil anos ou mais, que deu origem à agricultura e que permitiu que grandes civilizações se desenvolvessem. Por essa razão, é precisamente entre os limites ambientais e sociais que os seres humanos têm a maior chance de prosperar e buscar o seu bem-estar.

Recentemente passei por uma crise de estresse relacionado ao trabalho (chamada síndrome de burnout) e me lembrei horrorizada da Kate e da rosquinha. Percebi que estava infringindo sobre o meu próprio corpo a mesma estupidez que critico nos meus textos quando se trata de sustentabilidade ambiental.

O padrão é o mesmo: o corpo começa a dar sinais de esgotamento, assim como o planeta também o faz, mas a gente prefere ignorar. Penso: tô exausta e batendo pino, mas não posso parar porque de mim dependem tantas coisas importantes (trabalho, consumo, status profissional, contas a pagar). Então vou seguir desse jeito. Em 2015 eu começo a negociar um acordo comigo mesma para ratificar em 2020 e passar a pegar leve. Até lá eu me viro com a tecnologia salvadora: tomo um negocinho pra acordar, outro pra dormir, outro pra parar de chorar, fumo muitos cigarros. Tudo vai dar certo.

Só que não. Quando o meu cérebro virou geleia, era como se os neurônios fossem refugiados ambientais evacuando uma terra arrasada. E depois o custo (emocional, financeiro, profissional etc.) para me recuperar tem sido muito maior do que se eu simplesmente tivesse descansado quando deveria (lembram do Relatório Stern? 1% do PIB mundial para resolver o problema agora ou 20% daqui a 50 anos).

Por motivos óbvios portanto, faz tempo que o excesso de trabalho na vida contemporânea ultraconectada me interessa mais que as florestas, original tema de análise deste blog. Não tenho dúvidas de que o estresse é uma pandemia. E tal como a crise ambiental, tem origem em valores perversos: a exaustão como símbolo de sucesso e a crença de que a importância das pessoas está atrelada somente àquilo que elas produzem.

Depois de cinco anos e meio, este blog chega ao fim. De tanto falar em sustentabilidade, já está na hora de praticá-la começando por mim. Recomendo.

Foto: Mykl Roventine

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Desmatamento – o retorno Carolina Derivi - 22/11/2012 às 17:12

A ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva já dá como certa a reversão do quadro de queda histórica no ritmo de desmatamento na Amazônia. A respeito dos dados do Imazon, que detectou por satélite um aumento de 400% no último mês -em relação ao mesmo período em 2011 – disse Marina no Twitter: “Cai por terra uma década na luta contra destruição da Amazônia. Futuras gerações sofrerão as consequências do retrocesso”.

De fato, os ingredientes para a retomada estão todos aí. A expectativa de uma nova crise dos alimentos em 2013, devido aos baixos estoques mundiais de grãos, cria condições para a valorização de algumas commodities agrícolas que já acumulam expressiva alta neste ano.

Acrescente o espalhamento de grandes obras de infra-estrutura na Amazônia sem o devido planejamento territorial, uma combinação que resulta em floresta abaixo desde que o mundo é mundo. Na verdade, nem é preciso que os canteiros entrem em ação. Sabe-se que a mera expectativa de grandes empreendimentos já é suficiente gerar uma corrida pela terra. Só no campo das hidrelétricas, são 23 novos projetos destinados à região amazônica.

A novela do Código Florestal esvaziou a consistência de ações de comando e controle às quais o próprio Governo Federal creditava a queda contínua dos índices desde 2005. Multas e restrições ambientais ao crédito agrícola estão no limbo. O Ibama está é sucateado e perdeu bala na agulha para o estados que não compartilham informações entre si, o que faz com que o tráfico de madeira fique mais difícil de fiscalizar.

Eu incluiria ainda a lenda dos cerca de 15 milhões de hectares já desmatados, porém abandonados ou subutilizados. É um clichê repetido por oficiais de governo e ambientalistas há anos: “não precisamos mais derrubar nenhuma árvore, só aproveitar as terras que já foram convertidas”. Até hoje não existe um plano para isso.

