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A dimensão segura para errar Natália Garcia - 09/05/2012 às 18:12
Na semana passada eu me juntei ao teólogo Leonardo Boff e à diretora do Instituto de Pesquisas em Infraestrutura Verde e Ecologia Urbana (Inverde) CecÃlia Herzog para participar de um evento no Sesc de São José dos Campos que tinha como tema “Sonhar a Cidadeâ€.
Um desafio e tanto.
Porque uma coisa é se debruçar sobre possÃveis soluções para os (complexos) problemas das cidades brasileiras. A outra é sonhar cidades melhores. É mais ou menos a diferença entre pensar em um projeto para despoluir os rios que hoje estão canalizados e sonhar em poder nadar neles um dia.
Para abrir a discussão, Boff começou citando o cientista Albert Einstein: “Quando a ciência não dá conta de resolver um problema, é hora de apelar para a fantasiaâ€. Segundo o teólogo, o ser humano é a única espécie capaz de acrescentar algo à realidade. Para nós, os fatos estão cheios de potencialidades – e até mesmo de sonhos. Em uma outra citação, agora do escritor Oscar Wilde, Boff afirmou que o seu atlas pessoal tinha como destino fundamental a utopia, pois “o sonho é onde o ser humano atraca para se reabastecerâ€.
Após essa introdução teórica, Boff tentou mostrar a importância de sonhar em harmonia com as outras espécies do planeta. Citou a carta da terra para mostrar como devemos rever nossos padrões de consumo, garantir atividades econômicas que promovam o desenvolvimento criativo dentro dos talentos individuais de cada pessoa, sanar os danos ambientais e tentar prevenÃ-los no futuro.
Mas como trazer a capacidade de sonhar à realidade social, polÃtica, econômica e cultural das cidades brasileiras? Como criar projetos carregados desses sonhos e dessa consciência ambiental que sejam, por exemplo, viáveis economicamente?
Essas ainda são questões sem respostas consolidadas, mas a pesquisadora CecÃlia Herzog aponta uma direção interessante: criar projetos com dimensões seguras para errar. Em vez de pensar em um grande projeto que se proponha a eliminar definitivamente um problema em uma cidade, é preciso buscar soluções criativas e tentar aplicá-las em escalas menores, de maneira mais experimental e de forma que, se a tentativa não der certo, o erro seja um processo de aprendizado, não um desperdÃcio de dinheiro público em uma iniciativa grande demais que não tem outra opção, senão lamentar o fracasso.
CecÃlia tem uma pesquisa interessantÃssima em criação de infra estruturas verdes, que são o contrário das infra estruturas das grandes cidades brasileiras, chamadas de cinza, que possuem como principais caracterÃsticas a monofuncionalidade: como as ruas, feitas apenas para a circulação de veÃculos motorizados (em sua maioria, carros com apenas uma pessoa), a impermeabilização do solo e a quebra dos fluxos naturais da água e das espécies nativas.
A infraestrutura verde, na definição da pesquisadora, consiste em redes multifuncionais de fragmentos permeáveis e vegetados (preferencialmente arborizados) que reestruturam a paisagem urbana com o objetivo de manter ou restabelecer os processos e fluxos naturais e culturais que asseguram a qualidade de vida.
Um resultado interessante do cruzamento entre sonho, infra estrutura verde e projetos com dimensão segura para falhar é o rio Cheonggyecheon, em Seoul, na Coréia do Sul. Até 2003 o rio estava canalizado e passava debaixo de duas camadas de vias (uma avenida e um viaduto), como você vê na foto abaixo.
Em dois anos de obras, todo o concreto foi demolido e reciclado, o rio foi revitalizado e reaberto, em uma ação que custou aproximadamente 320 milhões de dólares. Essa é a paisagem do mesmo lugar hoje em dia:
Esse projeto em si pode ser passÃvel de crÃticas (por exemplo: outros cursos d’água foram modificados para que ele tivesse mais volume), mas não deixa de ser um belo exemplo de como é possÃvel sonhar cidades melhores e reunir recursos para colocar projetos de pequenas e médias dimensões em prática.
