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As vantagens de ser homem-aranha tiago - 02/09/2010 às 13:29


Leve, resistente e flexível: estas três características, juntas, são o sonho de qualquer engenheiro de materiais. Acrescente-se a elas as vantagens ambientais de ser biodegradável e o sonho pode virar obsessão. A lista de aplicações para um material desses é variadíssima: do bico de aviões sujeitos a enormes atritos com o ar à proa de navios constantemente surrados pelas ondas; de roupas finas à prova de balas a equipamentos de proteção contra incêndios; de cabos de paraquedas a fios cirúrgicos para microsuturas ou tecidos para recobrir queimaduras.

Se não falta imaginação para aumentar indefinidamente o rol de utilidades, no entanto, faltam meios de produzir este material em escala. Porque as matérias-primas básicas, estas já existem: são as proteínas das teias de aranha!

Em diversos países onde se desenvolve tecnologia de ponta, a produção em larga escala de proteínas recombinantes sintetizadas a partir de teias de aranha está entre as metas prioritárias. Nenhum outro material reúne tantas qualidades ao mesmo tempo. Nos Estados Unidos e na Europa já se produz essas fibras a partir do leite de cabra, mas a escala também está longe do necessário. No Brasil, a equipe liderada por Elibio Rech, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, consegue extrair da soja os fios de teia sintéticos.

As espécies nativas originalmente estudadas para compor o novo material vieram da Amazônia, da Mata Atlântica e do Cerrado. São elas: Nephile clavipes, Argiope aurantia, Nephylengys cruentata, Parawixia bistriata e Avicularia juruensis.

“As espécies da Mata Atlântica e do Cerrado são arborícolas e têm a teia mais desenvolvida. As da Amazônia, são mais primitivas, de solo. Todas elas produzem a teia líquida e vão polimerizando o fio à medida que o expõem ao ar”, conta Rech. “E como na tecnologia de fronteira é muito importante ter o sentido de conservação, só precisei de alguns exemplares dessas aranhas para isolar as proteínas e nunca mais vou mexer na floresta. Agora faço tudo no laboratório usando Biologia Sintética. Assim, agregamos valor à biodiversidade sem depredação, conservando para usar, atribuindo valor para melhorar a qualidade de vida das pessoas”.

A equipe da Embrapa fez o genoma das aranhas e conseguiu produzir as fibras com bactérias transgênicas da espécie Escherichia coli. As proteínas são introduzidas nas bactérias, que as transferem para a soja. Uma vez reproduzida em campo, esta soja é colhida e dos grãos se faz um extrato, do qual se retiram só as proteínas de teia, por extrusão. Depois de purificada, dissolvida e tratada, uma solução contendo as proteínas vai para uma espécie de seringa, de onde se puxa o fio, imitando a maneira de a aranha polimerizar sua teia.

Uma patente já foi depositada em 2007 pela Embrapa e seus colaboradores brasileiros. E há empresas internacionais interessadas em partir para o desenvolvimento de produtos, utilizando o novo material. “A participação das empresas brasileiras neste tipo de investimento ainda é muito pequena”, lamenta o pesquisador. “Talvez falte informação sobre uma lei de incentivos fiscais, recentemente aprovada, que, se usada, certamente aceleraria muitas linhas de pesquisas no País”

Uma nova possibilidade ainda pode vir da introdução das proteínas de teias de aranha no algodão. As máquinas de tecer algodão progrediram muito e hoje operam em grande velocidade, de modo que a fibra de algodão nem sempre resiste. “O gene está pronto, mas ainda estamos tentando colocar as proteínas no algodão”, resume Elibio Rech. “Se conseguirmos, será muito importante para a indústria têxtil”.

Tomara que a iniciativa não se enrole nas teias da burocracia!

Foto: Liana John

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Comentários

02/09/2010 às 14:30 Anonymous - diz:

Isabel Pellizzer – diz:As aranhas fazem mesmo um trabalho muito inspirador e de dar inveja. Que as pesquisas cresçam e tenham sucesso em sua aplicações! Liana, adorei a foto!

02/09/2010 às 21:14 Anonymous - diz:

Heloiza – diz:Muito legal

03/09/2010 às 23:08 Anonymous - diz:

Juliana Valentini – diz:Liana,é sempre um prazer ler seus textos cheios de informações e detalhes inusitados. Acabo de postar no meu blog a indicação do Biodiversa como leitura indispensável. http://www.de-verde-casa.blogspot.comParabéns pelo conteúdo sempre tão recheado de ciência em linguagem gostosa e acessível.Um abraço!

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BiodiversaLiana John

Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

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