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O Homem e o Mar (2) Roberto Vámos - 16/07/2012 às 15:25

Quando olhamos para o mar sereno, √© dif√≠cil de sentir o enorme impacto que estamos tendo sobre os oceanos do nosso planeta. Mas a verdade √© que o que fazemos em terra, afeta o mar, e √†s vezes a nossa influ√™ncia pode ser sentida a muitos milhares de quil√īmetros. Por exemplo, o uso maci√ßo de fertilizantes artificiais no centro-oeste americano, uma das √°reas agr√≠colas mais produtivas do mundo, est√° matando a fauna e flora mar√≠tima do Golfo do M√©xico.

Isso acontece porque os nutrientes que fazendeiros adicionam ao solo, especialmente o nitrog√™nio, s√£o levados pela chuva at√© os rios que comp√Ķe a bacia do Rio Mississippi. Esses nutrientes s√£o carregados at√© o Golfo do M√©xico, onde literalmente fertilizam a √°gua, causando um grande aumento na popula√ß√£o de algas. O problema √© que essas algas morrem rapidamente e s√£o ent√£o decompostas por micr√≥bios que respiram oxig√™nio. Por causa da grande quantidade de algas mortas, h√° uma explos√£o na popula√ß√£o desses agentes decompositores, que acabam utilizando todo o oxig√™nio dissolvido na √°gua, matando ou expulsando todos os outros animais que necessitam de oxig√™nio.

Assim √© que se cria uma zona morta, uma √°rea no oceano onde praticamente n√£o h√° vida. Ano passado, no Golfo do M√©xico, a extens√£o da zona morta alcan√ßou 17,5 mil quil√īmetros quadrados ‚Äď quase o tamanho do Estado de Sergipe.

Mas estamos criando zonas mortas n√£o s√≥ ao despejar um excesso de nutrientes no mar, e sim tamb√©m ao despejarmos um excesso de CO2 na atmosfera. Isso porque o CO2, como sabemos, esquenta a Terra ‚Äď e boa parte desse calor √© absorvido pelos oceanos. Acontece que os oceanos n√£o se aquecem uniformemente. A maior parte do calor absorvido pela √°gua do mar permanece nas camadas superficiais dos oceanos. Criam-se camadas quentes que dificilmente se misturam com as camadas mais frias que existem nas profundezas. Isso √© problem√°tico por duas raz√Ķes. Primeiro, a √°gua mais quente ret√©m menos oxig√™nio dissolvido ‚Äď assim, num oceano mais quente, h√° menos oxig√™nio dispon√≠vel para a fauna marinha. Segundo, a grande parte dos nutrientes do mar est√£o nas profundezas, e estes nutrientes s√£o trazidos √† tona por correntes marinhas nas chamadas zonas de ressurg√™ncia. Se, ao esquentarmos os oceanos, diminuirmos a quantidade de nutrientes que puder ser trazido para as camadas superficiais (que s√£o as camadas mais produtivas do oceano, pois √© onde penetra a luz do sol), a quantidade de fitopl√Ęncton e outros organismos que formam a base da cadeia alimentar marinha diminuir√°.

Os oceanos s√£o o grande cora√ß√£o do nosso planeta ‚Äď e boa parte do funcionamento desse ‚Äúcora√ß√£o‚ÄĚ se deve n√£o a processos f√≠sicos, e sim a processos biol√≥gicos. A vida nos oceanos regula a quantidade de oxig√™nio e CO2 na atmosfera, por exemplo. Da mesma forma que n√£o podemos viver sem o nosso cora√ß√£o, n√£o podemos viver sem oceanos saud√°veis. Vamos continuar a maltrat√°-los?

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O Homem e o Mar Roberto Vámos - 02/07/2012 às 10:00


Estou no Panam√°, de f√©rias e, de quebra, aprendendo a mergulhar. O mar aqui em Bocas Del Toro √© espetacular. Mesmo com o tempo chuvoso, a √°gua √© transparente e as cores dos corais s√£o espetaculares. Esta ba√≠a √© cercada de lindas montanhas verdes tomadas por uma densa floresta tropical. Os manguezais se encontram por toda a parte e ocupam a interface entre o mar e a terra. O lugar √© t√£o paradis√≠aco que muitos ‚Äúgringos‚ÄĚ optaram por abandonar tudo em seu pa√≠s e se mudarem para c√°.

Mas é triste constatar que não há paraíso que resista a mão do homem. O nosso lixo de cada dia aqui também encontra o caminho do mar. Garrafas, latas, pneus e toda espécie de embalagem plástica flutua nas águas ou se aloja no fundo do mar. O aquecimento global elevou a temperatura do mar e causou mortandade entre os corais. Hoje mesmo durante um mergulho pude constatar isso ao vivo: havia um princípio de branqueamento em vários tipos de coral no recife onde mergulhei com minha filha.

Tamb√©m notei que havia pouca vida marinha ‚Äď especialmente peixes ‚Äď o que me lmbrou muito o livro de Cullum Roberts que li recentemente: ‚ÄúThe Unnatural History of the Sea‚ÄĚ, no qual o renomado bi√≥logo marinho descreve como o ser humano esvaziou os oceanos de vida animal durante os √ļltimos 2 a 3 s√©culos. O que hoje achamos normal, diz ele, n√£o passa de uma pequena amostra da abund√Ęncia de vida que havia antes da pesca de arrast√£o e da pesca industrial serem introduzidas.