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Saia na rua e olhe em volta: cadê as pessoas? Natália Garcia - 02/05/2012 às 18:08
Quando criei o Cidades para Pessoas eu dei uma série de entrevistas sobre o projeto. Uma pergunta inevitável era: o que é, afinal, uma cidade para as pessoas? Apesar de sermos, eu e você, pessoas, essa não é exatamente uma questão fácil de responder.
Todas as vezes que faço palestras e abro essa pergunta para a plateia as respostas são sempre no sentido de uma cidade “menos ruim†do que a nossa. “Uma cidade para pessoas tem menos trânsito†ou “menos poluição†costuma-se dizer.
Em outras palavras, estão afirmando que uma cidade melhor para as pessoas é uma cidade que as prejudique menos. Mas, convenhamos, isso não dá conta da complexidade do conceito.
Gosto muito de uma frase do planejador urbano dinamarquês Jan Gehl: “sabemos tudo sobre o habitat ideal de todas as espécies de mamÃferos do mundo, menos do homo sapiensâ€. Definitivamente, não é pensar em lugares ideias para se viver que norteia o planejamento e o crescimento das cidades.
Mas se não são as pessoas, o que está no norte da administração das cidades?
Muitos teóricos tentarem responder essa pergunta. Um deles é o sociólogo francês Henri Lefebvre, autor de A Revolução Urbana onde se lê: nas cidades, a função determina a forma que, por sua vez, determina a estrutura.
Para provar essa tese, Lefebvre faz um recorte histórico das funções das cidades desde a antiguidade até hoje. Nas cidades da Grécia antiga, a função primordial era dedicar-se à s artes e à filosofia. Não à toa, as cidades se organizavam em torno da Ãgora, dos teatros, bibliotecas e museus.
Já na idade média, a produção artesanal de produtos e alimentos fez a Ãgora perder lugar para os mercados locais.
Com a revolução industrial, as cidades passaram a se organizar em volta das indústrias (ou as indústrias determinavam a criação de novas cidades).
A produção em larga escala criou a demanda de uma exploração voraz dos recursos naturais e trabalhar nas indústrias torna-se o centro da vida nas cidades (na Inglaterra do século XIX as pessoas que não quisessem trabalhar eram queimadas a ferro e fogo).
Essa linha evolutiva nos trouxe à s cidades atuais, em que a função central é trabalhar para consumir. Tanto o trabalho quanto o consumo se dão em áreas privadas (em geral distantes umas das outras), então se locomover é uma sub-função dessas principais. E como a malha de transportes nas cidades brasileiras é destinada principalmente aos carros, o que acaba acontecendo é que pessoas se locomovem entre lugares familiares (casa, trabalho, shopping) protegidas do encontro com gente diferente delas. As cidades se tornam enormes superfÃcies de passagem. Hoje nossas cidades têm essa cara:
Qual a grande diferença entre essa e as fotos anteriores?
Repare: não há pessoas nas ruas. Para existirem, para cumprirem a função de trabalhar para consumir, as cidades atuais não precisam de gente circulando nas ruas. Só que, quanto menos gente nos espaços públicos, pior eles ficam (e menor a demanda para melhorá-los).
E aÃ, chegamos ao paradigma digno de propaganda de bolacha: os espaços públicos pioram porque não há pessoas e não há pessoas porque os espaços públicos são ruins.
A única forma de começar a inverter esse jogo é – adivinhe – atravessar a grade e voltar à rua. É mais fácil, divertido e seguro do que possa parecer.
