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A incrível história do fazendeiro que recuperou o lar das araras-vermelhas em Mato Grosso do Sul Suzana Camargo - 11/02/2015 às 10:21

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O nome não poderia ser mais perfeito: Modesto Sampaio. Seu Modesto, como todos o chamam, é uma figura sem igual. O senhor, que acaba de completar 74 anos, é uma pessoa simples, de sorriso fácil e extremamente humilde. Fala com sotaque do interior, com uns “Rs” a mais e a menos.

É filho de uma família gaúcha, que trabalhava no campo, e decidiu mudar para o Mato Grosso do Sul, mais especificamente para o município de Jardim, próximo a Bonito. O pai e o avô sempre criaram gado. Durante muito tempo, Seu Modesto fez o mesmo, até que em 1986, ele decidiu comprar um pedaço de terra de uma propriedade e a batizou de Fazenda Alegria.

Para sua surpresa, ele descobriu na fazenda um enorme buraco no meio da mata. Na verdade, Seu Modesto se deparou com uma dolina, formação geológica resultante do desmoronamento de blocos rochosos. O imenso buraco tem 100 metros de altura e 500 metros de circunferência.

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A dolina da Fazenda Alegria com 100 metros de altura

O local não era desconhecido dos moradores da região. Muitos já haviam ouvido falar do Buraco das Araras. No passado, a dolina era lar de dezenas de casais de araras-vermelhas, que sobrevoavam a mata e buscavam alimento no lugar. Infelizmente, durante muito tempo, o buraco acabou virando um grande lixão. E as araras foram embora.

Quando Seu Modesto e sua família viram aquela dolina, resolveram mudar a história da Fazenda Alegria. Com o apoio da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul, do Exército e do Corpo de Bombeiros da cidade de Jardim, foram retirados três caminhões de lixo e entulhos do interior do buraco. Simultaneamente, os Sampaio começaram a recuperar o entorno da área com o replantio de vegetação nativa do Cerrado e preservação da fauna.

Em 1997, o primeiro casal de araras-vermelhas foi solto perto da dolina. “Era pra elas chamarem as outras de volta”, disse Seu Modesto na época. Demorou, mas a estratégia deu certo. Hoje cerca de 15 casais de araras – 30 indivíduos – têm a dolina como lar. Outros 20 casais aparecem frequentemente (araras são monogâmicas e vivem com o mesmo parceiro a vida toda).

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Casal de araras-vermelhas no Buraco das Araras

Graças à iniciativa de Seu Modesto e sua família, a dolina pode ser chamada de Buraco das Araras novamente.  “Vi que se não cuidasse daqui, as próximas gerações – meus filhos, meus netos – não iam conhecer esse lugar”, diz.

A recuperação do local e a volta das aves acabaram levando muitos visitantes para a Fazenda Alegria. Os Sampaio decidiram deixar a pecuária de lado e perceberam que ganhariam muito mais com o turismo ecológico. Atualmente, o Buraco das Araras é uma das principais atrações para quem viaja à região de Bonito.

Num passeio de cerca de uma hora, guias treinados (todos moradores da região) levam os visitantes para conhecer a dolina e falam sobre hábitos das aves e espécies da fauna e flora do Cerrado. Trinta mamíferos silvestres já foram encontrados dentro da propriedade, como lobinhos, veados e tatus. Além disso, cinco espécies ameaçadas de extinção também habitam a área: tamanduá-bandeira, lobo-guará, jaguatirica, veado-mateiro e anta.

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Sempre em casais, as araras fazem ninhos nas fendas da dolina 

Em 2007, Seu Modesto sentiu necessidade de perpetuar a conservação da dolina. Foi criada então a Reserva Particular do Patrimônio Natural Buraco das Araras, tornando os 29 hectares ao redor do local protegidos para sempre. Recentemente a família comprou parte das terras da fazenda ao lado para fazer o reflorestamento com mata nativa.

A história deste fazendeiro mostra que a vontade de um único indíviduo pode fazer a diferença na vida – ou na sobrevivência – de muitos animais. Seu Modesto fez. Trouxe de volta às araras-vermelhas ao seu lar. E permitiu que, todo os dias, centenas de turistas possam ver o espetáculo da revoada das aves nesta dolina no Mato Grosso do Sul.

