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Divergentes positivos pelo mundo Planeta Sustentável - 27/03/2014 às 11:08

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No final de seu livro, Sara Parkin destaca nomes de 23 empreendedores que representam grandes divergentes positivos que fizeram e fazem diferença pelo mundo:

DANIEL BARENBOIM
Pianista e maestro argentino, Daniel Barenboim passou a vida numa relação apaixonada com a música, in­tegrando e regendo grandes orquestras no mundo todo. Entretanto, sua outra paixão, a situação no Oriente Médio, lhe causa sofrimentos constantes: “Não consigo suportar a injustiça. Diariamente ela me atormenta. Tanto no que diz respeito aos palestinos quanto aos israelenses”. Em 1999, Daniel Barenboim montou a West-Eastern Divan Orchestra, com músicos jovens de Israel, Cisjordânia, Síria, Líbano, Egito, Jordânia, Turquia e, mais recentemente, Irã. A orquestra apresenta atualmente concertos no mundo inteiro (inclusive, como foi ampla­mente divulgado e após intensas negociações diplomáticas, em Ramalá, em 2005). Ele também desafiou o público de Israel ao tocar Wagner em Jerusalém, em 2001. “Fazer o impossível sempre me atraiu mais do que fazer o difícil. Quando você tenta o impossível, o que se espera é o fracasso; portanto, o que quer que faça para evitar isso já é um resultado positivo”. Ele acredita na mú­sica como uma força capaz de promover a harmonia e a mudança: “Pode-se aprender muito com a música… Você se expressa, mas, ao mesmo tempo, escu­ta o que os outros estão tocando. Pense no valor dessa lição para a vida: como seria a nossa vida e como seriam nossos políticos se pensassem assim. Por isso, toda criança deveria receber educação musical”.

Em outro continente, o venezuelano José Antonio Abreu também cons­tatou o potencial da música para combater o crime e a miséria. Ele montou o El Sistema, uma rede de educação musical e orquestras infantis e jovens para os pobres. A participação na música, assegura ele, ajuda “na luta da criança pobre e abandonada contra tudo quanto se opõe à sua plena realização como ser humano”.

HOLDEN, Anthony. The whole world in his hands. The Telegraph, London, 3 Aug. 2009; KENDALL, Paul. Playing for peace. The Telegraph, London, 9 Aug. 2009.

HEWITT, Ivan. El Sistema: music of hope from the barrios. The Telegraph, 30 May 2008.

BAREFOOT COLLEGE
Barefoot College começou como uma instituição para formar homens e mulheres pobres, analfabetos ou semianalfabetos, usualmente do campo, como “engenheiros descalços” que pudessem, por exemplo, instalar equipa­mentos de energia solar em áreas remotas. A ideia de adquirir conhecimento bom o bastante e habilidades suficientes para fazer o que é preciso não é nova, mas Bunker Roy, que fundou o Barefoot College no Rajastão, Índia, aplicou o conceito de “descalço” a diferentes áreas promotoras de benefícios sociais e ambientais – coleta de água, escolas noturnas, centros de saúde e moradia.

JOHN BIRD
Este foi um divergente social no mau sentido e, agora, é um desta­cado ativista e empreendedor social em benefício dos pobres, sem-teto e ou­tros socialmente excluídos. Com o apoio dos fundadores da Body Shop, Anita e Gordon Roddick, fundou em 1991 o Big Issue, a ser vendido por desabriga­dos como alternativa à mendicância. Atualmente vendido em todo o Reino Unido e, em versões diferentes, em vários outros países, o Big Issue é típico da abordagem de John Bird: em vez de dar esmolas, ajude as pessoas a se aju­darem, para que recuperem a autoestima, a dignidade e o controle sobre suas próprias vidas. Por isso ele é contrário às distribuições de sopa, dizendo: “Não alimentamos nossos cachorros na rua, por que faríamos isso com gente?” Seus muitos projetos, eventos e outros serviços em prol dos “vendedores” são con­duzidos por intermédio da Big Issue Foundation, fundada em 1995. Em 2006, Bird lançou o Wedge Card, um cartão-fidelidade para comerciantes indepen­dentes em Londres.

