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A saúde é índigo blue Liana John - 21/07/2011 às 06:34

Mudam os
modelitos, muda o tom do desbotado, mas não a preferência: o jeans permanece
como símbolo de juventude, sejam os jovens da geração hippie, yuppie, X, Y ou
Z. Talvez o segredo esteja no polivalente índigo blue, corante azul originalmente
resultante da tintura produzida com plantas do gênero Indigofera, em especial
Indigofera anil. 

 

O mesmo índigo
blue – bem carregado – está nas roupas dos tuaregues do deserto do Saara e nos
batiks de outras etnias do Sahel. Está também – levíssimo – nos lençóis brancos
do Brasil antigo, fervidos com anil após a lavagem. O anil brasileiro vinha em
cubinhos azuis, pronto para ser dissolvido na água e emprestar um ligeiro toque
de azul celeste à roupa de cama. Além disso, deixava um cheirinho bom, de
limpeza. 

 

O composto
químico responsável pelo azul exclusivo do corante chama-se indigotina e
pertence à categoria dos alcalóides. Mas não é a única fração de interesse
desse gênero de planta: existem outros compostos com atividade antitumoral e
antioxidante, conforme indicam estudos conduzidos por pesquisadores de diversos
institutos da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus Araraquara e
Botucatu, em parceria com equipes da Universidade Estadual de Londrina (UEL). 

 

A pesquisa partiu
de indicações etnofarmacobotânicas – ou seja, de usos medicinais populares –
para avaliar a atividade de duas espécies comuns no Cerrado paulista, com boa
produção mesmo em clima semi-árido e em solos de baixa fertilidade: Indigofera
truxillensis
e I. suffruticosa. “Observamos atividade antitumoral associada a
uma substância chamada indirubina”, conta Tamara Regina Calvo, responsável pela
identificação das atividades químicas das diversas frações extraídas das partes
aéreas das plantas (folhas e vagens), depois de secas e submetidas à extração
alcoolica. 

 

A ação sobre os
tumores se dá principalmente pelo fortalecimento do sistema imunológico do
paciente (ação imunoestimulante) aliada à ação direta sobre as células
tumorais. “Mas ainda não sabemos se o uso dessas plantas é seguro, pois não há
registro na literatura de testes de toxicidade e muitos outros ensaios
farmacológicos e clínicos ainda precisam ser feitos”, alerta a pesquisadora.
“Por enquanto estamos fazendo apenas os testes químicos, no âmbito do projeto Biota
da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp)”. 

 

Outra atividade
importante dos compostos “azuis” é o combate ao estresse oxidativo, ou seja, a
proteção das células por efeito antioxidante. A comprovação desta atividade foi
feita a partir de testes contra úlceras gástricas provocadas por etanol
(causador do chamado estresse oxidativo). O uso de frações de I. truxillensis
causou a reversão de 80% da lesão com uma dose relativamente baixa, resultado
considerado bastante promissor. 

 

A pesquisa
prossegue com a avaliação da ação potencial de I. suffruticosa contra
tuberculose, doença causada por Mycobacterium tuberculosis, com cerca de 8
milhões de novos casos e 3 milhões de mortes por ano, no mundo. A maioria das
pessoas saudáveis reage à progressão da doença com uma vigorosa
resposta imunológica, porém, sem eliminar completamente o agente patológico.
Assim, os pesquisadores investigam se a atividade de estímulo ao sistema
imunológico pode contribuir para melhorar essa reação natural, chegando a
destruir os bacilos. 

 

Pelo jeito,
aquele cheirinho bom dos lençóis lavados com anil não era mera impressão.
Embora não soubéssemos, talvez algum sexto sentido acusasse o reforço
imunológico e antioxidante por trás da simples sensação de limpeza… Não só a
juventude, mas também a boa saúde é índigo blue. 

 

Foto: Liana John
(vagens de Indigofera sp.)

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BiodiversaLiana John

Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

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