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Um segredinho para adiar a morte Liana John - 19/08/2010 às 17:40

Tudo é uma questão de dose, costumam dizer os especialistas em venenos. Uma substância capaz de matar pode também curar ou proteger, quando entendemos como ela funciona e aprendemos a usá-la em nosso favor. Assim é com a taturana mais perigosa do Brasil, de nome científico Lonomia obliqua, encontrada com mais frequência na região Sul.

Basta encostar nela e a vítima logo sente náuseas e dor de cabeça. Em seguida começam os sangramentos da gengiva, de feridas ou mesmo de cicatrizes recentes, com possibilidade de morte por hemorragia cerebral ou insuficiência renal. Os acidentes fatais com essa taturana motivaram pesquisas no Instituto Butantan, em São Paulo, com o objetivo de se descobrir um soro, hoje já disponível.

Mas a equipe de especialistas não parou no antídoto e esmiuçou os estudos até perceber que o veneno não é simplesmente anticoagulante – como seria de se esperar de uma substância que provoca hemorragias. O caminho é bem mais tortuoso, iniciando no sentido contrário: o veneno é pró-coagulante e primeiro provoca a coagulação do sangue dentro das veias (intravascular). Isso consome os fatores de coagulação e – aí, sim – torna o sangue incoagulável. Daí para frente, até furar a orelha é um perigo para a vítima, pois o furinho vai sangrar sem parar.

Ao decifrar essa forma de agir do veneno, a equipe coordenada por Ana Marisa Chudzinski Tavassi isolou a proteína pró-coagulante e identificou diversos usos potenciais: em diagnósticos, em cosméticos, no reparo de tecidos em casos de queimaduras ou isquemias, em cicatrização e até para evitar processos neurodegenerativos. A tal proteína seria como um novo tipo de ‘escudo’ celular, capaz de conferir imunidade mesmo a células consideradas ‘velhas’.

“O princípio de coagulação tem diversas aplicações na proteção contra a morte celular”, explica a pesquisadora. “Todas as células do nosso organismo estão programadas para morrer, mas a proteína da taturana consegue estimular componentes extracelulares responsáveis pela proteção – como o colágeno, entre outros – adiando essa morte celular programada”.

A pesquisa gerou três patentes e uma quarta está em vias de ser depositada, atraindo a atenção das indústrias farmacêutica e cosmética. Até aqui os estudos contaram com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Daqui para frente, os testes pré-clínicos devem ter apoio privado, assim como o desenvolvimento de produtos comerciais.

Os pesquisadores já têm como produzir a proteína em laboratório e também separaram um pedaço da proteína – um peptídeo – com mesmo efeito da molécula toda. Melhor assim: não faria sentido sair coletando taturanas para atender às necessidades da produção em massa. Mesmo oferecendo risco de acidentes, o inseto sulista presta lá seus serviços ao progresso da Ciência…

Foto: Roberto Moraes

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Comentários

20/08/2010 às 05:24 Anonymous - diz:

Marcos Terra – diz:Impressionante esse caso. E já gerou 3 patentes! Parabéns pela reportagem.Muito interessante mesmo.

20/08/2010 às 09:04 Anonymous - diz:

pedro henrique varoni de carvalho – diz: Oi Liana, isso lembra a máxima- o que difere o veneno do remédio é a dose, parabéns pelo blog.

20/08/2010 às 09:05 Anonymous - diz:

Rudimar Cipriani – diz:Interessantíssima esta matéria, a exemplo das demais. Parabéns.

20/08/2010 às 10:41 Anonymous - diz:

Juliano Schiavo – diz:Gostei da matéria. Muito interessante.

20/08/2010 às 12:33 Anonymous - diz:

Luiz Figueiredo – diz:Bom demais a leitura do seu blog, Liana. Como sempre, uma fonte para os interessados e iniciantes na área ambiental (meu caso). Parabéns.

20/08/2010 às 16:09 Anonymous - diz:

Marcelo Quaglio – diz:Cara Liana, mais um show de jornalismo e biodiversidade. Grande abraço

20/08/2010 às 16:33 Anonymous - diz:

Luis Corvini Filho – diz:Fantástico Liana. Poderosa essa cabeluda hein?

22/08/2010 às 20:54 Anonymous - diz:

Isabel pellizzer – diz:As cabeludas estão mesmo em altas! Mais uma matéria mostrando as descobertas dos pesquisadores que além de contribuir para a ciência também contribuem na preservação e valorização da biodiversidade por mais ameaçadora que nos pareça.

25/05/2011 às 08:54 Anonymous - diz:

Segredinho adiar morte 258724_post.. Ho-o-o-o-t :)

03/06/2011 às 09:38 Anonymous - diz:

Segredinho adiar morte 258724_post.. Bang-up :)

05/06/2011 às 09:54 Anonymous - diz:

Segredinho adiar morte 258724_post.. He-he-he :)

02/07/2011 às 15:45 Anonymous - diz:

Segredinho adiar morte 258724_post.. He-he-he :)

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BiodiversaLiana John

Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

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