DAVID CADDICK
Presidiu o julgamento dos seis ativistas do Greenpeace acu­sados pelo proprietário E.ON de provocar o incêndio criminoso na usina de carvão de Kingsnorth, Reino Unido, em setembro de 2008. Os ativistas subi­ram a uma chaminé para protestar contra os planos do governo de construir uma nova estação no local. Resumindo, o juiz Caddick explicou que tudo era uma questão de saber se os ativistas tinham ou não uma desculpa legal para seus atos. Para que essa razão fosse alegada, disse ele, era necessário provar que a ação se devera a uma necessidade imediata de proteger uma propriedade pertencente a outrem. A defesa argumentou que esse era o caso, apresentando evidências de que diariamente vinte mil toneladas de CO2 emitidas pela usina já em funcionamento causavam danos ao clima, às espécies e às regiões de Kent vulneráveis à subida do nível do mar. Além disso, não era razoável protes­tar contra usinas similares que proliferavam na China e permitir que elas pro­liferassem no Reino Unido. O júri concordou, estabelecendo um precedente capaz de ter consequências das mais significativas. Em dezembro de 2008, The New York Times incluiu a defesa de Kingsnorth em sua lista de ideias influentes que mudarão nossas vidas.

HARVEY, Fiona. Greenpeace six cleared of damaging power plant. The Daily Telegraph, London, 11 Sep. 2008.

JAMES CAMERON
Advogado internacional especializado em mu­danças climáticas, há anos, sua capacidade de sugerir respostas políticas é reconhecida no mundo inteiro. Cameron negociou a UN Framework Climate Change Con­vention e o Protocolo de Quioto e presta assistência jurídica a um amplo es­pectro de organizações sem fins lucrativos, campanhas e organizações privadas – todas envolvidas com o problema da mudança climática. Frustrado com o ritmo lento das ações concretas para impedir a entrada do CO2 de origem hu­mana na atmosfera, Cameron fundou uma nova empresa, a Climate Change Capital, para demonstrar que uma economia de baixo carbono pode ensejar retorno atraente aos investidores por meio de fundos investidos em compa­nhias, projetos e tecnologias que criem produtos e serviços para amenizar a mudança ou a adaptação climática. A filosofia e os valores da empresa estão consagrados em seu lema: “Criar riqueza que vale a pena possuir”.

CARROT MOB
Esta iniciativa organiza “gangues” de consumidores estimulados a fazer com­pras que recompensem financeiramente lojas ou bares locais empenhados em realizar mudanças benéficas em sua maneira de conduzir os negócios. O enfo­que é nos fornecedores de itens básicos e atividades diárias das vizinhanças, não em estabelecimentos especializados. As lojas locais são convidadas a aumentar a percentagem dos lucros investidos na melhoria ambiental e a Carrot Mob se encarrega de mobilizar as “gangues” de consumidores. Isso é bem melhor do que boicotar, afirma a organização. Notícias sobre as “gangues” se espalharam pelo MySpace, Facebook, blogs, Twitter, Digg e YouTube. A ideia surgiu no bairro de San Francisco, onde mora o fundador, Brent Schulkin, e foi imitada em outras regiões dos Estados Unidos e outros países, inclusive o Reino Unido.

CO-OPERATIVE BANK
O Co-Operative Bank se descreve um tanto jocosamente como “bom com o dinheiro”. A diferença – a inovação – que mantém o Co-Operative Bank bom com o dinheiro não é, paradoxalmente, seu caráter cooperativo, e sim o fato de adotar um comportamento ético há quinze anos. Essa política é estabele­cida com base em pesquisas entre seus próprios clientes, que indicam onde o banco e suas operações financeiras ou securitárias devem emprestar e investir. Desde 1992, o banco rejeitou 1 bilhão de libras em empréstimos corporativos, que preocupavam seus clientes, mas no mesmo período aumentou seus em­préstimos comerciais em 13% ao ano, chegando a 4,2 bilhões. Uma renova­ção da postura ética do banco ao final de 2008 incluiu combustíveis com alto potencial de aquecimento global, bombas de fragmentação e atividades que envolvam invasão dos territórios dos grandes símios. Nestes tempos financei­ramente turvos, o Co-Operative Bank é “uma clara demonstração de que a ética pode fornecer um modelo de negócios sustentável”.

