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A síndrome de Brasília Natália Garcia - 29/02/2012 às 18:17

Na semana passada eu pisei pela primeira vez em Brasília. Não fui para ficar, estava de passagem. Cheguei de avião e segui até a rodoviária Plano Piloto. Como meu ônibus só sairia seis horas depois, me lancei pela cidade com ímpeto de rever essa grave falha: afinal estudo planejamento há três anos e nunca tinha visitado a única cidade planejada do Brasil.

Tentar sair caminhando da rodoviária para conhecer a esplanada me fez lembrar de imediato do livro que inspirou o projeto Cidades para Pessoas, inclusive em seu nome. Cities for People foi escrito pelo planejador urbano dinamarquês Jan Gehl (a quem pedi autorização para usar o nome em português) na década de 90 e é um verdadeiro tratado sobre como criar cidades melhores para se viver.

Pois esse planejador lá de Copenhague tem em seu livro um capítulo que se chama, justamente, “A Síndrome de Brasília”. E, tentando caminhar pela capital federal, senti na pele o que ele queria dizer. Antes de me debruçar sobre o que essa síndrome significa, preciso explicar um outro conceito que ele apresenta no livro: o da escala humana.

Do ponto de vista do planejamento ou do crescimento das cidades, há três escalas que precisam ser levadas em conta.

1. A escala vista do céu
É a maior escala, que pensa nos contornos, nos quarteirões, nas funções dos espaços e no trânsito das pessoas (entenda-se aqui trânsito como a forma de as pessoas transitarem, não estou necessariamente falando das filas intermináveis de carros que congestionam as cidades, mas contemplando todos os modais utilizados na locomoção urbana diária).

Brasília vista do céu

2. A escala vista do alto
É uma escala um pouco menor, que determina como quadras e segmentos da cidade vão se desenvolver, como serão os critérios de construções em cada região e como os prédios serão organizados a partir de suas funções. Essa é a escala que se veria de um vôo de helicóptero, por exemplo.


Brasília vista do alto

3. A escala humana
É justamente essa a escala mais negligenciada no planejamento e desenvolvimento das cidades. Escala humana é a cidade vista da perspectiva dos olhos das pessoas, é a forma como os habitantes ocupam e experienciam a cidade. Nessa escala, o que importa não são as grandes avenidas expressas, os arranha-céus espetaculares, mas a qualidade das paisagens que ficam visíveis para quem caminha e permanece pela cidade. É a escala dos deslocamentos a 5 km/h.


Brasília da escala humana

O bom urbanismo, segundo Gehl, coordena bem essas três escalas. Em muitos casos, porém, o planejamento das cidades se prende à escola do modernismo, que despontou no começo do século XX com o arquiteto Le Corbusieur e se consolidou em meados dos anos 50. Essa escola valoriza em demasia os prédios e a fluidez da cidade e praticamente não contempla a escala humana em seus projetos.

É muito comum ver fotos da década de 60 de prefeitos e profissionais contemplando um projeto de revitalização ou o plano de uma nova cidade em uma maquete. É essa a perspectiva que importa aos modernistas, a do céu. A lógica do planejamento urbano no modernismo é mais ou menos assim: primeiro se pensa nos grandes contornos da cidade, depois nos prédios e, por fim, no que estiver entre eles. Quem ocupa e utiliza a cidade está em último na lista de prioridades. É a escala maior, a vista do céu, que norteia a administração da cidade.

Foi essa a lógica que esteve presente na criação de Brasília, que teve o projeto do arquiteto Lúcio Costa concluído em 1956 e foi inaugurada em 1960. A síndrome de Brasília, significa nortear o planejamento urbano apenas a partir da maior escala. Vista do céu, Brasília tem a forma de um avião.

Plano Piloto de Brasília, do arquiteto Lúcio Costa

As asas sul e norte possuem conjuntos habitacionais e serviços e o eixo central contém a esplanada, com prédios comerciais que comportam as instalações dos gabinetes políticos. No cruzamento dos eixos está a rodoviária Plano Piloto. Todos os setores são interligados por vias expressas e o carro é um equipamento indispensável para percorrer a cidade. A partir dos olhos humanos, quando estamos inseridos dentro da maquete, Brasília parece um enorme e entediante superfície cheia de grandes prédios e avenidas expressas difíceis de atravessar.

Em seu livro Cities for People, Jan Gehl diz que, em Brasília, “os caminhos a serem percorridos na cidade são muito longos e pouco convidativos, as calçadas são compridas demais, percorrem caminhos em linhas retas e são desinteressantes.”

Comprovei por experiência própria. E o resultado de uma cidade sem escala humana é que ela acaba não sendo nunca OCUPADA por seus moradores, só PERCORRIDA.