Entretanto, o fato de que ainda estamos lidando com as menores taxas históricas torna o prognóstico um tanto imprevisível. Os vetores de desmatamento são antigos e manjados, mas o balanço da destruição da Amazônia hoje é inédito. É difícil imaginar que uma tendência consistente de queda venha a explodir meteoricamente de um ano para o outro. Se houver alta, porém modesta, o governo botará panos quentes e dirá que não é caso para alarde. E é exatamente nesse tipo de postura que mora perigo.

Eu espero sinceramente que o compromisso brasileiro de reduzir emissões de gases de efeito estufa tenha elevado a barra do jogo. Se o desmatamento na Amazônia é alto ou baixo é uma questão relativa. Os 18 mil quilômetros quadrados derrubados em 2005 já eram considerados avanço. Em 2012, algo como 8 mil deveria ser intolerável.

Foto: Haroldo Kennedy

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Na ponta do lápis Carolina Derivi - 07/11/2012 às 13:09

Há pouco mais de quatro anos, o economista britânico Nicholas Stern publicou o mais aclamado estudo econômico sobre mudanças climáticas. O relatório Stern estimava que um investimento da ordem de 1% do PIB global seria suficiente para evitar perdas de até 20% do mesmo PIB no prazo de 50 anos.

Foi o ponto alto de uma tendência que virou moda. Políticas de sustentabilidade precisam vir acompanhadas da máxima racionalidade econômica. A comparação entre custos atuais e projetados no futuro entrou com tudo no campo socioambiental. Seja para preservar uma floresta, seja para expandir a energia eólica, mostre-me as contas e te direi se a ideia é ou não “viável”.

E as evidências não param de crescer. O novo relatório Climate Vulnerability Monitor traz a conversa para o tempo presente. Diz que os custos atuais de manter a economia de alto carbono (pense em subsídios + a própria exploração de combustíveis fósseis, que se torna mais difícil e mais cara), combinados aos prejuízos de eventos climáticos extremos, já custa 1,6% do PIB mundial anualmente. Pois se investíssemos algo como 0,5% do PIB em medidas de baixo carbono todos os anos, a conta passa a ser mais barata e os resultados menos dolorosos.

Mas como explicar o fato de que toda a matemática financeira ainda nos posiciona tão longe de manter o aquecimento do planeta abaixo de 2 graus que a nem se enxerga mais a meta no horizonte?

Há muitas explicações para isso. A minha favorita é que cenários macroeconômicos não necessariamente se refletem com perfeição na microeconomia. O que faz sentido na planilha global pode não aparecer no balanço de uma empresa. E como ficou demonstrado ao longo da primeira administração Obama, com o abandono da lei climática, precisamos do apoio dos constituintes para promover guinadas mais sérias.

Daí que a gente pode esperar que os anos tragam perturbações meteorológicas tão intensas e dispersas que afetem diversos setores a ponto de criar massa crítica. Ou pode-se imprimir sobre os negócios hoje o custo efetivo da crise ambiental. A ideia atende pelo nome de imposto sobre carbono. Mas, de novo, estamos diante do paradoxo de encarecer os negócios para torná-los economicamente mais racionais. Ninguém gosta de imposto. Vá mexer nesse vespeiro político.

O argumento é circular de propósito. Não se questiona a necessidade da terminologia econômica, já que é um dos muitas prismas necessários para se interpretar o mundo. Mas… É suficiente?

Foto: Chris Cummings

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Eco Balaio

Carolina Derivi é jornalista especializada em sustentabilidade. Começou há sete anos, como estagiária na ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira e de lá pra cá foi repórter e subeditora da revista Página22. Hoje, como freelancer, colabora com diversos projetos de comunicação. Desde que passou uma temporada como voluntária na Chapada dos Veadeiros (GO), aos 18 anos, não perdeu mais a mania de encontrar relações entre meio ambiente e tudo o mais que há na vida. Aqui, discorre sobre as múltiplas conexões entre sustentabilidade, política e economia.

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