DIVINE CHOCOLATE
Divine Chocolate foi o primeiro chocolate da Fairtrade (comércio justo) de propriedade de fazendeiros voltado para o mercado de massa quan­do foi lançado em 1998. Uma cooperativa de produtores de cacau em Gana, a Kuapa Kokoo, resolveu fabricar seu próprio chocolate em 1993 e em seguida vendê-lo por intermédio da Day Chocolate Company. A Kuapa Kokoo conti­nua sendo uma cooperativa, com participação na The Day Chocolate Company, onde dois de seus membros participam da diretoria. A Body Shop, cofundadora da The Day Chocolate Company, doou suas ações à Kuapa Kokoo em 2006. A Divine entrou no mercado americano em 2007. É delicioso. 

ECOLOGY BUILDING SOCIETY
Esta instituição foi fundada em 1981 pelo advogado de Yorkshire, David Pedley. Com dificuldades em conseguir financiamento para refor­mar uma velha propriedade que tinha, decidiu iniciar sua própria empresa de crédito imobiliário. Hoje, a sociedade tem 10 mil contas abertas e ativos de mais de 60 milhões de libras. Os poupadores (e tomadores) são vistos como membros e “participam” dos objetivos da empresa, que inclui um fundo es­pecial para obras de caridade. Os critérios de empréstimo da Ecology Building Society são únicos, como o estudo do impacto ambiental do projeto, e levam em conta coisas não con­vencionais, como casas de terra e paredes ventiladas. Também empresta para propriedades rejeitadas por outros tomadores, oferecendo arranjos flexíveis como, por exemplo, fundos “adiantados” com base no valor declarado da pro­priedade, com liberações posteriores à medida que o trabalho progride e o valor aumenta.

W.L. GORE AND ASSOCIATES
É uma empresa privada, fundada em 1958, que se especializou em aplicações de politetrafluoretileno (PTFE – encontrado, por exemplo, nas roupas da Gore-Tex®, no Teflon e nas válvulas cardíacas. No entanto, a W.L. Gore é mencionada aqui pela maneira como se organiza, algo que regularmen­te lhe vale alta pontuação nas listas das “melhores empresas para se trabalhar”. Tecnicamente, o modelo de administração da Gore pode ser classificado como “caos organizado”, com uma hierarquia corporativa nivelada e associados em vez de funcionários. O CEO Terri Kelly diz que a cultura empresarial da Gore não pressupõe a inexistência de disciplina, mas sim que “você tem que qua­se abrir mão do poder”. Os departamentos se dividem quando ficam grandes demais e as equipes se autoorganizam. Chega-se às decisões por acordo e os líderes são escolhidos por processo democrático (até o CEO); os próprios fun­cionários estabelecem os salários e as promoções.

Essencialmente, a W. L. Gore é uma empresa de engenharia avançada que enfoca as necessidades dos clien­tes e busca novos mercados. Possui um terceiro objetivo, igualmente impor­tante – “permitir que nossos associados cresçam e se desenvolvam, ampliando seus horizontes” –, pois considera essa a melhor maneira de alcançar os outros dois. Os associados perfilham os valores básicos estabelecidos pelo fundador, Bill Gore: honestidade, liberdade, dedicação e “linha-d’água” (significando que ninguém deve fazer nada que possa prejudicar a empresa sem antes consultar os outros associados). É o que existe de mais próximo da aplicação dos princí­pios ecológicos a uma estrutura empresarial.

Stern, Stefan; Marsh, Peter. The chaos theory of leadership. Financial Times, London, 2 Dec. 2008.

VACLAV HAVEL
Vaclav Havel foi o último presidente da Tchecoslováquia e, depois, o primeiro da República Tcheca, governando até 2003. Foi como dramaturgo, poeta e dissiden­te que Havel chamou de início a atenção do mundo, quando, após a Primavera de Praga em 1968, a Rússia pôs fim aos planos do líder reformista tcheco Alexan­der Dubcek para conseguir mais liberdade. As obras de Havel foram banidas em seu próprio país. Decidiu permanecer na Tchecoslováquia, mas “viver a verda­de” – isto é, comportar-se como se nenhuma de suas liberdades lhe houvesse sido tiradas. Assim, foi perseguido e preso várias vezes.