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Comentários

29/02/2012 às 20:12 João Jambeiro - diz:

discordo. Por não ser como SP ou RJ, que cresceram desordenadamente, há sempre a mesma crítica a Brasília: uma cidade que não convida ao convívio. Como a autora diz, ela não veio para FICAR, mas PASSOU por aqui. Se ficasse uma semana, seu texto seria beeeem diferente.

Poderiam convidar alguém DE BRASÍLIA para escrever um texto sobre a cidade – afinal, são cariocas que escrevem sobre o Rio, paulistas que discorrem sobre Sampa, baianos sobre Salvador, etc.

01/03/2012 às 15:21 Jonas Bertucci - diz:

Natália,

Embora eu concorde com 95% do que você coloca, não posso deixar de dizer que é um pouco de presunção querer avaliar uma cidade como Brasília em apenas 6 horas.

De fato, o erro foi feito há 50 anos. Porém, após todo esse curto tempo da história, muitas coisas novas surgiram em Brasília, inclusive importantes formas de ocupação do espaço, para além de seu uso apenas como passagem. A questão é que para conhecer esses espaços, vc tem que viver Brasília, vc tem que ser apresentada à cidade. Espontaneamente, dificilmente encontrará a vida pulsante da capital.

Eu gostei do seu texto e o recomento, com essas ressalvas. Só achei que ficou muito fatalista no final, sem nenhuma orientação sobre as diversas alternativas políticas possíveis para se mudar essa situação. Por exemplo, embora as distâncias de Brasília não sejam convidativas para a “escala humana a pé”, são excelentes para a “escala humana por bicicleta”. Uma política urbana seriamente voltada para a inserção da bicicleta em Brasília (sem desconsiderar a necessidade de transporte público radicalmente melhor) poderia transformar a cidade de uma forma espetacular e imprevisível.

abs

01/03/2012 às 17:05 Lino Bordin - diz:

Moro em Brasília há 6 anos e se fizesse um relato dela (e com conhecimentos de urbanismo que a autora possui) seria praticamente concordando em um 100 %.

Brasília não foi planejada pro pedestre. Poderia ter um excelente sistema de transporte coletivo, porém, a falta de interesse do governo federal faz com que os ônibus e o metrô não sejam melhorados, que não existam ciclovias, entre outros problemas.

Brasília possui um espaçamento grande demais, que afeta em grande forma o relacionamento das pessoas. Os círculos de amizades são bem fechados e se limitam ao trabalho, estudo, clubes, etc. Dentro do Plano Piloto, o conceito de vizinhança é praticamente inexistente. Tudo isto, como consequência do projeto em que a cidade foi feita.

A última frase é perfeita e resume perfeitamente como é Brasília (comprovada por mim mesmo em 6 anos): “Comprovei por experiência própria. E o resultado de uma cidade sem escala humana é que ela acaba não sendo nunca OCUPADA por seus moradores, só PERCORRIDA”.

01/03/2012 às 19:20 Jadi Dantas - diz:

João Jambeiro, vc disse que uma pessoa de Brasília falaria melhor sobre Brasília.. pois muito bem: Cariocas, Paulistas, Gaúchos, Cearenses, Mineiros etc, etc e etc… aqui vai a opinião de quem vive em Brasília há 10 anos.
Brasília é uma cidade dormitório. Brasília não tem vida, não respira e não inspira. Brasília é quadrada, vazia e solitária. Brasília não te conquista, não te emociona, não te cativa…
Ela é assim, uma cidade de carros com motoristas solitários, de vizinhos que não se olham, de crianças que brincam debaixo dos blocos residenciais, de bares e bares e bares e bares…. com gente jovem que só bebe, bebe e bebe…. de bibliotecas lotadas de concurseiros que parecem máquinas, incapazes de levantar o nariz dos seus regimentos e editais pra dar um bom dia pra moça da limpeza…
Não há, nem nunca houve governo decente. É um faroeste.
Brasília podia ser outra! Brasília podia ser nossa… de Cariocas e Paulistas e Goianos e Mineiros e Baianos e Gaúchos e sim de Brasilienses com toda a riqueza de culturas que somos tornando essa cidade mais viva e humana!!

