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Varre, varre a dengue, vassourinha… Liana John - 24/02/2011 às 11:05

Quem tem menos de meio século não lembra, mas um dos jingles políticos mais pops da história brasileira foi o “varre, varre vassourinha, varre a corrupção”. Tocado em ritmo de marchinha carnavalesca, fez estrondoso sucesso na campanha de Jânio Quadros pela Presidência da República, em 1960.

Como a corrupção, as larvas do mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, proliferam por toda parte. De acordo com estimativas do Ministério da Saúde, 19 estados(*) estão com alerta alto ou muito alto de epidemia de dengue. A ameaça pende sobre 70,3% da população brasileira neste final de verão.

As principais regras do combate às larvas do mosquito são mais do que conhecidas: nada de acumular água em vasos, pneus, garrafas e outros objetos, tampar caixas d’água, tirar folhas das calhas, etc. Mas com tanta chuva nem sempre se dá conta de manter tudo seco e, em alguns casos, a solução é usar algum larvicida.

Aí vale recorrer à biodiversidade brasileira em busca de um larvicida natural, para fugir dos venenos químicos. E um bom candidato é o extrato de canela-vassoura (Ocotea minarum), árvore nativa do Cerrado, cujas propriedades larvicidas foram testadas na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). “Selecionamos 30 espécies com potencial larvicida e, de todos os extratos, o que se destacou foi a laurácea Ocotea minarum”, conta Fernanda Garcez, formada em Farmácia com mestrado e doutorado em Química Orgânica e Química de Produtos Naturais.

Fernanda trabalhou com outro especialista do Departamento de Química da UFMS, Walmir Garcez, e com a doutoranda Lilliam May G. E. da Silva. Os recursos vieram da bolsa de doutorado da Coordenação de Aperfeiçoamento Ensino Superior (Capes) e da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado do Mato Grosso do Sul (Fundect).

Ao aprofundar a pesquisa, o grupo identificou o alcalóide responsável por matar as larvas do mosquito, conhecido como dicentrina. “Este alcalóide está presente em diversas espécies da família Lauraceae”, continua Fernanda. “No caso de O. minarum usamos o fruto, que é um recurso renovável e, portanto, permite uso de um produto natural, sem problemas com a extração’.

Outra árvore de Cerrado do mesmo gênero, a canela-branca (Ocotea velloziana), também é eficiente como larvicida contra o Aedes aegypti, mas a parte utilizada é a casca. “Essas plantas são de fácil reprodução, portanto talvez não seja necessária a síntese do alcalóide em laboratório”, complementa a especialista.

A vassoura de Jânio Quadros não varreu a bandalheira política. Ao contrário, as “forças ocultas” o levaram à renúncia em menos de sete meses de governo. E, no momento mais crítico, faltou apoio popular para reconduzi-lo ao cargo, como ele esperava. O governo de seu vice, João Goulart, terminou com o golpe militar e a ditadura.

No caso da dengue, a adesão em massa da população também é fundamental. Só esperamos que o desfecho seja bem diferente do governo Jânio Quadros. Com ajuda da canela-vassoura, quem sabe não temos mais chance na guerra contra as “forças ocultas” das larvas do mosquito.

Varre, varre vassourinha, varre a dengue para sempre…

(*) Os estados com risco muito alto de epidemia são Amazonas, Amapá, Maranhão, Piauí, Ceará, Bahia, Sergipe, Pernambuco, Paraíba e Rio de Janeiro. Os estados com risco alto de epidemia são Alagoas, Rio Grande do Norte, Pará, Mato Grosso, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Tocantins e Espírito Santos. E ainda há risco moderado de epidemia em Rondônia, Acre, Roraima, Mato Grosso do Sul, Goiás e Distrito Federal.

Foto: Denise Sasaki/Fundação Cristalino

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Comentários

24/02/2011 às 13:31 Anonymous - diz:

Bruno Russo – diz:Olá,achei muito interessante a iniciativa do grupo de estudar algo que não agrida o meio ambiente e ainda combater a dengue.Porém, não há especificado um lugar onde se possa conseguir esse tipo de larvicida.E explicar como deve ser utilizado.AttBruno Russo

26/02/2011 às 15:23 Anonymous - diz:

Isabel Pellizzer – diz:Será excelente se ele puder substituir aquele produto oleoso e tóxico que os agentes especializado usam para aplicar nos quintais e nas casas, que tem que ficar com portas e janelas abertas e retirar os animais domésticos, em locais com caso dengue.

27/02/2011 às 09:11 Anonymous - diz:

Paulo Sotero – diz:O problema: As principais regras do combate às larvas do mosquito são mais do que conhecidas: nada de acumular água em vasos, pneus, garrafas e outros objetos, tampar caixas d’água, tirar folhas das calhas, etc. Mas com tanta chuva nem sempre se dá conta de manter tudo seco e, em alguns casos, a solução é usar algum larvicida.

27/02/2011 às 19:12 Anonymous - diz:

Ludmila do Prado – diz:Liana, Estivemos juntas no TedxVila Madá, em homenagem a Mata Atlântica, e lá me contou sobre o lançamento do livro sobre a onça. Desde então venho acompanhando seu trabalho mais de perto e quero parabenizá-la, sinceramente,pela obra.Aproveito para dizer que as notícias que coloca no blog são balsâmicas para mim.Um abraço,

28/02/2011 às 10:11 Anonymous - diz:

MARIANA VIEIRA SENNA – diz:Interessantíssimo! As novidades aqui do blog são muito úteis para a vida.Parabéns por mais esta matéria.

05/03/2011 às 22:38 Anonymous - diz:

Lia Inês – diz:Liana já exixte à venda o produto?Se não, este produto será comercializado? Existe uma previsão de quando estará a venda? Obrigada!

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LIANA JOHN

é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

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