Em 1977, publicou o manifesto dos dissidentes, Charter 77, e após o colapso do comunismo, em 1989, recebeu 80% dos votos com o Civic Forum, tornando-se presidente. Manteve as várias facções na linha com vistas ao objetivo principal e lembrou a todos quan­tos chegavam ao poder quais são os objetivos do poder. Em seu Summer Medita­tion: a Meditation on Politics, Morality and Civility in a Time of Transition, Havel conclui que um Estado deve ser “um Estado intelectual e espiritual baseado em ideias e não em ideologias (…), algo que [o povo] veja como seu próprio projeto e seu próprio lar, algo que não precise temer, algo que possa, sem vergonha, amar porque o construiu para si mesmo”. Apelidado de “filósofo-rei”, Havel é um exemplo de como agir com probidade dentro e fora do poder.

WANGARI MAATHAI
Esta ativista ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 2004 por sua contribui­ção ao desenvolvimento sustentável, à democracia e à paz. Ela fundou o delicio­samente subversivo, mas anodinamente intitulado, Movimento Cinturão Verde do Quênia em 1977, sob os auspícios do Conselho Nacional das Mulheres do Quênia.

Aparentemente um movimento que promove o reflorestamento para prover as aldeias de sombra, fertilidade do solo e assim por diante, o Movimen­to Cinturão Verde, ao mesmo tempo e disfarçadamente, estimula a capacidade das mulheres, informando-as sobre nutrição, planejamento familiar, educação e proteção ambiental. Mais de 30 milhões de árvores foram plantadas no Quênia e a ONU recomendou o modelo de desenvolvimento do Cinturão Verde a ou­tros países. Wangari conclamou o regime do presidente Daniel Arap Moi a pro­mover eleições multipartidárias, pondo um fim à corrupção e à política tribal,o que lhe valeu inúmeros aborrecimentos e vários períodos na prisão. Como no caso de Havel, sua rede internacional de adeptos garantiu que ela não “desapa­recesse”. Finalmente, em 2002, ela foi eleita para o Parlamento. Sua indicação para o Prêmio Nobel da Paz explicitava que Wangari “enfrentou corajosamente o antigo regime opressivo do Quênia. Recorrendo a uma forma muito pessoal de agir, contribuiu para chamar a atenção para as opressões políticas – nacional e internacionalmente. Ela serviu de inspiração para muitos na luta pelos direi­tos democráticos e, sobretudo, encorajou as mulheres a melhorar sua condição”.

NELSON MANDELA
Nelson Mandela foi o primeiro presidente democraticamente eleito da África do Sul (1994-1999) depois de 27 anos na prisão por crimes como ativista anti­-apartheid e líder da seção armada do Congresso Nacional Africano (CNA). Sua reflexão forçada durante esses anos na prisão poderiam tê-lo tornado amargo ou insano, mas isso não aconteceu. Ao contrário, Mandela meditou estratégias para pôr fim ao apartheid de forma pacífica, a mais importante das quais foi a doutrina da verdade, da reconciliação e da negociação não violenta. Durante esses anos na prisão, Mandela estudou direito por correspondência e montou uma “universidade” clandestina onde colegas de cativeiro ensinavam uns aos outros que sabiam. Os membros do CNA fora da prisão foram ins­tados a fazer o mesmo e a educar-se, como preparação para a participação na vida da nova África do Sul. O tempo todo, Mandela se preparou para o mo­mento em que os africanos dividiriam o poder e, com seus colegas, discutiu as negociações que entabulariam com os líderes brancos, bem como o melhor caminho para eleições pacíficas.

Munido de uma agenda extraordinariamente positiva e cheia de esperanças, embora sem nenhuma garantia de que jamais fosse implementada, Mandela viu seu prestígio e autoridade crescerem; e, quando foi libertado, sua tranquila racionalidade constituiu um fator de relevo na transição suave para a democracia. Mandela também formou o grupo The Elders, que trabalhava principalmente nos bastidores e “contava com a con­fiança do mundo, podendo falar livremente, agir com corajosa independência e responder com rapidez e flexibilidade às situações de conflito”. Morreu em 2013 aos 95 anos, em Pretória.

