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Sinal vermelho para o sol Liana John - 01/09/2011 às 14:23
Ao romper d’alva,
Poti partiu para colher as sementes de crajuru que dão a bela tinta vermelha, e
a casca do angico de onde se extrai a cor negra mais lustrosa. É assim, bem de
passagem, que o escritor José de Alencar cita o material do qual é feita a
tradicional tintura vermelha, usada pelos indíos pitiguaras de seu romance na
cerimônia de conversão do branco
Martim em um guerreiro vermelho, um filho de Tupã, como a esposa dos lábios de mel
e o amigo Poti.
O autor de
Iracema fala em sementes de crajuru, uma planta trepadeira também conhecida
como carajirú, grajirú, capiranga, guarajurupiranga, pariri e cipó-cruz, além
do nome científico Arrabidaea chica. Fora da ficção, porém, a tintura vermelha
é obtida a partir das folhas da planta, maceradas, fermentadas e misturadas a
óleo. Também quando fervidas as folhas adquirem a coloração vermelho-escura, que
chegou a ser usada como corante de peças de algodão no Século XIX.
Para os
indígenas, o uso principal da tintura no corpo era cerimonial, associado às
atividades de caça. Mas o efeito também era protetor, sobretudo para amenizar
as picadas de insetos. O que eles não sabiam era das qualidades desse preparado
vermelho na proteção contra os raios ultravioleta do sol, uma característica
confirmada apenas no Século XXI, por meio da espectroscopia fotoacústica.
Nosso objetivo
inicial era avaliar a atividade melanogênica do extrato de cipó-cruz, ou seja,
a capacidade de estimular a produção de melanina, conta o farmacêutico
bioquímico Celso Vataru Nakamura, coordenador do grupo de pesquisa
especializado na atividade biológica de produtos naturais, na Universidade
Estadual de Maringá (UEM), Paraná. Ao fazer a avaliação, notamos que o
preparado oferecia tanto proteção física como química contra os raios
ultravioleta do tipo A e B (UVA e UVB). Então nos concentramos em seu potencial
como fotoprotetor.
A vantagem do
novo extrato em relação aos protetores solares disponíveis no mercado seria
dispensar químicos considerados perigosos, como o dióxido de zinco. No entanto
ainda é preciso verificar se o extrato não altera o pH da pele, se não há risco
de toxicidade ou irritação e outros detalhes importantes.
Os primeiros
estudos e testes de laboratório (in vitro) do extrato de cipó-cruz foram feitos
por Jackeline Tiemy Guinoza Siraichi, em seu mestrado sob orientação de
Nakamura. Agora ela prossegue a pesquisa em seu doutorado e deve realizar os
primeiros testes in vivo. Parte dos recursos para equipamentos e material de
consumo veio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq).
Jackeline deve
iniciar os testes para determinar o Fator de Proteção Solar (FPS) e
experimentar combinações com hidratantes e demais cosméticos, antes de chegar à
composição de um protetor solar comercial. Mas o extrato fotoprotetor já tem
patente depositada e indústrias interessadas em adquiri-la.
Um dos aspectos
interessantes é a facilidade de cultivo da espécie. Embora seja originária das
regiões Central e Norte do Brasil e ocorra naturalmente na floresta amazônica,
a planta cresceu bem no campus da UEM, na região Sul. Todos os testes in vitro
aqui realizados foram a partir das folhas retiradas das plantas do nosso
viveiro, cultivadas por nós mesmos, atesta Nakamura.
Como convém às
trepadeiras, o cipó-cruz cresce rápido, mesmo sem muitos cuidados. E ainda dá
flores bonitas, rosadas, em forma de campânula. Se tudo correr bem com os
testes, quem sabe em breve não teremos um novo sucesso em vendas nos viveiros
de ornamentais?
Não sou nenhuma
Iracema, mas confesso que me agrada a ideia de plantar um filtro solar no
jardim, mesmo diante da possibilidade de tingir as mãos de vermelho em
alquimias caseiras, à maneira da heroína romântica…
Foto: UEM/divulgação (cipó-cruz no campus de Maringá)
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02/09/2011 às 12:56 Anonymous - diz:
CHRISTIAN QUIRINO SPOTO – diz:Se der certo como protetor solar já tem um consumidor. Ótima matéria, aliás como sempre. Parabéns Liana.
02/09/2011 às 16:05 Anonymous - diz:
Carla Sabiá – diz:Muito interessante a reportagem sobre crajuru . Só falta uma Natura ou Boticário patentear para fazer o filtro solar
03/09/2011 às 08:54 Anonymous - diz:
Marcos terra – diz:Não sei como a Liana John decobre todas essas coisas. Todo esse blog mereceria ser transformado em um livro. Parabéns. Excelente matéria!
03/09/2011 às 09:41 Anonymous - diz:
Rudimar Cipriani – diz:Liana, como é de praxe, seus posts são sempre pra lá de interessantes. Como admirador de seu trabalho leio todos os seus artigos. Concordo com o Marcos quando diz que este blog deveria ser transformado em livro. Parabéns Liana e obrigado por partilhar todo seu conhecimento.
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Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.
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