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Seu muro é do tamanho da sua intolerância Natália Garcia - 22/05/2013 às 17:17
Enquanto escrevo esse post, estou sentada em minha escrivaninha no apartamento onde moro, no bairro de Pinheiros, em São Paulo. A parede à minha direita me separa da vizinha cantora-lírica-amadora, que nesse momento entoa “oooohs” e “aaaaaaahs” se equilibrando em uma afinação bamba. Da janela do fundo, junto com uma brisa fresca entram as vozes de crianças jogando futebol e cantando musiquinhas provocativas uns aos outros, a cada gol. Ouço lá de longe as nervosas buzinas de carros que formam um congestionamento na avenida Sumaré. Os ruídos dos automóveis abafam o batuque que anuncia o início dos trabalhos no terreiro de umbanda aqui pertinho.
Enquanto estou aqui, na sala da minha casa, há uma membrana permeável me separando da cidade lá fora. Membrana porque, efetivamente, há uma separação de paredes de alvenaria que me deixa segura, confortável e protegida aqui do lado de dentro. Permeável porque alguns ruídos me fazem entrar em contato com as vidas das pessoas aqui por perto, como se a janela fosse uma espécie de crônica viva da vida urbana desse bairro. E aí comecei a pensar: qual é a medida certa dessa membrana? De que tamanho devem ser as frestas para me protegerem do lado de fora sem impedir que eu tenha esses interessantes (e importantes) contatos com ele?
Bem, nos bairros mais nobres de São Paulo, os signos da lógica de espaços privados protegidos por membranas maiores estão consolidados. Em frente aos restaurantes mais caros (e aos nem tão caros assim), há um serviço de vallet para que o cliente precise andar o mínimo possível pela rua. Aliás, a legislação que rege a construção civil obriga todo prédio a oferecer, aos moradores, vagas de carros na garagem, independentemente da localização. Construir um prédio sem vagas perto de uma estação de metrô, por exemplo, é ilegal – o que aumenta a tendência de desconexão entre os lados de dentro e de fora. Já em prédios comerciais, a lei proíbe a ocupação do andar térreo – por isso aqueles enormes saguões onde há apenas um balcão de atendimento e algumas catracas para controlar a entrada das pessoas. Transformar o térreo de um empreendimento comercial em uma galeria arte, por exemplo, é igualmente ilegal.
Grande parte das regras sociais e legais que regem a construção da cidade reforçam a tendência do aumento dessas membranas entre os espaços públicos e privados. A questão é: por que?
O argumento mais usado é o da segurança. Mas se pararmos para pensar friamente no que é mais seguro, não me parece que a lógica dos prédios-fortaleza seja das melhores. O esvaziamento dos espaços públicos é justamente o que os torna perigosos. Aliás, a urbanista Jane Jacobs em seu livro Morte e Vida das Grandes Cidades defende exatamente o oposto: prédios e casas que se comuniquem com o lado de fora. As ruas só ficam mais seguras, segundo ela, quando são vigiadas por mais olhos. Não os olhos do vigia, do segurança. Os milhares de olhos de pessoas que, ao passarem por ali, fazem uma espécie de vigilância coletiva. Crimes são menos comuns em ruas onde haja mais pessoas.
Só que mais pessoas significa mais diversidade – e é aí que o bicho pega. Longe de mim querer diminuir o real problema de segurança em São Paulo, ou em qualquer grande cidade do mundo. A questão é que um muro não te separa só de quem pode te fazer mal. Ele te isola em um lugar seguro, onde só entra quem você permite, e te protege de tudo o que é diferente. E conviver com gente cada vez mais igual te deixa menos tolerante ao que é diferente.
Se uma membrana mais firme, como grades e muros, realmente protege alguém de possíveis assaltantes ou quaisquer outros perigos eu não sei. Mas que um muro é proporcional à intolerância de quem está do lado de dentro dele está cada vez mais claro.
