Biodiversa

Publique
o selo
no seu blog

Vacinar o cão para proteger o dono Liana John - 18/08/2011 às 17:28

Já é assim com a
raiva: a população de cães é vacinada todos os anos para evitar a transmissão
da doença para a população humana. O melhor amigo do homem também se beneficia,
claro, ao escapas do sacrifício, única medida ao alcance do dono no tempo em
que ainda não havia prevenção. 

 

Agora está em
fase de testes outra vacina canina para proteger gente, esta contra
leishmaniose visceral. Até os anos 1950, os dois tipos de leishmaniose
(visceral e tegumentar ou cutânea) eram doenças restritas ao meio rural ou a
exploradores que se aventuravam floresta adentro. Com a urbanização, a doença
também foi para as cidades e se transformou numa zoonose, nome dado a males
transmitidos dos animais para as pessoas e vice versa. 

 

Os dois tipos de
leishmaniose são causados por protozoários do gênero Leishmania e transmitidos
por insetos muito pequenos, dos gêneros Lutzomya e Phlebotomus. Os nomes
populares desses insetos variam de região para região, sendo os mais comuns:
mosquito-palha (embora tecnicamente não seja um mosquito), birigui, cangalha ou
tatuquira. 

 

O principal
sintoma da leishmaniose cutânea é a ocorrência de feridas que não cicatrizam,
enquanto a leishmaniose visceral tem sintomas muito semelhantes a várias outras
doenças e, portanto, é mais difícil de identificar: cansaço, febre baixa
recorrente e baixa imunidade. É preciso fazer um hemograma e sorologia
específica para confirmar a doença, inclusive com punção da medula óssea. Com
tamanha dificuldade, não são poucos os casos de doentes que só obtêm um
diagnóstico quando já estão debilitados demais para andar e acabam morrendo
antes do tratamento surtir efeito. 

 

Para complicar
ainda mais, muitas vezes o cão portador da doença não apresenta sintomas,
embora também fique doente. O dono convive com seu animal de estimação sem
saber do risco. 

 

Já existem
vacinas e tratamento para os dois tipos de leishmaniose do tipo homóloga, ou seja, feita com o mesmo agente causador de cada uma das doenças. A grande novidade
prestes a entrar na terceira fase de testes é uma vacina canina de primeira
geração, para vacinação em massa.  

 

“Quando falamos em prevenção, no caso da
leishmaniose visceral, não podemos falar na imunização de um cão ou um grupo de
cães. É preciso imunizar toda a população canina de uma região onde a doença é
endêmica”, observa o bioquímico e doutor em imunoparasitologia, Alexandre
Barbosa Reis
, coordenador do grupo de pesquisa da vacina no Núcleo de Pesquisas
em Ciências Biológicas da Universidade Federal de Ouro Preto (Nupeb/UFOP), em
Minas Gerais. 

 

O diferencial da
vacina desenvolvida por Alexandre Reis e sua equipe é o uso de uma espécie
brasileira de protozoário causador da leishmaniose cutânea para prevenir a
doença visceral (vacina heteróloga). O produto é feito com os protozoários naturais, porém
fragmentados e não vivos. “Na América Latina, 90% dos casos de leishmaniose
tegumentar ocorrem no Brasil e em 95% dos casos, o agente patológico é
Leishmania brasiliensis”, explica o especialista. “Fragmentamos esses
protozoários por meio de ultrassom e outros processos até obtermos peptídeos
(pedaços de proteínas). Como os genomas dos dois tipos de Leishmania são muito
próximos, a vacina imuniza também contra a leishmaniose visceral”. 

 

Como adjuvante,
Reis usa saponinas, substâncias derivadas de plantas, cujas características
principais são a alta solubilidade em água e a capacidade de formar espuma.
“Quando injetadas no organismo do cão ou da pessoa vacinada, as saponinas geram
uma inflamação, útil para recrutar células de defesa. Em seguida, tais células
entram em contato com os peptídeos de Leishmania brasiliensis e cria-se uma
memória imunológica, focada contra todo tipo de Leishmania”, diz. 