Ao mergulhar, noto como o mar √© maravilhoso e incrivelmente rico em variedade, cores e beleza. Mas nada disso se v√™ da terra. Por isso achamos que podemos continuar a jogar nosso lixo e nosso esgoto sem d√≥ nem piedade, que o mar √© uma lixeira de tamanho infinito. Estamos varrendo nossa sujeira para baixo desse ‚Äútapete‚ÄĚ e n√£o vemos a sujeira se acumular. Mas os oceanos est√£o morrendo. Est√£o muito mais amea√ßados que n√≥s pensamos, e as conseq√ľ√™ncias para n√≥s ser√£o Dr√°sticas. Mais de um bilh√£o de pessoas dependem diretamente dos oceanos para sua alimenta√ß√£o e/ou renda. O pl√°stico que jogamos fora e que acaba chegando ao mar est√° se incorporando √† cadeia alimentar marinha ‚Äď e aparecendo na gordura dos peixes que comemos, al√©m de matar milh√Ķes de aves e mam√≠feros marinhos todo ano. O CO2 que jogamos na atmosfera esquenta a √°gua dos oceanos e a acidifica tamb√©m, e com isso a popula√ß√£o de fitopl√Ęncton marinho, respons√°vel por 70 a 80% do oxig√™nio que respiramos, est√° diminuindo.

Precisamos urgentemente reverter esta situa√ß√£o, mas isso s√≥ acontecer√° quando as pessoas tomarem consci√™ncia do que est√° acontecendo, quando os governantes decidirem agir ‚Äď cada um em seu pa√≠s, seu estado ou seu munic√≠pio, e quando finalmente n√≥s, como sociedade, decidirmos dar o mesmo valor √† vida marinha que damos √† vida terrestre.

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Hidrelétricas são Fontes de Energia Limpa? Roberto Vámos - 25/06/2012 às 13:46

A indaga√ß√£o do t√≠tulo deste post parece a princ√≠pio sem sentido. √Č claro que a energia hidrel√©trica √© limpa e sustent√°vel, n√£o? O governo brasileiro acredita piamente nisso, tanto que planeja o futuro energ√©tico do Brasil atrav√©s da constru√ß√£o de 70 grandes usinas hidrel√©tricas na Amaz√īnia. Belo Monte, Jirau e Santo Ant√īnio s√£o apenas o come√ßo.

Mas o pesquisador Phillip Fearnside, do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz√īnia) pensa diferente. De acordo com ele, uma hidrel√©trica constru√≠da nos tr√≥picos pode emitir tantos gases causadores do efeito estufa quanto uma termel√©trica a carv√£o de pot√™ncia equivalente. Isto porque a vegeta√ß√£o submersa pela reservat√≥rio da hidrel√©trica ser√° uma fonte de emiss√£o de CO2 e, principalmente, metano ao ser decomposto em condi√ß√Ķes anaer√≥bicas (ou seja, na aus√™ncia de oxig√™nio) nos fundos do reservat√≥rio.

Além do mais, durante seu funcionamento, o nível de água no reservatório de uma hidrelétrica oscila naturalmente, dando oportunidade a ciclos periódicos de crescimento de vegetação herbácea nas bordas dos lagos que então é inundada e apodrece, gerando uma emissão constante de metano mesmo após toda a vegetação originalmente inundada ter sido decomposta.

Tive a oportunidade de participar de uma mesa redonda com o Prof. Fearnside na segunda feira passada, e as conclus√Ķes dele desmentem por total o mito que usinas hidrel√©tricas s√£o limpas. Sim, a longu√≠ssimo prazo ‚Äď num horizonte de 50 a 100 anos – a quantidade de gases do efeito estufa emitida por uma usina hidrel√©trica ser√° menor que √† de uma termel√©trica √† carv√£o. Mas no curto prazo ‚Äď que √© o que conta ‚Äď n√£o.

E estamos falando aqui apenas do impacto de uma represa na atmosfera, sem considerarmos os impactos sobre a biodiversidade e os impactos sobre ribeirinhos e comunidades inteiras que perder√£o seus lares e seu modo de vida.

Com o avan√ßo da energia e√≥lica no pa√≠s e a perspectiva real de energia solar distribu√≠da e barata causada pela grande queda de pre√ßos nos √ļltimos anos de pain√©is fotovoltaicos devido √† entrada em peso da China no mercado mundial de energia solar, percebe-se que a op√ß√£o brasileira por energia hidrel√©trica oriunda da Amaz√īnia precisa ser rapidamente repensada.

Infelizmente, até agora o Ministério de Minas e Energia e a Empresa de Planejamento Energético (EPE) não têm ouvido a ciência e a sociedade.

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De Olho no Clima

Formado em pol√≠tica ambiental pela Stanford University e com mestrado em gest√£o ambiental pela Yale University, Roberto V√°mos √© atualmente representante no Brasil do The Climate Reality Project, ONG fundada por Al Gore para informar e mobilizar a sociedade a respeito das mudan√ßas clim√°ticas. ¬†Neste blog, escreve sobre pesquisas, solu√ß√Ķes e desafios a respeito das mudan√ßas clim√°ticas, trazendo not√≠cias de todo o mundo e refletindo sobre como as consequ√™ncias do aquecimento global v√£o afetar nosso cotidiano.

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