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De veneno a fortificante Liana John - 11/08/2011 às 11:54

Quando eu era ‘criança pequena’, aprendi que os índios pescavam batendo o veneno timbó na água para atordoar os peixes. Depois de crescida, soube que a prática não é exclusiva dos índios nem tão disseminada assim, mas ainda existe. O timbó tem um efeito temporário, suficiente para fazer os peixes boiarem, permitindo a captura com as mãos ou com puçás (redes pequenas, montadas em aros com cabos). Os peixes pequenos ou sem interesse para consumo depois se recuperam e escapam, talvez com pouco de ‘ressaca’. E os grandes são consumidos, aparentemente sem toxinas na carne.

 

Ao mergulhar mais fundo no assunto, constatei que timbó é um nome atribuído a diversas espécies de plantas com seiva tóxica, das famílias das leguminosas e das sapindáceas. Essas plantas são também chamadas de timborá, timbó-peba, timbé, tingui, mata-porco, cipó-de-sapo, erva-de-rato-verdadeira, ginjeira-da-terra e por aí vai…

 

Descobri ainda outros usos, muito além da pesca artesanal. É o caso do timbó da região Sul, de ocorrência natural mais comum entre o noroeste do Rio Grande do Sul, o oeste de Santa Catarina e o sudoeste do Paraná. Cientificamente conhecida como Ateleia glazioveana, essa espécie interessou à pesquisa agropecuária por seus bons resultados na adubação verde, sobretudo de hortaliças, morangos, plantas medicinais e pomares.

 

Adubação verde, vale lembrar, é a prática de plantar espécies ricas em nutrientes para cortar e incorporar no solo durante o preparo para o cultivo principal. Essas plantas, em geral, são ricas em nitrogênio, um dos nutrientes mais importantes para o crescimento de vegetais e o mais difícil de disponibilizar para as raízes ao longo de toda a safra. O adubo nitrogenado químico, em geral, ‘escapa’ do solo, transformado em gás ou carregado pelas chuvas. Já o nitrogênio proveniente de adubos verdes é liberado gradativamente, com melhor aproveitamento.

 

Há mais de uma década, o engenheiro florestal Amilton João Baggio, da Embrapa Florestas, iniciou uma seleção de espécies brasileiras com potencial para adubação verde. O timbó se destacou como a melhor opção e o pesquisador passou a aprofundar os estudos, realizando diversos ensaios na adubação de alimentos e plantas medicinais.

 

Segundo publicou Baggio, o timbó ocorre naturalmente em áreas abandonadas, sendo mais conhecido por suas características indesejáveis – como ser uma espécie invasora e causar intoxicações em animais domésticos – do que por suas virtudes. Mas na adubação verde, “destacou-se por sua produtividade e persistência a cortes sucessivos”, diz. E é “a espécie mais indicada para utilização em propriedades familiares carentes de recursos”.

 

O sistema de produção é simples, explica a agrônoma Maria Izabel Radomski, também da Embrapa Florestas: “O timbó é plantado na propriedade, junto da horta ou do pomar, e todo ano é podado, de forma a ser mantido como um arbusto (normalmente cresceria como uma árvore de 5 a 6 metros). Os ramos são então triturados no cortador que o produtor tiver disponível e o material picado é incorporado no solo dos canteiros ou na coroa (em volta do caule) das plantas perenes”.

 

Em parceria com Baggio, Maria Izabel testou o timbó na adubação verde da espinheira-santa, outra planta nativa, de uso medicinal (Veja o blog Biodiversa de 5/5/2011, Só uma santa para derrotar a celulite!). “O timbó tem bastante nitrogênio, por ser uma leguminosa, e também fornece potássio. Seu uso substitui os adubos químicos N e K. Recomendamos adicionar só o fósforo (P)”, prossegue. Esses três nutrientes fundamentais a qualquer vegetal (N,P e K) foram medidos pelos pesquisadores nas plantas de espinheira-santa seis meses após a incorporação do timbó picado, evidenciando a eficácia da adubação verde.

 

Nada como transformar uma invasora em aliada, um veneno em fortificante. Sobretudo quando seu uso é de custo baixíssimo, cortando despesas com adubos industrializados e livrando a terra de aditivos químicos!

 

Foto: Maria Izabel Radomski (arbustos de timbó em horta de ervas medicinais)

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Comentários

15/08/2011 às 18:06 Anonymous - diz:

fabio colombini – diz:Liana, coincidentemente acabo de voltar do Xingu, onde pude acompanhar a preparação do Quarup junto à etnia kalapalo. Um dos grandes eventos é a pesca realizada com a ajuda do timbó. Os pajés e idosos batem no timbó vigorosamente e por muito tempo, e após duas horas os peixes começam a aparecer. Nesse momento somente as crianças são autorizadas a pegá-los, com seus arcos e zagaias. É um evento impressionante, que reune toda a aldeia com muitos gritos de alegria e susto pelos choques dos peixes-elétricos.Abraços,Fabio Colombini

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BiodiversaLiana John

Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

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