 

Além da vantagem
de poder usar esta vacina canina em campanhas de imunização, junto com a vacina
contra raiva, há possibilidade de uso no tratamento da doença, associada à
quimioterapia tradicional. “Os medicamentos usados na terapêutica de
leishmaniose visceral são muito pesados. Alguns grupos – como crianças com
menos de 5 anos e grávidas – nem podem ser tratados”, observa o pesquisador.
“No entanto, se os associarmos a vacina, podemos aproveitar os choques
imunológicos produzidos para reduzir as doses de quimioterápicos”.
Naturalmente, isso implica em desenvolver um medicamento, com dosagens
diferentes da vacina, mas é possível. 

 

A vacina canina
já passou pela primeira fase de testes e não se verificou nenhuma toxicidade.
Passou também pela segunda fase, com eficácia comprovada em camundongos e cães. Agora passa
pela terceira fase, que é a imunização de todos os cães em um canil aberto, em uma região de
ocorrência da leishmaniose visceral. Essa nova bateria de avaliações deve durar, no
mínimo, dois anos, sendo esperados de 3 a 4 anos até se chegar a um produto
final. 

 

Além da parceria
de pesquisadores da própria UFOP, Alexandre Reis conta com contribuições de
especialistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz/MG); da Universidade Federal de
Minas Gerais (UFMG); da Universidade Federal de Alfenas (Unifal); do National
Institute of Health
, dos Estados Unidos, da Universidade do Porto, em Portugal
e de instituições da Espanha. Os recursos são da Fundação de Amparo à Pesquisa
do Estado de Minas Gerais (Fapemig); do Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (CNPq), do Ministério da Saúde e da Secretaria de
Saúde do Estado de Minas Gerais
. 

 

Um dos
integrantes da equipe – Rodolfo Cordeiro Giunchetti – ainda recebeu um prêmio
da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes),
convertido em recursos. O prêmio foi entregue em 2009 e corresponde a uma bolsa
de doutorado para Giunchetti, hoje também professor e pesquisador na UFOP. “Foi
um estímulo a toda a equipe, uma indicação de que estamos no caminho certo”,
comenta Alexandre Reis. Segundo ele, um projeto mais recente já cuida de repassar a patente
para uma empresa de São Paulo, para a produção em massa da vacina. 

 

Resta desejar que
a equipe continue firme nesse caminho até tornar acessível uma vacina para
todos os nossos melhores amigos, capaz de nos proteger também! 

 

Foto: Liana John

ver este postcomente
Comentários

18/08/2011 às 19:20 Anonymous - diz:

Alexandre Reis – diz:Ficou excelente!Adorei!!Obrigado pela oportunidade em falar de nosso trabalho.Eu coordenarei um encontro internacional sobre vacinas em Leishmanioses em Setembro de 2012 onde esperamos a vinda de 60 pesquisadores de varios países para discutir avanços em Vacinologia para Leishmanioses de diferentes formas clinicas (Humana e Canina).Acredito que em breve teremos novas surpresas e boas perspectivas para o controle desta doença que tanto nos aflige…

19/08/2011 às 20:07 Anonymous - diz:

Moacyr Castro – diz:Liana!Imperdível seu trabalho. Diz a história que no fim dos anos 90s, uma prefeita de Araçatuba, Germínea Venturolli, travou uma guerra com lixeiros da cidade e a coleta ficou pralisada por mais de dois meses, com o lixo acumulando nas ruas, em meio àquele calor ‘ensurdecedor’, típico de lá. Logo começaram a aparecer os primeiros casos da “leish”, primeiro entre cães. Quando estive lá, em 2004, morriam as primeiras pessoas. Esse ‘mosquito’ Birigui teria posto a cara nessa época. Birigui é ao lado de Araçatuba e quer rivalizar com ela. Daí a vingancinha de bairristas. Certo é que no fim de 2004, a rodovia Marechal Rondon virou um eixo da leish, com casos explodindo em todas as cidades até Bauru.Verdade, lenda urbana ou folclore?

20/08/2011 às 15:21 Anonymous - diz:

Antonio Carlos Cavalli – diz:Prezada Liana: Tenho lido seu blog com freqüência e sempre com grande prazer pela carga de informações úteis e interessantes apresentadas. Além do seu jeito delicioso de escrever. Aprendi com o Nero, meu excepcional Labrador, a ter um grande apreço aos cães em geral. Esse trabalho do pessoal de Minas é de extrema importância. Parabéns !!