FESTUS MOGAE
Em 2008, o presidente Festus Mogae, de Botswana, recebeu o Prêmio Ibrahim pelo bom governo que realizou – um acontecimento positivo e estimulante num continente que vem sofrendo demais por causa das más lideranças. Mogae levou seu país da guerra civil para a democracia multipartidária, combateu a corrupção (prin­cipalmente na indústria diamantífera) e diversificou a economia. Como o HIV/ aids alcançava níveis epidêmicos (30% da população infectada), ele implantou um dos programas de saúde mais progressistas da África e atualmente promove uma campanha em todo o continente. Seu princípio norteador e seu código de conduta, disse ele ao povo de Botswana no discurso com que encerrou o man­dato, era “o uso prudente, transparente e honesto dos recursos nacionais para vosso benefício”. Ao se retirar após dois mandatos em 2008, o que por si só já é louvável, Mogae estabelecera instituições fortes e independentes para garantir o império da lei e o respeito aos direitos humanos, tendo também melhorado a infraestrutura do país, inclusive a saúde e a educação. Durante sua presidência, Botswana conquistou a igualdade de gêneros na educação superior. Pode pare­cer estranho citar como divergente positivo alguém que se dedicou unicamente à prática de um bom governo. Mas a história de Mogae e de Botswana sob sua presidência nos diz que às vezes é necessário enfrentar vários desafios ao mesmo tempo, pois um pode reforçar o outro. É preciso fazer muitas e muitas coisas boas, quaisquer que sejam as dificuldades. Mo Ibrahim e sua fundação merecem também uma menção especial pela criação do Prêmio África.

BARACK OBAMA
É o 44º presidente dos Estados Unidos da América. Talvez ain­da seja cedo para dizer isto, mas me parece que temos um divergente positivo na Casa Branca. Mesmo a campanha de Obama rompeu com o sistema negati­vo do financiamento eleitoral graças ao uso inteligente da tecnologia moderna e do cuidadoso reengajamento de cidadãos no processo político – sobretudo os mais alienados: jovens, mulheres e não brancos. E, como no caso do pre­sidente Mogae, há evidências de que Obama sabe que seu sucesso dependerá do enfrentamento de vários desafios ao mesmo tempo e de ele pensar estrate­gicamente tanto com vistas a isso quanto à sua própria pessoa. Ele se mostra dedicado a “viver a verdade” (como base para a confiança) e já deixou claro que conhece o poder (e a vulnerabilidade) dos Estados Unidos, e portanto, suas responsabilidades. Esperemos que ele tenha êxito.

ONLY CONNECT
A Only Connect é uma companhia de artes criativa e uma instituição de recu­peração que trabalha com prisioneiros e ex-condenados. Por meio do drama, os infratores são ajudados a restaurar suas vidas prática e emocionalmente. À diferença dos outros bons trabalhos que se fazem nessa área, a Only Connect não apenas se esforça para ajudar o infrator a se conhecer melhor como per­manece ao seu lado enquanto ele precisar. O objetivo da organização é evitar a reincidência, usando métodos de avaliação personalizados para garantir o pro­gresso. “A Only Connect é verdadeiramente notável. Os prisioneiros engajados em seus projetos recebem apoio pessoal e profissional de altíssima qualidade. A Only Connect trabalha pela reabilitação dos infratores de um modo fora do alcance de outras organizações”, diz Jacquie Harvey, chefe de Aprendizado e Habilidades, HMP Holloway.

PRÍNCIPE DE GALES
O Príncipe de Gales fez carreira singular como herdeiro do trono, cum­prindo os deveres do cargo, mas indo além deles para advogar uma série de iniciativas e causas. Ele usa seu prestígio para mobilizar pessoas, dinheiro e ideias em torno de áreas que lhe interessam ou que acha importantes – quase sempre a mesma coisa. Sua condição de divergente positivo se deve ao empre­go judicioso, às vezes ousado, de sua posição para arrancar questões urgentes da sombra e apresentá-las ao público. Alguns exemplos da atuação do prínci­pe, que funcionam como sinais de alerta, incluem espiritualidade e ecumenis­mo religioso, merenda escolar, mudança climática, sustentabilidade, responsa­bilidade empresarial para com o ambiente, integração dos sistemas de saúde convencional e complementar. Imperturbável diante da reação às vezes hostil da imprensa, o príncipe em geral precede seu chamado à ação com uma inicia­tiva pre-planejada que visa a manter a pressão por mudanças. Ele não precisa fazer nada disso, mas faz.