01/03/2012 às 19:44 Natália Garcia - diz:

João Jambeiro e Jonas Bertucci, realmente minha experiência em Brasília foi curta. Seis horas é pouco para definir uma cidade, concordo. Apesar do curto tempo, a experiência foi intensa. Atravessar a avenida sem faixa de pedestres, caminhar debaixo do sol sem nenhuma arvorezinha para fazer sombra me fez ficar exausta em menos de um quilômetro. Nem consegui chegar até o final da esplanada, desisti no meio do caminho e voltei à rodoviária. Mas é fato: uma permanência maior na cidade e um mergulho em movimentos de engajamento cívico me dariam uma ideia mais justa da cidade. O que deve prevalescer desse texto é um problema real: o planejamento feito sem levar a escala humana em conta. É contra isso que eu escrevo, não contra a cidade de Brasília. Me deixa bem feliz, aliás, brasilienses defendendo sua cidade.

01/03/2012 às 20:36 Carolina - diz:

Brasília é uma cidade difícil de definir pra quem não cresceu aqui. Ao mesmo tempo metrópole e cidade interiorana. No coração de Goiás e com linhas invisíveis e intransponíveis que separam os dois lugares.
A Esplanada não é Brasília, é apenas uma parte dessa cidade que é diferente de toda memória que quem vem morar aqui tem da sua terra natal. Existem muitas Brasílias em Brasília. Há a Brasília do rock, há o cinema de Brasília, tem açougue com discussão literária… Tem de tudo por aqui.
As pessoas falam que Brasília é fria. Mas para quem foi criado aqui as coisas são diferentes, seus amigos estão na sua vida há mais de dez anos e quase todo mundo tem algum amigo em comum. Pra gente Brasília ainda é uma cidade que convida ao convívio.
Existem várias visões de Brasília: a dos brasilienses, a de quem mudou para cá e a de quem vem de passagem.

01/03/2012 às 21:46 Marcelo - diz:

Morei por alguns anos em Brasilia e concordo com tuas impressões a partir das diferentes perspectivas. Tal urbanismo gera problemas comunitários importantes, inclusive. Apenas uma correção, Goiânia e Belo Horizonte também foram cidades planejadas, apenas para ficarmos nas capitais…

01/03/2012 às 22:02 Rodrigo - diz:

Ps: Brasilia é uma merda, e sua população, excessivamente playboyzada, (incrivelmente) despolitizada e alienada também.. Tente tomar uma cerveja na cidade depois das 2h, se socializar. Tente pegar um ônibus que não atenda necessariamente os eixos e eixinhos das asas. Tente conhecer o seu vizinho, travar relações comunitárias com ele. Tente sentar na calçada, na rua, e ver o povo passar. Tente andar a pé e abrir mão do carro (sinal de status largamente difundido na cidade, dado que muito das pessoas preferem viver em cubículos mas ter o melhor automóvel possível, pois este pode ser “compartilhado” pelos demais, já que ninguém costuma se visitar mesmo). Tente algum futuro diferente daquele da vida dos concurseiros que basicamente só se importam em ter o melhor salário possivel ao invés de “servir ao país”. Tente visitar as cidades satélites e conhecer a realidade urbana e social daqueles que te servem, limpam as tuas latrinas e criam os teus filhos. Para se divertir num sábado a tarde, tente não precisar ser “amigo” ou conhecido do “amigo” de alguém que viva nos Lagos ou nos condomínios e ser refém de um churrasco baseado em alcool e futilidades interativas. Tente ser um típico brasiliense e não se ofender com essas palavras, assumindo sua cruel veracidade!

02/03/2012 às 12:00 Marcelo - diz:

Gostei do texto, Natália! E, é bem verdade que a dimensão de escala “Vista do Céu” – modernista – influenciou negativamente a construção desta cidade…

Mas, nasci aqui. Aprendi a conviver com meus vizinhos embaixo do pilotis de meu prédio – sem grades ou condomínios – e desaprendi a dar “bom dia” no elevador; Aprendi a ir na padaria da “entrequadra”, na farmárcia da entrequadra, no restaurante da entrequadra e desaprendi com o “boom” dos “shoppings centeres”… Aprendi a ir na Escola-Classe e desaprendi na escola particular; Aprendi a andar de bicicleta, a ir ao Parque da Cidade e desaprendi de carro…; Aprendi a olhar este lindo e amplo céu debaixo e, infelizmente deixei de ver os olhos de um planejador urbano. Acho que eles desaprenderam.

Esta cidade sofre, como qualquer outra do país. Nossos governos são modernistas, pensam ainda olhando do céu (ou por mapas, em escritórios confortáveis)! Mas, Brasília está repleta de pessoas e lugares e ritos que me fazem pensar duas vezes antes de querer sair daqui. Aliás, é diferente como alguma outra cidade do mundo?

Algumas pessoas sempre acham sua atual cidade uma “merda”… Outras não a trocam por nada… Eu gosto de conviver com os segundos, porque são eles que conhecem as alternativas aos defeitos, que enxergavam vida onde os primeiros enxergam trevas, porque eles tentam e conseguem viver – ou, sobreviver – nela.