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Ponta colaborativa Natália Garcia - 25/04/2012 às 18:05
O financiamento colaborativo é uma forma cada vez mais disseminada de colocar projetos em prática. O Crowdfunding, como ficou conhecido, possui plataformas no Brasil, como o Catarse.me (www.catarse.me). Aliás, foi lá que eu consegui o financiamento da primeira fase da viagem do Cidades para Pessoas (http://catarse.me/en/projects/36-cidades-para-pessoas). Foi o primeiro projeto jornalÃstico do paÃs a ser financiado dessa forma, em março do ano passado. De lá para cá centenas de projetos passaram pelo Catarse.
Agora imagine que incrÃvel se pudéssemos viabilizar projetos concretos para nossas cidades de forma colaborativa. Por exemplo: uma rede de triagem de lixo reciclável em nosso bairro, que comprasse resÃduos só de catadores. Ou parte de uma rede cicloviária que atendesse toda a cidade (cada bairro pagaria pela sua).
Foi mais ou menos essa a ideia da empresa holandesa ZUS (Zones Urbaines Sensibles, ou Zonas Urbanas SensÃveis, em tradução livre). Em parceria com a 5.a Bienal de Arquitetura Internacional de Rotterdam, eles criaram o site I Make Rotterdam, um projeto de revitalização colaborativa do centro da cidade. A ideia é que ideias, projetos, gente engajada e financiadores se encontrem nessa plataforma on line para, juntos, transformarem o centro de Rotterdam em um espaço mais agradável para se viver.
O primeiro projeto, que já está no ar, é uma ponte de madeira para pedestres que vai percorrer um percurso elevado entre prédios comerciais e residenciais na área central da cidade. A ponte só vai ser concluÃda se os próprios moradores (ou usuários) pagarem por ela. O projeto possui trechos de 350 metros de extensão, que serão formados cada um por 17 mil placas de madeira. Quem quiser pode doar desde 25 Euros (que corresponde ao valor de uma placa, já inclusa a aplicação) até 1.250 Euros (para uma nova sessão de 350 metros). Assim, a ponte vai se prolongando conforme a demanda.
O curioso desse processo é que as etapas tradicionais de um projeto assim (mapeamento dos usos da área, levantamento de demandas, pré-projeto, planejamento orçamentário, etc) são queimadas. Ou melhor, são feitas de maneira colaborativa. É uma forma de os próprios cidadãos participarem ativamente de transformações efetivas em sua cidade.
Eu gosto muito da palestra do historiador e diplomata Joseph Nye no TED que fala, justamente, sobre a atual crise de poder. Segundo ele, o poder é a capacidade de afetar os outros para atingir um objetivo. Há três maneiras de fazer isso: por meio de ameaças, pagando ou fazendo as pessoas quererem o que você quer. Quando pensamos nessa terceira forma, o poder deixa de ser uma equação de soma zero (eu ganho e você perde ou vice versa) e passa a ser uma relação em que os dois podem sair ganhando.
É o fortalecimento desse tipo de poder apontado por Nye que tem norteado as soluções (e execuções) mais criativas para os complexos problemas das cidades modernas. Nesse sentido, estamos testemunhando, não uma revolução, mas uma infinidade de microrevoluções em que a arma mais potente é a criatividade. Vamos à luta?
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Natália Garcia é jornalista especializada em planejamento urbano e tem como principal ferramenta de trabalho uma bicicleta dobrável, que usa para explorar as cidades. Criadora do projeto Cidades para Pessoas, ela percorreu 7 cidades pela Europa (Copenhague, Amsterdam, Londres, Paris, Estrasburgo, Friburgo e Lyon) em busca de boas ideias e boas práticas de planejamento urbano que pudessem inspirar cidades brasileiras. A viagem terá uma segunda fase, percorrendo cidades nos demais continentes do mundo. Nesse blog você encontra o conteúdo apurado nas viagens e os bastidores dessa experiência. Este é o primeiro projeto jornalÃstico do Brasil a ser financiado colaborativamente pela plataforma Catarse.me.
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