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Vazou petróleo no mar? Camarão nele! tiago - 22/07/2010 às 10:29


Ainda não dá para limpar a mancha monstruosa do Golfo do México, porque falta produção em escala. Mas os vazamentos pequenos e médios estão com os dias contados: já está inventada e patenteada a tecnologia brasileira capaz de limpar o petróleo derramado no mar e ainda acelerar a degradação do poluente recolhido.

A ideia começou a tomar forma lá atrás, quando o químico Afrânio Aragão Craveiro, da Universidade Federal do Ceará (UFC), foi procurado pela indústria camaroneira do litoral nordestino para dar destino adequado aos resíduos: montanhas de cabeças e cascas de camarão. Para comercializar as atuais 60 mil toneladas de camarão cultivado produzidas por ano, por exemplo, antes é preciso extrair pelo menos 20 mil toneladas de resíduos.

Craveiro descobriu a utilidade de uma substância chamada quitina, presente na carapaça do camarão (também dos demais crustáceos, como lagostas, siris e caranguejos) e criou uma bem sucedida indústria de cápsulas de quitosana, usadas para combater a obesidade, reduzir o colesterol e ministrar remédios com precisão.

A principal característica da quitosana é aglutinar e absorver gordura. “Ora, o petróleo assemelha-se à gordura vegetal, então imaginamos que a quitosana teria a mesma propriedade lipofílica, ou seja, de atração e absorção do óleo”, conta o cientista. Isso foi há três anos, quando Craveiro trabalhava na diversificação de produtos do Parque de Desenvolvimento Tecnológico da UFC (Padetec). Em laboratório, sua equipe reproduziu manchas de petróleo na água do mar e as borrifou com um spray de quitosana. O óleo espalhado se aglomerou numa massa mais fácil de recolher.

Não contentes com o resultado, os pesquisadores magnetizaram a quitosana, acrescentando magnetita às cápsulas de cascas de camarão. “Além de coalescer (ou seja, ficar intensamente aglutinada), a mancha de óleo pode ser recolhida no porão de um navio por meio de um magneto (imã), eliminando a necessidade de toda a parafernália de esponjas e demais equipamentos absorventes utilizados”, acrescenta Craveiro.

Mas ainda não era o suficiente. E a equipe da UFC recorreu novamente à biodiversidade, em busca de um meio de acelerar a degradação do petróleo recolhido. Sob coordenação de Vânia Maria Maciel Melo, realizou-se uma verdadeira garimpagem nos campos de petróleo de Suape (PE), Pecém e Lubnor (CE), para selecionar os microorganismos mais eficientes na degradação do óleo.

A espécie eleita foi a bactéria Bacillus pumilus que, inserida na cápsula de quitosana magnetizada, é capaz de transformar o viscoso poluente recolhido em gases e compostos ambientalmente menos agressivos, como gás carbônico, ácido lático e outros. A degradação leva alguns dias e a quitosana magnética ainda pode ser recuperada de volta.

A nova tecnologia de recolhimento e degradação de petróleo é objeto de uma patente de nome comprido: Microesferas de quitosana com células de Bacillus pumilus imobilizadas para uso na biodegradação de efluentes industriais e domésticos e na biorremediação de ambientes naturais contaminados com petróleo e derivados. E foi premiada pela Petrobras como o melhor invento de 2009, gerando interesse de empresas petroleiras internacionais.

Parte do desenvolvimento da nova tecnologia já contou com recursos da própria Petrobras e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), que continuam apoiando as pesquisas. Agora a equipe do Padetec se prepara para produzir 300 quilos de cápsulas magnetizadas de quitosana por dia e já conta com um reator para multiplicar as bactérias. O objetivo é fabricar o spray em maior escala e realizar testes de campo, a última etapa antes de partir para a produção comercial.

Na outra ponta da cadeia, o Padetec conta com financiamento do Banco do Nordeste para instalar unidades produtoras de quitosana junto aos carcinocultores (criadores de camarão), a quem o pacote tecnológico – sob coordenação de Raul Correa Filho e Erivam Melo – será repassado.

Nada disso libera produtores e transportadores de petróleo da obrigação de evitar vazamentos. Porém, a iniciativa demonstra que a inteligência humana trabalhando junto com a natureza incrementa muito a nossa capacidade de remediar danos e solucionar problemas.

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Comentários

22 de July de 2010 Anonymous - diz:

Isabel Pellizzer – diz:Tentar solucionar problemas é infinitamente mais produtivo do que ficar a dizer o que pode e o que não pode ser feito que prejudique o meio ambiente

22 de July de 2010 Anonymous - diz:

Peter – diz:Pelo que entendi, sua posição é muito perigosa, Isabel. Quer dizer que devemos então liberar qualquer atividade, sem saber se é prejudicial ou não, e só depois nos preocuparmos em solucionar os problemas criados com isso???

22 de July de 2010 Anonymous - diz:

Luis Corvini Filho – diz:Fantástico artigo e incrível notícia. Tecnologia incorporada a biodiversidade. Dessa forma que nos aprimoramos, nessa forma que progredimos sustentavelmente.

22 de July de 2010 Anonymous - diz:

Fernanda Ricardo – diz:Temos que resolver os problemas sim, mas também não podemos deixar de lado a prevenção, pois sem prevenção optaremos sempre pelos paleativos, discordo da Isabel neste ponto. Mas muito me alegra saber que somos sustentavelmente superiores aos outros países!!!!

22 de July de 2010 Anonymous - diz:

Isabel Pellizzer – diz:Peter e Fernanda o que diz dizer e não consegui me expressar é que só ficar analisando o que se poderia ter feito ou não para que aquilo não acontecesse não ajuda solucionar um problema já estabelecido

24 de July de 2010 Anonymous - diz:

Marcelo Venturi – diz:E o Prêmio Nobel de ciência ou de química ou ambiental quando vem?

24 de July de 2010 Anonymous - diz:

monique marmol – diz:Fantástico artigo e incrível notícia. Tecnologia incorporada a biodiversidade. Dessa forma que nos aprimoramos, nessa forma que progredimos sustentavelmente. [2]-mandou bem, Luis Corvini Filho! :)

25 de July de 2010 Anonymous - diz:

Iris – diz:Não sei quando vamos aprender que a natureza JÁ É o maior pólo tecnológico e de desenvolvimento do mundo. (: Nós, nessa busca incessante de progresso e poder, sempre esquecemos de aprender com os camarõezinhos mais simples… (:

26 de July de 2010 Anonymous - diz:

Juliano Schiavo – diz:Fantástica esta notícia. Que a experiência agora se comprove nos testes em campo.

26 de July de 2010 Anonymous - diz:

Edith Gonçalves – diz:Liana que incrível o camarão x petróleo. Coisas da natureza sobre as quais você escreve naturalmente muito bem. Parabéns pelo blog. Edith Goncalves

26 de July de 2010 Anonymous - diz:

Afranio Craveiro – diz:Prezada Liana, Parabéns pelo artigo! Gostaria apenas de fazer uma retificação: a quantidade de camarão produzida em cativeiro é de 60.000 ton/ano, e não 60 ton/ano. Este numero resulta em 18.000 ton/ano de resíduos em potencial. GratoAfranio Craveiro

27 de July de 2010 Anonymous - diz:

Carlos Magno – diz:Impressionante essa notícia. Como a jornalista descobre essas coisas? Creio que vai haver uma integração cada vez maior da biologia marinha com as cadeias produtivas. Os oceanos ainda podem alimentar e resolver problemas se soubermos preservá-los e utilizá-los de forma sustentável. Excelente e surpreendente artigo!

29 de July de 2010 Anonymous - diz:

Marcelo Ismar Santana – diz:É por este e outros motivos que o Governo Federal deveria investir mais nas Universidades Federais.Parabéns para a UFC.

2 de August de 2010 Anonymous - diz:

Liana John – diz:Obrigada pela correção, professor, e desculpem pela falha, leitores!O texto já foi corrigido!

3 de August de 2010 Anonymous - diz:

Carlos Júnio Cesconetti – diz:Excelente tecnologia desenvolvida! Excelente artigo.

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BiodiversaLiana John

Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

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