Só precisamos conseguir formar e escolher governantes melhores. Porque, boa ou ruim, esta cidade tem um potencial enorme para ser muito melhor; mas, está sendo corroída por nosso descaso político.

02/03/2012 às 12:14 Natália Garcia - diz:

Eu fico bem feliz de ver tantos brasilienses que aprenderam a construir uma relação interessante com a capital federal e com os outros moradores da cidade. O urbanista dinamarquês Jan Gehl diz “primeiro, moldamos as cidades. depois, elas nos moldam”. Brasília talvez não tenha sido moldada da melhor forma – e essa é a minha grande crítica ao planejamento da cidade: a falta de escala humana. Mas os moradores, a partir de suas relações nos espaços públicos, souberam moldá-la de forma mais interessante. Que bom! E assino embaixo de todos os que falaram de bike: a cidade é plana, tem espaço de sobra para a implementação de um sistema cicloviário. E seria uma delícia percorrê-la de bike.

02/03/2012 às 14:37 Marcio Rocha - diz:

Numa coisa concordo com o Jonas: é muita presunção querer avaliar uma cidade em apenas 6 horas. Por outro lado, quantas horas seriam necessárias para sentir o climão do Rio de Janeiro? Aliás, quantas outras poucas horas para detestar São Paulo?

De fato, Brasília é uma cidade moderna, mas o conceito de moderno vem variando muito. Se você imaginar que os automóveis estavam no auge na década de 50/60, não me parece estranho uma cidade desenhada para eles. Como não me parece hoje estranho um prédio construído com reutilização da água. É simples assim. Brasília não é um erro, não é um acerto.

Sou daqui, nascido e criado. E os meus conterrâneos devem admitir que ADORAM sair daqui, passar muio tempo fora, pois não existe o calor humano como o que encontramos ao lado, em Goiânia. É claro que nossas relações criadas desde a infância serão tratadas com carinho, como um patrimônio. Mas não passa disso. Brasília não é convidativa, não é “caminhável”, não é calorosa, não é amiga. Brasília é vazia. Brasília só parece “ocupada” quando está congestionada de carros, nos horários de pico. Nas veias de Brasília correm carros – não correm pessoas.

E o que mais me impressiona e incomoda é que ainda hoje, em pleno século XXI, os prédios, os órgãos públicos, as “praças” são construídos seguindo o ultrapassado conceito de modernidade – uma cidade feita para ser fotografada, vista por cima. Brasília precisa urgentemente ser humanizada!

02/03/2012 às 18:47 Bruna - diz:

Realmente é impossível julgar a cidade em apenas 6 horas. Acho sim que Brasília deveria ser descrita por um brasiliense, nascido aqui. Todo mundo fala muito mal daqui, da política, dos playboys, das largas pistas, das grandes distâncias, dos ônibus que não alcançam todas as pontas. Acho justo.

Mas acho justo também que seja considerado as belezas da cidade. Como qualquer outra, temos defeitos. E tenho certeza de que quando JK colocou a construção de Brasília em prática, não tinha em mente a perfeição.

Os políticos que estão aqui são de todos nós, de todos os lados do país. O mérito da corrupção centralizada não é nosso. A gente agrupa todos eles, mas não são filhos nossos.

Os playboys têm em todos os lugares, bem como mendigos, mal educados, frios, bêbados, alienados, ignorantes. Aqui a gente também tem pessoas felizes que são educadas, sociáveis, de bem com a vida, que se exercitam, que cumprem suas funções no trabalho e na vida.

Não sejamos tão duros e definitivos. Passem um tempo em Brasília mas esperando o melhor que ela tem para oferecer. Temos uma cidade linda, com suas particularidades, entre qualidades e defeitos. Bem como qualquer outra cidade do país.

O primeiro passo para sermos bem vistos é sermos bem quistos. Não somos diferentes, só não temos esquinas! ;)

02/03/2012 às 23:40 Natalia - diz:

O que agrava todas as críticas ao planejamento de Brasília é a desigualdade social.

Brasília é uma ilha da fantasia planejada geometricamente perfeita para tudo funcionar. Um oásis entre as cidades mais miseráveis e violentas do país (Novo Gama, Luziânia, Águas Lindas de Goiás e Valparaíso de Goiás e outras como mostra http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2011/05/fantastico-registra-flagrantes-de-violencia-no-entorno-de-brasilia.html)

É uma utopia, um ideal que no cotidiano funciona para alguns poucos.