Foi essa a lógica que transformou um conjunto de habitações populares em um condomínio fechado, em São Paulo. Mas isso é assunto para o próximo post.
foto: Natália Garcia
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O verdadeiro culpado pelos problemas de São Paulo Natália Garcia - 15/05/2013 às 23:54
Eu acho que não preciso usar esse blog para ficar repetindo coisas óbvias, né? O grande culpado por todos os problemas de São Paulo, claramente, é o carro. O trânsito afeta a praticamente todos os paulistanos e está diretamente ligado ao excesso de veículos. Cerca de 20% das pessoas se locomovem em automóveis e tomam 80% dos espaços do viário da cidade. E aí, ninguém mais anda. Malditos carros!
Quer dizer, na verdade, o trânsito também tem relação com o fato de as pessoas não conseguirem morar perto de onde trabalham. Todos os dias, o equivalente a uma população do Uruguai sai da zona Leste e vai até o centro de São Paulo para trabalhar. Não é apenas criando redes de mobilidade que se resolve esse problema, mas levando pessoas para morar no centro e gerando empregos na periferia. Só que o mercado imobiliário, em vez de ter uma visão estratégia do que é melhor para a cidade, só pensa em lucrar e gera um processo de gentrificação desenfreado pela cidade, empurrando ainda mais as periferias para longe do centro. Portanto a culpa mesmo, claro, é do mercado imobiliário. Maldito mercado imobiliário!
Se bem que o mercado imobiliário é composto por empresas que geram lucro a partir da construção e venda de imóveis. A rigor, esse lucro poderia ser direcionado para deixar um bom legado para a cidade. Para isso, seriam necessárias leis de incentivo que fomentassem tanto construções de qualidade que deixassem a paisagem urbana mais interessante – de preferência edifícios de uso misto, que criam zonas de encontro entre áreas privadas e espaços públicos – quanto moradias populares e acessíveis em áreas centrais da cidade. Mas os empresários estão imersos em um sistema maior e têm seu trabalho, muitas vezes, engessado por leis ultrapassadas. Caso da lei que determina um número mínimo de vagas para carros em empreendimentos comerciais ou residenciais. Só em relação aos imóveis lançados em 2010, estima-se que, na média, 30% da área construída tenha sido dedicada aos carros. Um terço de toda a construção civil para estacionar automóveis. Um absurdo! Na verdade, o problema central mesmo de São Paulo são as leis velhas, obsoletas, ultrapassadas. Maldito poder legislativo!
Mas também, de que adiantam as leis se, no Brasil, algumas “pegam” e outras não? Quem tem algum poder mesmo para melhorar a cidade é o cara que ocupa a cadeira de prefeito. É o poder executivo que faz as leis valerem no fim das contas, que regula e norteia a atuação da iniciativa privada e que prioriza (ou não) medidas que melhorem as cidades para as pessoas. Só que os prefeitos não estão a serviço das pessoas, estão a serviço das empresas que financiam suas campanhas. E eles têm 4 anos para fazer algo memorável – o que dificilmente inclui uma medida de longo prazo que reverbere positivamente na cidade. Sem contar a lama de corrupção em que eles, como qualquer político, estão metidos. A culpa no final das contas é dele, o prefeito que está no poder. Maldito prefeito!
Agora, sejamos razoáveis, quem elege o prefeito somos nós, cidadãos. Como também somos os responsáveis por fiscalizá-lo e cobrá-lo por sua gestão. Mas a grande maioria da sociedade civil é formada por um bando de bundas-moles alienados e acomodados, que votam mal, não acompanham e nem participam da atuação política dos prefeitos ou do poder legislativo. Problema mesmo é o povo. Somos nós. Malditos paulistanos!
Puxa, mas por outro lado também, alguns dos projetos mais interessantes de São Paulo surgem, justamente, da sociedade civil organizada. O Bike Anjo, os Hortelões Urbanos, as expedições Rios e Ruas, o Pedal Verde, o MUDA_coletivo, o coletivo oGangorra, o Cinese, o Pompeia Que se Quer e tantos outros já citados nesse blog vieram do engajamento das pessoas numa cidade melhor. Culpar os paulistanos é ignorar iniciativas como essas, coisa que a imprensa muito bem. Preocupados em vender, os grandes veículos jornalísticos fazem uma cobertura ruim, rasa e pouco propositiva das cidades. O resultado é que a maioria das pessoas fica mal informada sobre o que se passa em sua cidade e a maioria das notícias aponta problemas de maneira superficial, sem se aprofundar neles ou em possibilidades de soluções. Maldita imprensa!