14/10/2011 às 12:12 Pelo fim da matança de cães, vista uma coleira vermelha nas redes sociais – Planeta Sustentável - diz:

[...] Leia também: Vacinar o cão para proteger o dono [...]

Deixe aqui seu comentário: Preencha os campos abaixo para comentar, solicitar ou acrescentar informações. Participe!

Enviar

BiodiversaLiana John

Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

Posts anteriores

• Uma ponte para dois remédios

• Guanandi reabilita a várzea amiga

• Coração forte como um touro

• Para viajar sem jet lag

• Mensageiras das boas águas

• Os poderes ocultos do X-Caboquinho

• Do couro n’água ao couro d’água

• Descole, se for capaz

• Frutas com veneno, nunca mais!

• Uma invasora contra invasões

• Larica de priprioca

• Em passo de formiguinha…

• O toque de Midas da bromelina

• Curauá enfrenta até terremoto!

• Da boca da serpente

• Com mulungu, mamulengo é moleza!

• Com mandacaru não tem água turva

• Pode comer que… é batata!

• Um catavento contra o câncer de laringe

• Enfim um fim para micoses teimosas!

• A volta por cima da velha piaçava

• Quando a ferroada vira remédio

• Feijoa: guardem bem este nome!

• A proteção está no bagaço

• Coco no cabelo, casca no churrasco

• Novo etanol sairá do solo amazônico

• Caju com resíduos faz do piso à telha

• O macaco está certo!

• Sujeira da grossa pede bactérias faxineiras

• O conservante dos conservadores de beleza

• Com baguaçu, a febre vai pro brejo

• É a volta do cipó de aroeira

• Bom para bumbum de bebê

• Pimenta-de-macaco ajuda até a descascar abacaxi sem surpresas

• Quem disse que pau oco não faz milagre?

• Sinal vermelho para o sol

• Comigo ninguém pode… nem mesmo a poluição!

• Vacinar o cão para proteger o dono

• De veneno a fortificante

• Na horta marinha brota saúde e renda

• Patauá é prazer de cama e mesa!

• A saúde é índigo blue

• A inspiradora flexibilidade do pirarucu

• Para curar qualquer ferida

• Pau-terra contra os efeitos do estresse

• Viva São João! Lá no alto e aqui no chão!

• Bicão high-tech

• Erva pra cabeça, por dentro e por fora

• Há males que vêm pra bem

• Tucupi, tacacá e tá na cara

• Esse chá de cogumelo é do bom!

• Um dedal de esperança contra alergias

• Só uma santa para derrotar a celulite!

• Mosquitos contadores de histórias

• Tremiliques da grumixava

• Coquinhos para encher o tanque

• O rapa das bactérias mineradoras

• Pimenta na salmonela dos outros é antisséptico

• Como bem dizia Anchieta…

• Comer, beber, emagrecer

• Do lixo para as passarelas

• Para matar a sede de saúde

• Varre, varre a dengue, vassourinha…

• Microexército para macrobatalhas

• Deu praga na praga

• Para rejuvenescer, use o escorrega-macaco

• Cascavel na veia ou em cápsulas?

• Madeiras que cantam e encantam

• Falta ar? Recorra ao peixe venenoso!

• Comece bem, com a pata-de-vaca certa!

• Um toque de sabor e textura aos congelados

• Overdose agrícola tem cura!

• Uma torneirinha para o bem-estar

• Para o alto e além!

• Vírus por vírus, o nacional é melhor

• A criativa defesa das pererecas

• Como tirar plástico da mandioca

• O inibidor de serpentes

• Relaxe! Deixe o herpes com a marcela

• Contra gripes e resfriados, use o guarda-sol

• Para lavar a égua… Ops: a água!

• Regeneração óssea sai da zona do vinagre

• Lugar de caju é na escova de dentes

• E carrapato lá tem serventia?

• A aposta no picão-preto

• As vantagens de ser homem-aranha

• Vai antigraxa aí, doutor?

• Um segredinho para adiar a morte

• Alívio é com a cabeludinha

• Esponjas para lavar o Mal do Século

• Medidores bat-precisos e bat-econômicos

• Vazou petróleo no mar? Camarão nele!

• Buriti: das veredas para os semáforos

• Luzinha ‘dedo-duro’

• Caranguejeiras x super bactérias

PATROCÍNIO: