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Vírus por vírus, o nacional é melhor Liana John - 18/11/2010 às 08:22

Já se foi o tempo dos artigos importados superiores aos nacionais. Estão por aí os Made in China que não nos deixam mentir. E a constatação se aplica também ao universo dos vírus, conforme atesta o veterinário e mestre em microbiologia pela Universidade de São Paulo, Ricardo Spacagna Jordão, atual responsável pela produção de imunobiológicos no Instituto Biológico de São Paulo.
 
Em 2006, o pesquisador concluiu o desenvolvimento de um pacote tecnológico nacional para a produção de vacinas contra a diarréia viral bovina, com resultados melhores do que as similares importadas dos Estados Unidos. O segredo da eficiência, obtida experimentalmente, são os vírus BVDV de origem brasileira.

“O BVDV é um RNA vírus, capaz de mutar facilmente, como também acontece com os vírus da gripe. Isso torna as vacinas produzidas com vírus nacionais mais adequadas para o rebanho do País”, comenta Jordão. Ele partiu de 20 opções de isolados dos dois tipos de vírus BVDV (I e II), mantidos num banco de nitrogênio líquido do Laboratório de Viroses dos Bovídeos, no Instituto Biológico. Após o seqüenciamento genético de todos, um deles foi escolhido para dar início ao longo processo de produção da vacina.

A primeira etapa inclui o cultivo dos vírus. Como qualquer ser vivo, os vírus precisam de um ambiente adequado e alimento para crescer e se multiplicar. Neste caso, o microambiente ideal é constituído de células de rim bovino acondicionadas em placas ou garrafas e mantido à mesma temperatura do organismo dos bois: 37º C. Já a ração é uma mistura de aminoácidos, soro bovino e outros ‘temperos’, chamada MEM.

O desenvolvimento dos vírus é monitorado em microscópio ótico: conforme se reproduzem, eles alteram a aparência externa das células. Após atingir a concentração ideal, Ricardo Jordão submeteu os vírus cultivados a diversos processos de filtragem e purificação, além de fazer a inativação química com formol.

“O objetivo da vacina é provocar a produção de anticorpos sem desenvolver a doença, assim precisamos de um vírus que seja reconhecido pelo organismo do animal – boi, ovelha ou búfalo – porém sem capacidade de reprodução. Preservamos a cápsula, mas destruímos o material genético”, explica o pesquisador. “É como uma fita-cassete sem a fita magnética: quando a colocamos no aparelho de som, ela é reconhecida pelo equipamento, mas a música não toca”.

Na última etapa do processo, o microbiologista acrescentou um adjuvante para permitir a liberação lenta do vírus inativado após a vacinação. Assim o gado fica protegido durante o ano inteiro de maneira uniforme.

A vacina Made in Brasil foi testada em cobaias (porquinho-da-índia) e está pronta para virar produto veterinário no mercado nacional. Como a similar importada, deve ser aplicada em duas doses com intervalo de 20 dias. E uma indústria brasileira já se prepara para produzi-la em escala comercial.

Como se diz pelos sertões afora “É o olho do dono que engorda o gado”. Mas, cá entre nós, não custa garantir a saúde dos bois gordos com uma boa dose de vacina nacional, sobretudo quando se trata de um vírus transmitido por contato direto e o número de laboratórios capacitados para fazer o diagnóstico é pequeno. Recomenda-se vacinar, em especial, nos casos em que animais de várias procedências são agrupados no mesmo rebanho. Conforme reza outro ditado muito popular, “É melhor prevenir do que remediar”…

Fotos: Ricardo S. Jordão – células normais (esq.) e células infectadas pelo vírus BVDV (dir.) em imagens de microscópio ótico

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Comentários

18/11/2010 às 09:07 Anonymous - diz:

Iris – diz:Pois é, falta incentivo, mas tudo o que precisamos, tudo o que é bom, nós temos!Um dia o Brasil ainda terá o seu merecido reconhecimento. Começa assim!Ótima matéria!

18/11/2010 às 15:06 Anonymous - diz:

Juliano Schiavo – diz:Essas matérias sobre biotecnologia nacional são muito interessantes, pois mostram o potêncial do País. Parabéns!

20/11/2010 às 11:12 Anonymous - diz:

Richard Sotero – diz:Muito gente vê na microbiodiversidade apenas os problemas e doenças causados pelas bactérias e virus. Muito interessante esse artigo para ampliar um pouco mais nossa visão dos virus.

03/12/2010 às 22:01 Anonymous - diz:

Ricardo Jordão – diz:Cara Liana, parabéns pela matéria e grato pela divulgação do trabalho. Fica o convite para visitar o Instituto Biológico. Abs

04/12/2010 às 16:13 Anonymous - diz:

Dolores – diz:Cara Liana, agradeço pela abertura ao assunto e parabenizo vc, Ricardo, pela iniciativa. A produção de vacinas com variantes virais que circulam aqui é extremamente importante, pois vacinas importadas nem sempre dão a cobertura desejada; não porque não são de boa qualidade, mas porque os vírus que contém são um pouco diferentes geneticamente dos que circulam aqui. Iniciativas como a do Dr. Ricardo deveriam ser muito mais valorizadas e aplicadas à nossa realidade.

02/01/2011 às 01:50 Anonymous - diz:

Edward Hawkeye – diz:muito boa materiainteressante o assunto, e de conteudo raroParabens!

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LIANA JOHN

é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

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