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A revoada das araras-vermelhas atrai centenas de turistas

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A arara-vermelha, que se alimenta de coquinhos, especialmente da bocaiúva, palmeira típica da região


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Fotos: divulgação Buraco das Araras/Guavira Brasil Fotos e Suzana Camargo

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Que tal se tornar guardião das abelhas (brasileiríssimas!) sem ferrão? Vanessa Daraya - 09/02/2015 às 16:29

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*Com Mônica Nunes

Picada de abelha dói e costuma ser uma experiência traumatizante. Por isso, tem tanta gente com medo desse inseto. Mas você sabia que as abelhas que têm ferrão ativo são exóticas ou invasoras? Ou seja, não são nativas, mas foram trazidas para o Brasil. Mas, aqui, existem mais de 300 espécies nativas – ‘sem ferrão’ – que são fundamentais para o equilíbrio do nosso ecossistema. E o mais legal: não machucam. Na verdade, elas têm ferrão, que é atrofiado devido a um processo natural de evolução.

Para torná-las conhecidas do grande público e também ajudar a preservá-las, o comerciante paulistano Gerson Pinheiro criou a ONG SOS Abelhas Sem Ferrão*, em janeiro de 2014. Tudo começou quando sua filha Ana Clara voltou de uma excursão da escola com a ideia de ter um enxame de abelhas em casa. “Confesso que me assustei. Fui pesquisar a respeito e me deparei com esse universo tão importante para nossa sobrevivência. A partir de então, resolvi dedicar parte de meu tempo para fazer algo para proteger esses seres mágicos”, contou.

Assim que ele começou a estudar o assunto, percebeu que essas abelhas são desconhecidas do público. “Fiquei incomodado com o fato de as pessoas ouvirem a palavra “abelha” e a vincularem somente a “ferrão” e “mel”. Temos abelhas ‘sem ferrão’, mas que produzem mel de até melhor qualidade que as outras. Isso sem contar que mel é apenas um subproduto. O serviço mais importante realizado por elas – que é a polinização -, deixamos em segundo plano”, destacou.

Sem abelhas, um terço das colheitas não existiria. Elas são indispensáveis para a produção dos alimentos porque polinizam frutas e vegetais ao transportar o pólen de uma flor para outra. Mas, diariamente, inúmeras colmeias são destruídas no país por causa da falta de conhecimento sobre essas espécies inofensivas e tão vitais para nós.

O objetivo da ONG é espalhar por São Paulo – e depois pelo resto do país – conhecimento sobre as abelhas sem ferrão como uma forma de mudar a realidade desses insetos. A entidade ministra cursos gratuitos sobre o assunto para apresentar as espécies e explicar o papel delas para a fauna e a flora.

SEJA UM GUARDIÃO
Além de cursos, a ONG salva abelhas. A equipe faz resgates principalmente em muros, caixas elétricas, interfones e depois realoca os enxames. Se encontrar alguma colmeia em risco, é só entrar em contato com a instituição por sua página do Facebook*.

“Assim que recebemos um pedido de resgate, incentivamos a pessoa a avaliar se o enxame corre risco de vida. Ela pode observar se a causa foi a derrubada de um muro ou o envenenamento feito por algum vizinho, por exemplo. Se o enxame não correr risco, não há necessidade de retirá-lo do local”, explica Flávio Yamamoto, vice-presidente da ONG. Se tiver interesse, quem fez a denúncia pode, então, virar guardiã da colmeia e cuidar das abelhas. Mas claro que isso não é obrigatório. Os ativistas da ONG podem levar o ninho para um lugar mais seguro.

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Quer cuidar de abelhas em casa? “Para isso, é preciso entrar na fila de pedidos para receber uma colmeia, que geralmente é fruto de resgate. O interessado recebe uma caixa com apenas uma espécie de abelha, além da orientação necessária a respeito do melhor local para sua instalação, horário para abri-la pela primeira vez, plantio de flora (próximo e mais adequado), entre outras informações”, explicou Flávio que já destacou:
- é preciso sempre ter espécies florais bem cuidadas ao redor;
- a caixa deve ficar longe do movimento das ruas, em grandes centros urbanos;
- a caixa também deve ser protegida contra poeira, vento, chuva e sol, além de não ficar vulnerável às formigas.

O sonho de Gerson, de Flávio e dos ativistas da SOS Abelhas Sem Ferrão é conquistar, pelo menos, um guardião em cada região ou bairro de São Paulo. Assim, será possível multiplicar a proteção e criar uma rede importante de contatos, que poderá indicar também – para outras redes locais – onde há enxames a resgatar ou monitorar. Por isso, sempre que podem, também participam de encontros em prol do meio ambiente promovidos pela cidade.