Pra quem tem carro, pra quem tem vaga de garagem (item de cobiça e status), para quem é convidado vip dos eventos culturais de embaixadas/CCBB e afins, pra quem con$egue comprar/alugar imóvel no plano piloto ou cidade próxima, pra quem pode ir a São Paulo fazer tratamento de saúde (Lula, Dilma, Miriam, exceto o ex-Secretário do Planejamento que e morreu por falta de atendimento em hospitais da cidade- http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/economia/2012/01/20/internas_economia,287019/secretario-do-planejamento-morre-por-falta-de-atendimento.shtml) e futuramente para o concursando que se mata de estudar para receber um bom salário, entrar para o grupo dos privilegiados (carro/casa/cultura/saúde “diferenciados”), perder a noção da realidade do restante do pais e construir as políticas públicas que deveriam fomentar mudanças.

Do que adianta superquadras arborizadas, GRANDES áreas públicas – desertas, sem calçadas (ops, falei), se não existe segurança? (Em Brasília, sequestro e estupro. Cinco sequestros em 4 horas – http://www.feminismo.org.br/livre/index.php?option=com_content&view=article&id=99992744:em-brasilia-sequestro-e-estupro-cinco-sequestros-em-4-horas&catid=126:violencia-&Itemid=533)
E a densidade populacional?? Com prédios de 6 andares será que quem mora em Brasília paga realmente o Custo da Cidade (sistema de água, esgoto, iluminação, transporte…)? Não? Quem paga?

Morei em Brasília por uns 5 anos e até que gostei, sou otimista! :o )

Só acho que foi uma cidade cara para construir, é cara para manter e acessível a poucos. Num país com tantos famintos deveríamos ter outras prioridades a construir coisas horrorosas como o museu Nacional que nunca tem exposição nenhuma e não serve nem pra um Candango se proteger da chuva… rs

Brasília foi inspirada nas Cidades Jardim de Ebenezer Howard de 1898, sim 1800!!!. Jane Jacobs faz ótimas críticas em Morte e Vida das Grandes Cidades (http://www.usp.br/fau/depprojeto/labhab/biblioteca/textos/maricato_resenhajacobs.pdf)

Natália, adoro seu trabalho! Parabéns!!

03/03/2012 às 20:03 Humberto Leite - diz:

Lamento, mas foi muita teoria e pouca prática da cidade.

É verdade que se leva um tempo para APRENDER a andar aqui, mas Brasília é uma cidade EXCELENTE para ser caminhada. Digo isso porque moro na Asa Sul, trabalho na Esplanada e quase sempre vou e volto do trabalho à pé.

03/03/2012 às 20:06 Humberto Leite - diz:

A crítica deve ser pela parca visão de futuro. O Plano Piloto é uma realidade, o que veio depois, outra. Mesmo bairros mais ricos, como Sudoeste ou o futuro Noroeste, são porcarias frente às Asas. Águas Claras, Taguatinga, Núcleo Bandeirante, Guará e Ceilândia têm os mesmos problemas das demais cidades – às vezes até dizemos que são “como cidades normais”.

E, fora do “quadradinho” do DF, no seu entorno, temos uma situação calamitosa em todos os aspectos.

03/03/2012 às 20:12 Humberto Leite - diz:

Desculpe por isso, mas perdi completamente o respeito pelo texto e pelo Blog.

Única cidade planejada do Brasil ?! Não é nem a primeira!

Ou não tem Diploma de jornalista ou esqueceu como se exerce a profissão. Jornalismo não é jogar um monte de opiniões fortes. Isso é papel de Fonte. Jornalismo é outra coisa.

03/03/2012 às 20:16 Samir - diz:

Ok legal. Mas alguém especializado em planejamento urbano deveria saber que Brasília não é a única cidade planejada do Brasil, né?

03/03/2012 às 20:24 Samir - diz:

Mas eu concordo com boa parte. Brasília não foi feita para pessoas. Brasília foi feita para carros. Você conseguiu enxergar em 6 horas a dificuldade que eu passo há 5 anos. Não tem calçada pra pedestres, quase não tem faixas, sol na cara o tempo todo, e o transporte público é completamente ineficaz, pra não chamar de estúpido. E só quem não tem um carro para se locomover que consegue perceber essas dificuldades.