RUSHCARD
Esta é uma invenção de Russell Simmons, um “empreendedor de rua” americano e “padrinho do hip-hop” reverenciado pela juventude urbana. Em essência um cartão pré-pago, o RushCard é direcionado para os cerca de 48 milhões de americanos, sobretudo jovens, com histórico de crédito ruim na praça ou que nunca tiveram crédito. É o único cartão que não cobra por seus serviços e permite às pessoas gozarem a liberdade de um cartão de crédito (sacar dinheiro em caixas eletrônicos, lojas ou pela internet), mas mantendo sempre o controle de seus gastos. Após cinco anos de operação, o RushCard comemora seus mais de 2 bilhões de dólares em depósito. Os possuidores do cartão podem economizar com o RushCard, acompanhar suas despesas, rece­ber comunicados de alerta (ou extratos) e mesmo transmitir seu histórico de pagamento às agências de proteção de crédito para limpar seu nome.

SANDBAG
Organização fundada pelo experiente ativista do clima Bryony Worthington, em setembro de 2008. Bryony se sentiu frustrado com o pequeno efeito que os sistemas de compensação estavam tendo na redução das toneladas de CO2 emitidas, por isso fundou a Sandbag. Os membros podem comprar “licenças para poluir”, cada qual equivalente a uma tonelada de CO2, mas, em vez de serem usadas ou vendidas, por intermédio da E.U. Emission Trading Scheme, por exemplo, elas são “tiradas” deles pela Sandbag. Assim, para cada “licença” tirada, uma tonelada de CO2 deixa de ser emitida e a quan­tidade de licenças disponíveis diminui. Vinte e cinco libras por tonelada pare­cem pouca coisa, mas são um exemplo potencialmente edificante de ativismo civilizado se um número suficiente de pessoas e empresas se envolverem.

SEIKATSU CLUB CONSUMER’S COOPERATIVE UNION (SC)
Começou como um mo­vimento social de donas de casa japonesas em 1965. Os membros se entregam a “uma atividade econômica alternativa contra a priorização da eficiência por parte da sociedade industrial”. “Seikatsu” significa “vida” e o clube trabalha “por um mundo justo e um modo de vida de melhor qualidade, mais sustentável, por intermédio das atividades cotidianas”. Com cerca de 22 milhões de mem­bros organizados em grupos locais (99% mulheres) e um movimento de 640 milhões de dólares (2006), o SC atua em conjunto com fornecedores dedicados de alimentos livres de produtos químicos e de outros itens domésticos que aten­dam a seus padrões. O Seikatsu Club é também uma entidade social preocupada com outras coisas além das atividades de consumo domésticas. Para começar, as mulheres se tornam ativas na política local por meio da Rede Seikatsusha (habi­tantes), que hoje conta com 140 representantes eleitos empenhados em proteger o ambiente e melhorar o sistema de bem-estar social. Altamente democrático e solidário, o SC no Japão se mostra ativo também na área de cuidados domésticos e institucionais aos idosos, e internacionalmente em campanhas em defesa de reivindicações (bananas livres de pesticidas) e no combate à injustiça e aos males infligidos a comunidades locais pelas grandes multinacionais.

MUHAMMAD YUNUS
É um empreendedor social em série. Mais conhecido pelo Grameen Bank (que significa banco da aldeia) que ele montou em Bangladesh, lançou em 1983 o movimento de microcrédito emprestando aos pobres para que estes tivessem uma atividade remuneradora. Livrou assim muitas pessoas dos agiotas e intermediários vorazes, dando esperança aos que ele chama de 50% “de baixo”. Yunus banca, literalmente, a capacidade das pessoas de ajuda­rem a si mesmas, sustentando que a confiança e os incentivos positivos (in­clusive a poupança) são mais eficientes que documentos legais. Cerca de 95% dos clientes são mulheres, nenhuma garantia é exigida e ainda assim 98% dos empréstimos são pagos. O Grameen Bank tem cerca de 7,5 milhões de toma­dores, com média de empréstimo de 150 dólares. Noventa e seis por cento do banco pertencem aos tomadores e nove de seus doze diretores são mulheres. Yunus luta para remover as barreiras legais a fim de que os programas éticos de microfinança e empreendimento social se tornem mais comuns. Ele propõe uma espécie de Juramento de Hipócrates (e algumas leis) que distingam os especuladores dos financiadores sociais.

