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Sujeira da grossa pede bactérias faxineiras Liana John - 20/10/2011 às 18:19

Bactérias são fantásticas: estão por toda parte e prestam serviços que nenhum outro ser vivo ousaria encarar. Claro, precisam ser devidamente convocadas senão são capazes de matar com a mesma eficiência e rapidez com que nos livram de contaminações pesadas.

Há mais de duas décadas, o microbiologista Dennis Ray Schneider, então pesquisador na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, descobriu sua habilidade em convocar bactérias para limpar sujeira grossa, como vazamentos de petróleo e petroquímicos, efluentes industriais e esgotos domésticos e para degradar lodo do fundo de lagoas e diversos tipos de gordura “brava”. Ele transformou essa habilidade em negócio, na empresa recém fundada por John Morales – Micro-Bac International – com sede no estado “petroleiro” do Texas.

De lá para cá, Schneider e sua equipe já isolaram centenas de espécies de bactérias faxineiras, constituindo grupos especializados de ataque aos poluentes. Conforme os contaminantes e o tipo de faxina necessária, eles utilizam um grupo de bactérias diferente. Nos EUA, a maior parte dos serviços de limpeza está relacionada à indústria petroquímica, incluindo a dissolução de parafina acumulada na boca dos poços de petróleo, que voltam a operar a pleno vapor assim que as bactérias faxineiras deixam a arena.

Mas a empresa tem representantes aqui no Brasil também, trabalhando basicamente com a limpeza de lagoas de decantação de efluentes industriais, resíduos de abatedouros e de estações de tratamento de água e de esgotos domésticos (ETEs e ETAs), embora eventualmente faça a biorremediação de solos contaminados por hidrocarbonetos. E, para alguns casos específicos, foi preciso recrutar bactérias brasileiras para dar conta da faxina.

“No Paraná, por exemplo, atendemos um laticínio cujos resíduos tinham características diferenciadas, devido à mistura do soro do leite nos efluentes”, conta a bióloga Cristina Louro. Ela tem duas especializações - em controle ambiental de tratamentos de esgotos e em gerenciamento de áreas contaminadas - e presta consultoria técnica à empresa norteamericana. Segundo explica, o soro torna os efluentes mais ácidos e isso mata boa parte das bactérias não especializadas. Por isso foi necessário montar uma “força-tarefa” especial, da qual fazem parte as cepas brasileiras de Lactobacillos, Rhodospirillos e Zymomonas, entre outras.

“O Lacto-Bac é utilizado para acelerar a degradação de gordura, óleo, leite, carboidratos e proteínas”, detalha Cristina. “As estações de tratamento e lagoas de laticínios têm entrada de soro junto com o efluente e isso faz baixar o pH de 7,0 para 3,0, causando a mortandade de bactérias no sistema de tratamento. Os microrganismos selecionados do produto Lacto-Bac toleram pH na faixa 5,0 e se mantêm vivos no sistema de tratamento durante tempo suficiente para degradar a carga orgânica”.

A parte interessante dessa força-tarefa é o fato de a maior parte das bactérias morrer tão logo termine o serviço. “Faço a dosagem diária de bactérias nas lagoas em tratamento porque as bactérias duram, em média, 18 horas. Dos 100% de bactérias adicionadas aos efluentes apenas 1% sobrevive após digerir as gorduras e os contaminantes. O resto morre e é digerido por outros microorganismos naturais do sistema”, diz Cristina. Não há, portanto, risco de causar contaminação biológica no meio ambiente.

Outro grupo especial isolado a partir da biodiversidade brasileira é composto por cepas regionais de Lamprobacter, Rhodospirillum e Ancyclobacter. Elas constituem o produto comercialmente chamado de Mega-Bac Soy, usado no processamento de alimentos em restaurantes que utilizam óleos insaturados (de soja); para digerir o acúmulo de camadas de óleo em caixas de gordura; contra gordura animal insaturada (abatedouros) e na degradação de lodos, gorduras e sólidos, inclusive em fundo de lagoas.

“As bactérias transformam o lodo em gás carbônico e água mais restos de matéria orgânica que são digeridos por outros microrganismos, sem produzir materiais que precisam ser dispostos em aterros especiais, como o lodo de estações de tratamento”, complementa Cristina Louro. “E ainda eliminam o odor”.

Pensando bem, dada a atual situação de insalubridade ética da classe política, quem sabe uma investigação minuciosa não leva ao isolamento de uma equipe de bactérias faxineiras, especializadas em digerir as gorduras da corrupção e nos livrar – os contribuintes – da sujeira grossa fabricada com nossos impostos. Assim poderíamos devolver fluidez aos cofres públicos para financiar o que nos interessa, ou seja, saúde, educação, segurança e meio ambiente saudável!

Sugiro começar a pesquisa com uma “espanada” nos Ministérios, em Brasília.

 

Foto: Liana John (Lagoa de decantação de efluentes industriais em Amparo/SP)

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Comentários

20/10/2011 às 23:18 Priscila - diz:

Muito interessante esta matéria, mas isso tem um limite? até que dimensão chega esta “faxina”?

21/10/2011 às 12:29 Carla - diz:

Olha que coisa bacana. Por isso que sempre se deve investir em pesquisa e educação. Dá um excelente retorno!

22/10/2011 às 23:11 Graciane Silva - diz:

Sou engenheira agrícola e trabalho com biorremediação de solo contaminado com petro-derivados há quase três anos, a cada dia que passa ficou mais espantada com as ações das bactérias em diversos resíduos orgânicos. A biorremediação é uma técnica excelente, vai em direção a uma descontaminação barata e eficaz.

23/10/2011 às 00:12 Cristina Louro - diz:

Excelente a matéria, acredito que vc enfatizou bem o assunto.
Agora vamos esperar ver se algum Político Honesto ( se houver, rss) se interessa em fazer a faxina da corrupção com elas.

25/10/2011 às 01:06 Jonas Steinberg - diz:

Liana, quanto tempo. Parabéns pelo blog (que eu não conhecia) e pela matéria! Trabalho com investigação e remediação ambiental e a biorremediação tem me interessado cada vez mais.
Ainda completou com muita classe!

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BiodiversaLiana John

Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

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