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Um catavento contra o câncer de laringe Liana John - 05/01/2012 às 14:39

Com tantos inimigos da laringe em nosso cotidiano, onde arrumar um bom aliado?

Tabaco e bebidas alcoólicas – como bem aprendemos recentemente – são os dois principais inimigos. Segundo a Liga contra o Câncer, fumantes têm 10 vezes mais chances de ter câncer de laringe. E se os fumantes ainda associarem o cigarro ao álcool serão 43 vezes mais propensos à doença.

Comer alimentos muito temperados ou gordurosos; beber líquidos muito quentes ou muito frios; falar muito alto e sem pausas também são prejudiciais. E o estresse colabora como agravante, afetando em especial os homens, os mais acometidos por este mal.

Procurar um aliado para o combate à moléstia nem sempre é fácil. Mas, às vezes, ele pode vir de fontes inesperadas. Foi assim com a equipe da Unidade de Biotecnologia da Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp). Eles sabiam que plantas com alcalóides costumam ter atividade antitumoral. Também sabiam do uso medicinal tradicional de uma planta rica em alcalóides – conhecida como leiteira-de-vaca (Tabernaemontana catharinensis), jasmim-catavento ou simplesmente catavento (devido ao formato de suas flores brancas) – e há muito estudada pelo professor Paulo Sérgio Pereira, ali na Unaerp.

A planta é natural das regiões Sudeste e Sul do Brasil, atinge cerca de 2 metros de altura e pode ser usada tanto como ornamental como na recuperação de áreas degradadas, como pioneira. No primeiro experimento, os cientistas mediram sua atividade antimicrobiana, contra bactérias e fungos. Mas também verificaram atividade antitumoral.

Com base nesses resultados, resolveram testar diversos extratos vegetais – das folhas, da casca do tronco, das flores e das raízes – na esperança de isolar alguma substância ativa contra tumores. Contaram, para isso, com a facilidade de acesso a alguns exemplares da planta no próprio campus e com a possibilidade de usar recursos da Fundação de Amparo á Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp – processo 2010/06245-7) e bolsas de pós-graduação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, dedicadas a instituições privadas (Capes/Prosup).

Conforme conta a pesquisadora Ana Lúcia Fachin Saltoratto, o extrato de melhor atividade foi o de cascas das raízes. A equipe – constituída por 9 pesquisadores, mais alunos de pós graduação, como o mestrando Walace Fraga Rizo – passou a testar frações do extrato até identificar e isolar alguns alcalóides promissores. “Após esta triagem inicial, passamos à avaliação da atividade do extrato bruto e de frações com alto teor de alcalóides e alcalóides puros em diferentes linhagens tumorais, de carcinomas de mama, útero, pele, laringe e em células normais”, relata. Os melhores resultados foram obtidos contra o câncer de laringe.

O caminho até o desenvolvimento de um medicamento ainda é longo, pois os testes foram feitos apenas com células in vitro, em laboratório. Mas esses experimentos de triagem já indicam um nível de dano menor no DNA do que o quimioterápico comercial mais usado atualmente.

Assim, respondendo à pergunta lá de cima, o bom aliado contra o câncer de laringe pode vir das raízes do catavento. Mas a vitória dessa batalha não depende só de boas alianças. É preciso equipar os aliados com os armamentos certos, garantir os recursos necessários ao desenvolvimento das tecnologias adequadas e investir em estratégias que façam os medicamentos “combatentes” chegarem ao campo de batalha, aos pacientes.

O catavento pode fazer sua parte. Mas não irá à guerra por conta própria… E, claro, sempre é bom cortar os suprimentos dos inimigos, ou seja, nada de tabaco, álcool, temperos exagerados, gorduras, temperaturas extremas e discursos inflamados…

Foto gentilmente cedida pelo botânico Márcio Verdi (catavento em flor)

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Comentários

8 de January de 2012 Lucia Sevegnani - diz:

A reportagem sobre o catavento, planta muito conhecida aqui no Vale do Itajaí, SC, como tóxica para o gado, mostrou mais uma vez que espécies nativas são promissoras quanto a compostos importantes no combate às doenças. Mas é preciso prospectar. Parabéns Liana pela forma agradável da notícia.

A biodiversidade brasileira está toda para ser estudada em profundidade e trabalhos como a da pesquisadora Ana Lúcia Fachin Saltoratto, Unaerp são necessários e bem vindos. Parabéns à equipe.

Quero enaltecer o registro fotográfico representativo da espécie feito pelo Biol. Márcio Verdi – ele que se destacou como pesquisador junto ao Inventário Florístico Florestal de Santa Catarina, FURB, projeto que estuda a biodiversidade das florestas catarinensis.

9 de January de 2012 Marcos A Manfrinato - diz:

Interessante.

Como curiosidade mata, quero saber se é da folhagem, ou da flor (linda), que se extrai o alcaloide. E se dá p/ macerar e fazer chá. A Lucia citou que é tóxica para o gado…

Desculpe a urgência, mas os outros inimigos estão presentes a muito tempo no organismo, como o comidas fortes, gorduras, cigarros e álcool.

9 de January de 2012 Liana John - diz:

Oi Marcos, o alcalóide é extraído das cascas das raízes. Nas folhas e nas flores esta planta tem um “leite”, que é a parte tóxica para o gado.

10 de January de 2012 Rudimar Cipriani - diz:

Parabéns Liana, por mais este importante post. Seus artigos sempre trazem boas notícias e razões que sempre nos animam.

10 de January de 2012 Dominique Antunes Ribeiro - diz:

Obrigada pela sugestão. Infelizmente sempre temos alguém por perto precisando de uma sugetsão de tratamento para algum tipo de câncer. Uma doença persisitente que espero que a ciência transforme, o mais rápido possível, em um “mal do século passado”, como vários outros que a humanidade conseguiu superar.

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BiodiversaLiana John

Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

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