Muhummad Yunus, “How legal steps can help to pavê the way to ending po­verty”, Human Rights Magazine, primavera de 2008, vol. 35, nº 1 (publicado pela American Bar Association).

ZOPA (Zone of Possible Agreement)
A ZOPA Foi chamada de “a eBay do capitalismo”. Trata-se de um serviço online que permite às pessoas (membros que pagam uma pequena taxa) emprestar dinheiro umas às outras diretamente, sem a me­diação de um banco (pessoa a pessoa, P2P). No ano financeiro de 2008/09, os emprestadores da Zopa receberam em média 9% de juros. No Reino Unido, há 260 mil membros com mais de 37 milhões de libras em empréstimos feitos desde o início das atividades, em 2005. Os serviços da Zopa incluem checagem da capacidade de crédito dos tomadores e classificação dos emprestadores em cinco diferentes “mercados” de risco: A, B, C, D e Jovem, este constituído por pessoas jovens demais para terem um histórico de reembolso de dívida. Os emprestadores escolhem um mercado, estabelecendo prazo e taxa de juros. Para amenizar o risco, o dinheiro é dividido entre vários tomadores. Até agora, a taxa de inadimplência é de 0,3%. Por enquanto, não há categoria para a sus­tentabilidade, mas ainda pode haver.

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Sara Parkin e a era da economia colaborativa Suzana Camargo - 26/03/2014 às 14:00

fabio-mateus-saraA sustentabilidade exige a união de todos. Somente várias mentes pensantes juntas conseguem chegar a soluções criativas e inovadoras. É o conceito de compartilhamento de ideias – a busca pela economia colaborativa e compartilhada.

A opinião é de Sara Parkin, autora do livro O Divergente Positivo, e Fábio Barbosa, presidente executivo da Abril S.A. Os dois participaram de bate-papo, mediado por Matthew Shirts, coordenador editorial do Planeta Sustentável, realizado no auditório da Editora Abril, em São Paulo, no dia 24/03.

Sara contou como teve inspiração para escrever a obra. Revelou que, depois de 40 anos de ativismo pela sustentabilidade, tinha dificuldade em entender porque nada havia mudado ainda. Governos e empresas continuavam na defensiva e não agiam em prol de uma economia menos perversa. “Não havia respostas positivas”.

Determinada a criar ferramentas para a mudança, fundou o Forum for the Future*, organização que trabalha junto a governos, setor privado e sociedade civil para solucionar problemas complexos de sustentabilidade. “O livro é baseado nos cursos e na experiência adquirida ao longo dos últimos 18 anos do forum”, disse Sara.

Questionada por Matthew Shirts sobre o que deveria ter sido feito de forma diferente no passado, a ativista britânica critica a forma como a sustentabilidade foi administrada. Desde o primeiro grande encontro mundial sobre Desenvolvimento Sustentável em 1972,  em Estocolmo, o assunto era tratado em separado. “Foi um grande erro abordar sustentabilidade como algo separado dos grandes orçamentos, do principal debate da mesa”.

Para Fábio Barbosa, sustentabilidade também não pode ser uma área separada dentro das empresas. Ela precisa transpassar e fazer parte de todo o negócio. “No Brasil, infelizmente ainda existe uma mentalidade de que se trata de um luxo, que ao investir nela estaremos deixando de lucrar”, afirmou. O executivo vê nesse posicionamento um grande erro, pois é exatamente a prática sustentável que garantirá o sucesso das corporações no futuro.

Sobre o trabalho do Forum for the Future, Sara falou da maneira como a instituição reúne diversos atores de um mesmo setor no Reino Unido para sentarem juntos e encontrarem soluções responsáveis. “Nosso principal objetivo é capacitar as pessoas a descobrirem caminhos e alternativas por conta própria”.