05/03/2012 às 01:34 Simone Faria - diz:

Natália,
Estou apaixonada pelo seu trabalho.
Quando você fala então da despoluição de rios chego a ficar engasgada, pois moro em Belo Horizonte e morro de vergonha do Boulevard Arrudas. Simplesmente o esconderam para não mostrar a poluição, quando o que teriam que fazer seria a sua despoluição total. Dizem que é impossível, muito caro. Falta vontade política, mobilização, o resto vem depois. Com tantas experiências fantásticas pelo mundo, dá parta ver que é possível sim, basta querer. Aqui mesmo na nossa Minas Gerais, no Rio Mosquito, em Ribeirão Vermelho, uma pequena comunidade se uniu e revitalizou o rio, dando à população qualidade de vida, lição de cidadania, de respeito. Mostro este video sempre que posso às pessoas.
Sobre Brasília, posso imaginar, pois só a conheço do alto, mas me passa uma impressão de uma cidade sem pessoas, de ruas e calçadas vazias, sem contar a falta de árvores. Trabalho na Cidade Administrativa de Minas Gerais em BH e sei muito bem o que é um lugar onde não se pensou em pessoas, calçadas estreitas, distâncias enormes. Planejaram tudo, menos que aqueles prédios teriam pessoas trabalhando neles, pessoas com dificuldade para caminhar, com muletas, deficientes físicos, sem falar do sol ou da chuva que estas pessoas enfrentam ali dentro.
Belo Horizonte faz parte de seus estudos?
Parabéns!!!

05/03/2012 às 22:04 Vinicius Reis - diz:

Li que a autora da reportagem disse que Brasília é a única cidade
planejada do Brasil, o que é um equívoco. Belo Horizonte foi a
primeira cidade planejada do Brasil, fundada em 1897 para ser
capital de Minas Gerais, substituindo Ouro Preto. A outra cidade
planejada foi fundada em 1989 e se chama Palmas, capital do
Tocantins.

06/03/2012 às 15:28 Sarah Mendes Martins - diz:

Morei 30 anos (ou mais) em BSB …amava …mas tudo mudou… eu mudei e Brasilia também…. hoje saí de lá e moro no Rio de Janeiro….que diferença…..sinto que passei muito tempo escondida do mundo….num exílio…volto lá e vejo como se vive de aparências…..a liberdade é podada pela futilidade de certas pessoas….tenho certeza, que não como no prato que comi….mas tenho um verdadeiro horror a auto estima destes jovens que não sabem o que uma vida puxada, como as de outras cidades…
Frequentei os melhores ambientes….hoje …só se vive de reataurantes grifes…..etc etc etc …………
Juventude de Brasilia conheça outras realidades….
Sarah

07/03/2012 às 17:42 Iana - diz:

Nascida e criada em Brasília, posso te assegurar que ela foi planejada sim, mas para o funcionalismo público. Ninguém esperava que se tornasse alvo de nordestinos, mineiros, paulistas e por aí vai. Ocasionando na construção de várias cidades em seu entorno que de fato “respiram e inspiram” (eu moro em uma delas, Taguatinga). Claro que tem vários problemas urbanísticos como qualquer outra cidade, mas ao meu ver nada que um bom projeto de ciclovia e uma restauração no transporte público não melhore.

08/03/2012 às 02:29 evaristo nunes - diz:

Tudo certo até chegar no final. Há a síndrome do visitante de problema tb: não capturar a cidade e ficar mal impressionado.

08/03/2012 às 20:10 Janaína Camelo - diz:

Brasília como um todo, e não só o plano piloto, não foi pensada para ser vivida. Foi pensada como um grande órgão público, não como uma cidade, onde, em primeiríssimo lugar, existem indivíduos. Já tentou se locomover do ponto A ou ponto B a pé? Por exemplo, tente ir do setor bancário sul à torre de TV? Tente ir do Hospital de base à rodoviária… Olhe para o estado das calçadas (quando as há), conte as faixas de pedestre… Fui uma brasiliense sem carro por quase dois anos, morando em Águas Claras (onde há metrô) e trabalhando no centro da cidade, com duas pernas em perfeito estado de funcionamento, caso contrário…

09/03/2012 às 02:09 Ana Luisa Néca - diz:

Gostei do texto, concordo em parte. Li vários dos comentários e foi legal ver conhecidos aqui também, né João?! :)

Morei em Brasília 10 anos e estou em São Paulo há 4. Concordo com muito do que a Natália coloca no texto e acredito que a análise em poucas horas é mesmo mais superficial. Uma análise de 6 horas é uma análise de 6 horas. É diferente de uma análise de uma vida, né gente? Não tinha como não ser. Mas não perde o valor. Vamos lá.

