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Sai o pesticida, entra o pequiticida Liana John - 24/10/2013 às 15:21

Pequi_SilvestreSilva

Vida de planta do Cerrado não é moleza: além de se defender do sol tropical, de garantir reservas d’água para longos períodos de seca e fincar raízes profundas para não ser arrastada pelas enxurradas de verão, ainda é preciso criar um arsenal químico de reserva em caso de ataque dos mais diversos parasitas e predadores. E tudo isso sem sair do lugar, sem deixar de crescer, florescer e frutificar.

Felizmente para nós, humanos, as estratégias das muitas plantas do Cerrado para vencer essas adversidades se traduzem numa imensa variedade de substâncias, proteínas e moléculas de grande interesse para a biotecnologia. Assim, as prospecções de espécies nativas do Cerrado com potencial de uso acabam sempre revelando boas surpresas, mesmo que os resultados finais não correspondam exatamente às expectativas esboçadas no início.

Uma pesquisa realizada por Tiago Gonçalves da Costa para sua dissertação de mestrado em Ciências Genômicas e Biotecnologia, na Universidade Católica de Brasília (UCB), ilustra bem isso. Ele começou estudando a atividade de extratos brutos de casca, folhas, flores e frutos de barbatimão (Stryphnodendron adstringens), baru (Dipteryx alata),  erva-bugre (Casearia sylvestris), orelha-de-macaco (Enterolobium contortisiliquum), pau-terra-grande (Qualea grandiflora) e pequi (Caryocar brasiliense). Testou a atividade dos extratos contra bactérias e fungos patogênicos para o homem e para lavouras e contra insetos considerados pragas agrícolas.

“A amostra de melhor atividade foi o extrato bruto de flor de pequi contra bactérias e fungos hospitalares”, comenta a doutora em Biologia Molecular e orientadora do mestrado, Simoni Campos Dias, da UCB. A descoberta de novos princípios ativos antibacterianos e antifúngicos é de extrema importância no contexto hospitalar, pois as bactérias e os fungos patogênicos evoluem com muita rapidez e desenvolvem resistência aos antibióticos disponíveis, obrigando ao uso de doses maiores ou sujeitando os pacientes à septicemia. Assim, os resultados preliminares da pesquisa apontavam um caminho interessante a seguir.

Mas ao partir para a etapa seguinte, de purificação e quantificação da proteína com atividade, foi preciso mudar a direção. “Essas proteínas de reserva das plantas são produzida em quantidade muito pequenas. Não é uma molécula que a planta vai usar rotineiramente, é um recurso de emergência para quando houver um ataque. E, no caso da flor do pequi, ainda precisamos considerar o fato de a árvore só florescer uma vez por ano e as flores só durarem cerca de uma semana”, prossegue Simoni. Sem contar que a frutificação depende da polinização das flores e, portanto, elas não poderiam ser colhidas antes de cair.

A opção foi partir para outra atividade do pequi, contra insetos-praga, obtida com o extrato das sementes. Aí, sim, o estudo pode continuar, em parceria com a Universidade de Brasília (UnB) e a Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, de onde vieram os insetos-praga criados em laboratório para os bioensaios. Em termos práticos, as sementes de pequi são muito mais fáceis de encontrar e seu uso é mais sustentável, pois hoje elas são descartadas pelas cooperativas de comercialização da polpa do pequi. Ou seja, produzir um inseticida à base de sementes de pequi não só ajudaria a reduzir os impactos de pesticidas químicos no meio ambiente e entre os insetos benéficos, como eliminaria os atuais resíduos dessa comercialização de polpa.

Após sucessivas etapas de purificação proteica do extrato de semente de pequi, Tiago Gonçalves da Costa chegou a uma albumina 2S, um tipo de proteína solúvel em água relativamente abundante em sementes. Esta albumina 2S do pequi é uma possível alternativa para o desenvolvimento de novas formas de combate a insetos, fungos e bactérias de importância agrícola. De acordo com a pesquisadora Simoni Dias, o inseticida à base de pequi tem atividade inclusive contra a broca-do-cartucho-do-milho (Spodoptera fugiperda) e a lagarta-desfolhadora-da-soja (Anticarsia gemmatalia).

Além do aluno de mestrado e sua orientadora, o estudo contou com outros dois pós-graduandos e dois pesquisadores da UCB e as equipes das instituições parceiras. Os recursos vieram de bolsas da própria Universidade Católica de Brasília e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF).

E as superbactérias e os superfungos hospitalares?

“Ainda passo por um pequizeiro em flor e penso em continuar a purificação até chegar a uma molécula que possa ser sintetizada, pois assim não dependeríamos de extração da natureza”, confessa Simoni Campos Dias.

Não é, em absoluto, uma má ideia….

Foto: Silvestre Silva (fruto de pequi aberto, mostrando o interior da semente)

 

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LIANA JOHN

é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

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