Deixando esse círculo vicioso de lado, a verdade é que apontar culpados é a maneira mais fácil e cômoda de se isentar da própria responsabilidade por uma cidade melhor. É a dinâmica entre todos os personagens acima que molda as cidades. Não sejamos ingênuos, é verdade que alguns desses personagens possuem mais peso do que outros. Assim como as decisões que afetam a vida da maioria das pessoas são tomadas, em geral, levando em conta os interesses da minoria. Mas o pior desserviço para a construção de uma cidade melhor é eleger um inimigo e descarregar nele toda sua energia. Já citei aqui e volto a falar do Instituto de Sustentabilidade de Portland, que foi criado justamente para fazer conexões em grupos que classicamente não conversam (e, em geral, se odeiam): a iniciativa privada, a academia, o poder público e a sociedade civil organizada. O resultado é que em vez de passarem a vida inteira se acusando pelos problemas da cidade essas pessoas sentaram para conversar e criar, juntas, projetos economicamente rentáveis, urbanisticamente interessantes e que atendessem às demandas dos moradores locais, além de estimular seus potenciais.
Enfiar o dedo na cara dos “culpados” é um caminho fácil, mas que não leva a lugar nenhum. Sentar para conversar de maneira propositiva e receptiva, com a disposição de abraçar algumas responsabilidades e abrir mão de algum conforto é um caminho íngreme, tortuoso e incerto, mas que parece ter uma linda vista lá de cima. Tá afim de encarar?
Imagem: The Commons
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Cidades para Pessoas: dois anos de vida Natália Garcia - 03/05/2013 às 16:49
Domingo agora faz dois anos que o Cidades para Pessoas começou. Foi no dia 5 de maio de 2011 que aterrissei em Copenhague para iniciar a rota que duraria 10 meses (em duas viagens diferentes) e me levaria por 12 cidades pelo mundo. Vi de perto uma porção de projetos, encabeçados por políticos, empresas e pessoas engajadas. Pedalei por cidades planas e montanhosas, em climas quentes e frios. Nadei nos canais de Copenhague, fui à praia em Paris, comi amoras na beira dos canais de Londres e pedalei pelada em Lyon. Tirei a roupa também em São Francisco, em uma passeata cheia de homens com seios e mulheres com barba. (Não tirei tudo não, viu, mãe?) Ainda na cidade californiana, participei dos 20 anos do Critical Mass, ao lado de 10 mil ciclistas que tomaram as ruas. E foi no pedal que conheci a Golden Gate Bridge e segui até a cidade vizinha de Sausalito – de onde eu voltaria de barco para São Francisco, assistindo a um dos pores-do-sol mais lindos da minha vida. Conheci um super-herói que luta na Cidade do México para proteger os pedestres, o Peatónito. Ele pinta calçadas onde não existem e acabou influenciando a prefeitura da cidade a efetivamente construí-las. Fui às compras em Nova Iorque na Food Co-op, uma cooperativa que só vende alimentos orgânicos e onde seus clientes também trabalham para reduzir os gastos e manter os produtos a um custo acessível. Descobri que é possível viver sem emprego em Barcelona, onde, por conta da crise, jovens estão se organizando para trocar serviços básicos entre si mediados por uma moeda social.
De volta a São Paulo, tenho refletido um bocado sobre o que é, afinal, uma cidade para as pessoas. Posso dizer que após dos anos de pesquisa, já tenho algumas pistas.
Uma cidade para as pessoas sabe diagnosticar seus problemas e potenciais; e soluções criativas têm espaço para serem propostas e testadas pela sociedade civil. Caminhando por ela você encontra na rua, por acaso, um grande amigo. E, em sua trajetória pelos espaços públicos, se depara com maneiras interessantes de se locomover e locais convidativos para permanecer. Em uma cidade assim, as diferenças são respeitadas. Em vez do conservadorismo, que restringe as opções de empreendimentos e relacionamentos, por exemplo, as pessoas estão mais abertas para experimentar possibilidades. A natureza também é parte importante da história. Em bons centros urbanos, os rios, as plantas nativas e as árvores frutíferas são respeitadas e preservadas.