Brasília é uma cidade encantadora, temos qualidade de vida no Plano Piloto e as possibilidadades de transitar são incríveis. Pessoas vão e saem. Mas muitas vão ficam – como eu, que fiquei 10 anos, e tantos outros que lá nasceram, lá vivem e amam a cidade. Mas tem gente que odeia Brasília e eu também entendo o motivo: ficar só um tico de tempo sem entender a lógica da cidade é um prato cheio pra voltar e dizer que a cidade não é nada pra pessoas. Conhecer a cidade com algum brasiliense é um convite a boas vivências e boas memórias. Mas assim é com qualquer aprendizado mediado por gente que tem referências de qualquer lugar. :)

De todo jeito, Brasília é uma cidade que dificulta encontros. Locomover-se a pé é um problema real. As pessoas estão sempre passando nas largas pistas e convivem menos nos “esbarrões” do dia a dia. Isso pode passar que a cidade é fria… discordo. Brasília tem muito. Tem gente incrível, guerreira pacas que faz dessa cidade maravilhosa, mesmo com essas dificuldades. O fato de ser plana e aberta podia ser melhor explorado pras pessoas andarem de bicicleta. Investirem REALMENTE nisso como um plano de vida. Mas aí vc trabalha na Esplanada e o terno ou o tailleur não permite. O comportamento das pessoas com relação à cidade e ao modo de vida que escolheram ter nela também conta, não?

A conversa aqui pode ser grande. O Plano Piloto é uma coisa. As cidades satélites originais são outra e os novos arranjos urbanos que nasceram e estão por vir (é insano querer comparar Ceilândia, Taguatinga, Águas Claras e Noroeste). As ocupações de que fala o texto do blog, em Brasília, acontecem mais visivelmente nas cidades satélites que tiveram crescimento “desordenado” (entendo isto como “a partir de pessoas”) e não por meio de um plano funcionalista e com o forte propósito de dissipar interesses e encontros. Não podemos esquecer do porquê e do pra quê Brasília foi criada: tirar a capital brasileira do centro de efervecência política.

Mesmo assim, com todas essas dificuldades, o Brasil segue há mais de 50 anos com essa capital. Cheia de belas contradições, mas que trazem muito do que somos como brasileiros. O sotaque brasiliense (mistura boa de mineiros, goianos, baianos e cariocas – pra ficar em pouco) é uma ótima síntese dessa mistura brasileira.

Estruturas que favorecem, obviamente, são melhores. Mas quem faz o lugar somos nós, gente que segue amando essa cidade (de perto e de longe).

16/03/2012 às 02:30 Almerinda Garibaldi - diz:

Natália,
Que pena que ficou apenas 6 horas na cidade. Realmente, a questão da escala humana que não foi pensada no planejamento de Brasília colabora muito para a dificuldade de locomoção das pessoas. Houve um visitante/amigo e gringo que me disse: “parece que a cidade foi criada para os carros…” Concordo com ele. Há um dado impressionante de um trabalhador em vendas de que 20.000 carros novos saem das concessionárias de Brasília por mês!!! E a questão das ciclovias sempre adiada…
É gratificante ver o quanto sua presença aqui por 6 horas causou tanto impacto nas pessoas que querem o melhor para a cidade. A discussão sobre as pessoas. Achei saudável e vejo como algo que pode levar a alguma consequência positiva.
Agora, faltou você dizer (deixando um pouco de lado a questão da funcionalidade) sobre a beleza do plano piloto. Brasília é uma cidade que enche os olhos e nos dá uma sensação incrível de liberdade. O ceu é fantástico e a luminosidade aqui é diferente – algo que nos dá energia e nos ajuda a continuar sonhando e pensando em alternativas que nos levem a ter mais qualidade de vida, apesar do caos urbano.

Abraços,

23/03/2012 às 23:39 Chandra - diz:

Sou de Belo Horizonte e moro em Brasília há 13 anos e já viajei por várias regiões do Brasil. Não troco Brasília por nenhuma delas. Brasília tem uma qualidade de vida incomparável. Nas quadras da asa norte por exemplo, onde moro, construí amizades fortes. Há vários ambientes de convívio como praças, quadras, parques, bares, restaurantes e o melhor ainda existem ambientes de cerrado preservados, próximo ao lago Paranoá, o mar da cidade. A gente respira em Brasília, o ar é gostoso, apesar da forte seca. Temos a visão do horizonte em quase todas as partes. O maior problema ao meu ver é o transporte público que é muito ineficaz e a rodoviária que é extremamente feia e mal cuidada. A cidade é muito nova e ainda é possível melhorar. Um problema atual é a construção do setor noroeste, onde poderia ter sido feito um parque de preservação para visitas, como foi feito na água mineral. A esplanada pode sim ganhar novos espaços de convívio para facilitar a interação e o movimento das pessoas, em contrapartida lá acontecem muitos eventos culturais que demandam muito espaço, até mesmo as mobilizações socias. Em Brasília, como em qualquer outra cidade, as pessoas que vão nela morar, precisam se adaptar e depois disso se apaixonam e como eu não querem mais ir embora. Agora quem preferir um ambiente mais úmido, com maresia ou com arranha-céus e as ruas lotadas de gente esbarrando, realmente tem que procurar outro local para morar. Cada animal no seu habitat, viva os calangos! Acho que um bom resultado dessa discussão seria propor um sistema mais desenvolvido de turismo em Brasília, para que quem chegue na cidade não fique perdido, sem saber por onde ir.