Durante muitos anos, a autora de O Divergente Positivo fez parte do Partido Verde britânico. Perguntada porque deixou a política de lado, revelou que em determinado momento viu pouco sentido naquilo. “O partido não conseguia mais enxergar seu real propósito, a razão de sua existência”. Segundo ela – que no Brasil encontrou Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente e também egressa do Partido Verde -, a função destes partidos alternativos é oferecer uma opção realmente atrativa para os eleitores, o que não tem acontecido em várias partes do mundo.

Ainda no campo político, Barbosa comentou o atual momento brasileiro. Ele acredita que certamente o problema da água, mais precisamente da seca e do desabastecimento na região Sudeste do país, terá grande impacto no debate eleitoral. “É a primeira vez no Brasil que temos evidências reais das mudanças climáticas”, afirmou. O executivo ainda comentou que a guerra pela água chegou ao Brasil. O que antes víamos como algo distante em países do Oriente, que lutavam pela posse de água, hoje pode ser lido nas manchetes do jornais: os estados de São Paulo e Rio de Janeiro disputam direito sobre o uso de nascentes e reservatórios.

Para mudar esta realidade, Sara Parkin recomenda que seja feito um plano de orientação econômica que privilegie incentivos para ações sustentáveis e a educação. Sem esta última, não há esperança de transformação, pois será somente o comportamento das pessoas que determinará o futuro rumo de nossa civilização.

*Forum for the Future

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Fotos: Fábio Nascimento

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‘Estamos cansados de negativismo’, diz Sara Parkin no Congresso GIFE Suzana Camargo - 24/03/2014 às 09:43

Realmente não é simples. É muito mais fácil criticar e apontar os erros alheios do que tentar sugerir soluções e dizer como fazer melhor ou de maneira diferente. “É uma imensa mudança de hábito e mudar é difícil”, admite a autora de O Divergente Positivo.

Em palestra à empreendedores sociais durante o 8º Congresso GIFE, em São Paulo, a ativista britânica fundadora do Forum for the Future* revelou que uma das principais motivações para criar o instituto foi o negativismo das pessoas. “Não aguentava mais ouvir somente o lado ruim, era necessário identificar soluções, alternativas positivas para a sustentabilidade”, disse.

Não há mais tempo para esperar a iniciativa do governo. O fornecimento de água e comida já está comprometido pelas mudanças climáticas. “Causamos um impacto ao meio ambiente, agora o meio ambiente está provocando impactando nossa economia”, afirmou.

Sara Parkin aponta o capital social, ou seja, a junção dos capitais humano e natural, como o futuro da economia. Para ela, é a liderança positiva que conseguirá mudar o rumo do jogo. São líderes que, antes de tudo, precisam se dar o direito da dúvida. De admitir, que nem sempre conhecem a resposta certa e o melhor caminho. E para que o líder possa conquistar seguidores, terá de instigá-los a falar, a questionar. “Fazer muitas perguntas é uma estratégia que obriga os outros a falar mais, responder melhor”, ensina. “A liderança é inútil se não inspira pessoas”.

Há um enorme desafio pela frente, a autora admite. “Vivemos num mundo imperfeito, temos que ser realistas”. Mas ela acredita que em vez de falarmos tanto, precisamos fazer mais. Para Sara, é uma questão de moral ética. É inconcebível olhar para trás e constatar que nada foi feito. O mundo precisa da sustentabilidade. Precisa de mudanças e líderes divergentes positivos.

*Forum for the Future

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O Divergente Positivo

Para fazer o que é certo, às vezes é preciso ir contra tudo e contra todos. Para muitos, isso parece impossível. Mas a ativista ambiental escocesa SARA PARKIN, fundadora da ONG de desenvolvimento sustentável Forum For The Future conta em seu novo livro - O Divergente Positivo: Liderança em Sustentabilidade em um mundo Perverso - que foi exatamente esse o caminho trilhado por líderes como Nelson Mandela e Muhammad Yunnus. Coedição do Instituto Jatobás e da Editora Peirópolis, com apoio do Planeta Sustentável, a obra convida o leitor a construir sua trajetória para a sustentabilidade respeitando sua disponibilidade de tempo, seu círculo de relações e os espaços em que atua. Neste blog, atualizado pela REDAÇÃO DO PLANETA SUSTENTÁVEL e colaboradores, reúne notícias sobre o lançamento do livro, trechos da edição brasileira, resenhas, entrevistas e muito mais.

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