No dia 1º. de fevereiro, por exemplo, participaram da Oficina de Plantio de Árvores – com direito a picnic – organizado pelas ONGs Muda Mooca* e Árvores Vivas* e pelos ativistas da Horta das Corujas, criada em 2012, pelos moradores do entorno da Praça das Corujas, na Vila Beatriz, em São Paulo. No meliponário da horta, Gerson e Flávio apresentaram algumas espécies das abelhas sem ferrão aos visitantes – Mandaçaia (a maior e uma das mais dóceis entre as brasileiras; é preta e tem listrinhas amarelas), Marmelada, Jataí e Mirim Guaçú Amarela. A editora do Planeta Sustentável, Mônica Nunes, esteve lá e adorou tudo que viu e ouviu sobre o projeto e cada uma delas.

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E você? Já conhecia as abelhas sem ferrão? Viu alguma colmeia por aí? Quer protegê-la? É só entrar em contato com a ONG. E, se quiser se tornar guardião, também.

*ONG SOS Abelhas Sem Ferrão
*Página do Facebook
*Muda Mooca
*Árvores Vivas

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Primeira foto: Wikimedia Commons

Demais fotos: Mônica Nunes

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Bombas coloridas de sementes espalham flores (e salvam abelhas) Vanessa Daraya - 26/01/2015 às 09:40

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Você já ouviu falar em bombas de sementes? São pequenas bolinhas – feitas de materiais diversos – recheadas com sementes, adubo e argila e muito usadas por ativistas americanos na década de 70 como estratégia de reflorestamento. Quando são arremessadas e ficam expostas ao sol e à chuva germinam até mesmo em solo pouco fértil. Além de ser uma diversão lançar essas bombas por aí, é uma tática fácil e muito interessante para aumentar o verde em praças e terrenos baldios.

Em São Francisco, na Califórnia (EUA), por exemplo, elas têm sido usadas para combater o desaparecimento das abelhas. Com o intuito de espalhar flores silvestres por todos os cantos do país, o casal Chris Burley e Ei Ei Khin criou o projeto Grow the Rainbow* (“Cresça o arco-íris”, em tradução livre). O nome se deve às cores das bolinhas – feitas com sementes nativas dos Estados Unidos, composto orgânico para ajudar na fertilização e um pó não tóxico – que remetem ao arco-íris em tons pastel, como mostra a foto. Não dá vontade de comê-las?

Mas não é só para enfeitar as cidades que eles disparam bombas de sementes. Chris e Ei Ei querem que as abelhas voltem a voar pela Califórnia, pelos Estados Unidos, pelo mundo. Como sabemos, sua população está em declínio em várias regiões, inclusive no Brasil. Os cientistas acreditam que vários fatores contribuem para o colapso de suas colônias como a proliferação de pesticidas e parasitas, além da maior frequência de eventos extremos causados pelas mudanças climáticas. Tudo isso causa o declínio dos habitats naturais da espécie. E isso atinge a nossa vida diretamente.

As abelhas são indispensáveis para a produção dos alimentos porque polinizam cerca de 70% das frutais e vegetais que consumimos. Ao transportar o pólen de uma flor para outra, polinizam maçãs, morangos, amêndoas, melões, tomate, feijão, entre outros.

Criar abelhas num mundo complexo e contaminado como o de hoje, não é fácil, mas todos podem fazer sua parte para ajudar a proteger essa prática. E é por isso que Chris e Ei Ei estão na “batalha”, com seu projeto, para incentivar o plantio de flores.

Um pacote da Grown the Rainbow, com 20 bolinhas, custa cerca de nove dólares no site do projeto. Mas fabricá-las em casa é possível e pode ser ainda mais divertido. A jornalista Giuliana Capelo, autora do blog Gaiatos e Gaianos (aqui no Planeta Sustentável), em post recente, ensinou seus leitores a produzir bombas de sementes, mostrando as que ela fez como lembrancinhas para o chá de bebê da filha que vai nascer em fevereiro.

Que tal espalhar essa ideia e ajudar a colorir as terras do Brasil, também? De quebra, com certeza as abelhas virão participar dessa festa.

*Grow the Rainbow 

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Foto: Divulgação/Seedles/Grow the rainbow

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