23/04/2012 às 20:45 Patricia Delorme - diz:

Encontrei uma quantidade de pessoas fantasticas em Brasilia. é possivelmente o local onde mais tenho amigos com qualidade de relaçao. Mas do ponto de vista urbanistico, é uma cidade dificil. Eu me lembro de ter me juntado com a vizinhança no lago sul pra fazer um abaixo assinado: gostariamos que fosse instalado uma faixa de pedestre com sinalizaçao para parada obrigatoria de carros no ponto de onibus proximo a ponte JK para erradicar os atropelamentos da populaçao que tentava atravessar as seis faixas das duas pistas com automoveis correndo a mais de 100 km por hora. a administraçao do Roriz RETIROU O PONTO DE ONIBUS da ponte JK. e todos que utilizavam o transporte publico continuaram atravessando as faixas, correndo perigo de vida e tendo que andar mais 700 metros até o proximo ponto de onibus. ESCANDALOSO! As calçadas tem desniveis importantes impossibilitando o deslocamento de deficientes fisicos. As quadras comerciais tem predios com dois andares onde a maioria nao tem rampa ou elevador. Enfim, a lista de problemas de Brasilia como cidade que nao tem a pessoa como prioridade é interminavel.

23/04/2012 às 20:53 wolney unes - diz:

natália,
belo, texto, boas reflexões. Mas a frase “única cidade planejada no Brasil” destrói um pouco disso. Acho até que vale um novo texto discutindo “cidades planejadas” e o próprio conceito de “planejada”.
Boa sorte!

01/05/2012 às 03:07 Londres a caminho de se tornar uma cidade para pessoas | Planeta em Perigo - diz:

[...] são sinais claros da falência de tal sistema. É hora de superar o que no exterior chamam de a Síndrome de Brasília. É hora de debater propostas e projetos e pensar sobre o futuro. Cidades devem ser para pessoas ou [...]

01/05/2012 às 09:39 Sumaia Salles - diz:

Natália, primeiro de tudo, gosto muito do seu trabalho e a parabenizo por isso. Sou arquiteta e urbanista e faço meu mestrado em urbanismo à Paris, concordo com muita coisa que vc cita. Só uma observação, Brasília não é a “única cidade planejada do Brasil”, Goiânia teve seu plano urbanístico projetado e implementado pelo urbanista Atílio Correia Lima em 1933.

01/05/2012 às 21:17 Londres a caminho de se tornar uma cidade para pessoas | Simone Tuasco - diz:

[...] são sinais claros da falência de tal sistema. É hora de superar o que no exterior chamam de a Síndrome de Brasília. É hora de debater propostas e projetos e pensar sobre o futuro. Cidades devem ser para pessoas ou [...]

01/05/2012 às 21:49 Newton Netto - diz:

Minha cara,

Brasília não é a única cidade planejada do Brasil, nem mesmo a primeira: Teresina foi Planejada em 1852, Aracaju teria sido planejada em 1955, Belo Horizonte no final do séc XIX, a já citada Goiânia também foi planejada antes de Brasília e, mais recentemente, a cidade de Palmas, considerada a cidade planejada mais nova do Brasil.
Seu trabalho de percorrer as cidades para falar delas é muito interessante, mas a pressa em publicar rapidamente seus textos pode lhe fazer cair na armadilha da pesquisa de apoio deficiente.

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Cidades para PessoasNatália Garcia

Natália Garcia é jornalista especializada em planejamento urbano e tem como principal ferramenta de trabalho uma bicicleta dobrável, que usa para explorar as cidades. Criadora do projeto Cidades para Pessoas, ela percorreu 7 cidades pela Europa (Copenhague, Amsterdam, Londres, Paris, Estrasburgo, Friburgo e Lyon) em busca de boas ideias e boas práticas de planejamento urbano que pudessem inspirar cidades brasileiras. A viagem terá uma segunda fase, percorrendo cidades nos demais continentes do mundo. Nesse blog você encontra o conteúdo apurado nas viagens e os bastidores dessa experiência. Este é o primeiro projeto jornalístico do Brasil a ser financiado colaborativamente pela plataforma Catarse.me.

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