Nenhuma cidade é, intrinsecamente, para pessoas. Elas se constroem, são resultado da dinâmica entre as pessoas que moram ali. Em cidades menos interessantes, uma minoria de pessoas é ouvida e privilegiada. Caso das metrópoles planejadas para trem o carro como principal meio de transporte. Em São Paulo, por exemplo, 20% das pessoas se locomovem dirigindo, mas ocupam 80% do espaço das ruas. Um claro exemplo de uma cidade que não foi pensada para as pessoas, porque só atende a minoria delas.
O lance é que nenhuma cidade deixa de ser para as pessoas (apenas) por sacanagem. É um conjunto de fatores, de decisões históricas erradas às vezes tomadas de má fé, às vezes se deixando levar pela ingenuidade.
O que ficou claro de fato é que as iniciativas mais interessantes que moldaram as cidades mais incríveis que eu visitei vieram das pessoas. Digo, as pessoas simples, como eu e você. Algumas delas de maneira ativista, propondo projetos efetivos de ocupação dos espaços públicos, outras que simplesmente queriam uma vida mais interessante, e passaram a andar menos de carro, trabalhar menos horas, consumir menos, comer menos e melhor, passear mais pelas ruas e aproveitar mais os parques.
Em outras palavras, uma das melhores maneiras de melhorar sua própria cidade é aprender a viver de uma maneira mais simples e feliz nela.
Lendo hoje a revista Superinteressante, me deparei com uma reportagem que listava os maiores motivos de arrependimento de doentes terminais. São eles: trabalhar demais; viver a vida que os outros esperavam em vez da desejada; deixar de expressar os sentimentos com as pessoas queridas; e não ter sido feliz. E me dói o coração ver tantos amigos e familiares próximos que padecem desses males, ocupados que estão com algo que parece ser mais importante – trabalho, dinheiro, prestações de um empréstimo, vai saber… Mudar esse tipo de padrão de comportamento simplificando a própria vida é algo que acaba beneficiando a cidade, em última instância, mas começa beneficiando a pessoa que tomou essas decisões. E isso vai se refletindo pouco a pouco na esfera urbana.
É esse meu objetivo com o projeto: melhorar o repertório do que é uma boa cidade para as pessoas. Ou melhor, era, até a semana passada. Eu fui entrevistada por crianças de 10 anos sobre como é pedalar em São Paulo. E uma das meninas me perguntou: “Você pensa na questão de poluição quando pedala? Porque quando viajo para o interior, eu fico feliz de ver o céu estrelado, mas em São Paulo, com tanta poluição, não temos estrelas”. Desde então, meu maior objetivo é alimentar em mais gente o sonho de que o céu de sua cidade seja mais estrelado.
OBS: há centenas de pessoas a quem eu agradeço imensamente pelo apoio ao projeto. Apoiadores no Catarse, amigos e parceiros profissionais sem os quais o Cidades para Pessoas jamais existiria. Mas faço um agradecimento especial à Juju, que se juntou ao meu lado na busca por céus mais estrelados e amanhã comemora seu aniversário.
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Natália Garcia é jornalista especializada em planejamento urbano e tem como principal ferramenta de trabalho uma bicicleta dobrável, que usa para explorar as cidades. Criadora do projeto Cidades para Pessoas, ela percorreu 12 cidades pelo mundo (Copenhague, Amsterdam, Londres, Paris, Estrasburgo, Friburgo, Lyon, São Francisco, Portland, Cidade do México, Nova Iorque e Barcelona) em busca de boas ideias e boas práticas de planejamento urbano que pudessem inspirar cidades brasileiras. Esse blog compila ideias apuradas durante essa experiência e reflexões sobre suas possíveis aplicações às cidades brasileiras. O Cidades para Pessoas é o primeiro projeto jornalístico do Brasil a ser financiado colaborativamente pela plataforma Catarse.me.
22/05 • Seu muro é do tamanho da sua intolerância
15/05 • O verdadeiro culpado pelos problemas de São Paulo
03/05 • Cidades para Pessoas: dois anos de vida
25/04 • “Você não acha que falta engajamento nos paulistanos?
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21/09 • Desejáveis Cidades Novas
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