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Relaxe! Deixe o herpes com a marcela Liana John - 21/10/2010 às 14:54
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Não, ninguém aqui está recomendando passar o vírus para alguma mulher chamada Marcela para se ver livre da doença, embora exista quem acredite na possibilidade de tamanha bobagem. Nossa conversa é sobre uma nova forma de usar uma plantinha da biodiversidade sulina.
O vírus Herpes simplex, também conhecido como HSV1, é altamente contagioso e transmitido de pessoa a pessoa por contato direto, em geral, pelo beijo. Existe também um vírus de herpes genital, conhecido como HSV2, transmitido por relação sexual. Mas, neste caso, estamos tratando apenas do herpes labial.
Estima-se que o HSV1 afete 80% da população, embora apenas uma parcela dos portadores apresente as lesões características, semelhantes a pequenas bolhas nos lábios, recorrentes em períodos de estresse ou após exposição ao sol sem protetor. Na maioria das vezes, só quando a feridinha começa a aparecer o portador se lembra de ir atrás de pomadas e batons. E pouquíssimos funcionam.
É bem aí que entra a marcela ou macela, planta-símbolo do Rio Grande do Sul, cujo nome científico é Achyrocline satureioides. Amplamente usada como calmante, na forma de chás e até como recheio de travesseiros com um cheirinho delicioso, além de relaxante a erva agora tem uma versão em extrato seco, tecnologia desenvolvida e patenteada por uma equipe de pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), liderada pela doutora em Farmácia Valquíria Linck Bassani.
A ação antiinflamatória do extrato seco já passou pelos testes pré-clínicos (em ratos). E agora está sendo avaliada também a ação antiviral, por meio de testes in vitro, em parceria com a pesquisadora Cláudia Simões, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Para a marcela chegar ao mercado na forma de pomada anti-herpética, no entanto, ainda faltam os testes clínicos e o mais importante o interesse de indústrias farmacêuticas na produção do novo medicamento.
O extrato seco é produzido a partir das inflorescências da marcela. Suas principais vantagens são a estabilidade, o controle da dose das substâncias ativas (composição constante) e a solubilidade em água. É matéria-prima para o desenvolvimento de novos produtos, como uma pomada para o herpes, que dependem do investimento em ensaios clínicos, explica Valquíria. Ela também isolou as substâncias ativas do grupo dos flavonóides e está comparando a ação de cada uma separadamente com os resultados obtidos com o extrato, além de investir na retirada de uma resina, para aumentar a solubilidade da marcela.
A equipe de pesquisa da UFRGS já trabalhou com inflorescências de marcela nativa e atualmente usa variedades cultivadas. Não há grande diferença entre as substâncias ativas presentes na planta silvestre e no cultivar, embora existam variações ano a ano, devido a flutuações de clima ou diferentes tipos de solo, diz. Essa é outra vantagem da marcela, pois a produção em escala do medicamento não dependeria de extrativismo e, portanto, poderia ser feita sem depredação do patrimônio natural.
A marcela utilizada na pesquisa da UFRGS, por sinal, é fornecida pela equipe de Ílio Montanari Jr, no Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas Biológicas e Agrícolas da Universidade Estadual de Campinas (CPQBA-Unicamp), responsável pela domesticação da espécie. A variedade aprovada para cultivo já tem registro no Ministério da Agricultura desde 2008 e está prontinha para ser multiplicada e distribuída a agricultores. Só falta a aprovação do Ministério do Meio Ambiente (MMA).
Pessoalmente, torço para que o carimbo do MMA saia logo, enquanto há agricultores interessados. A produção comercial da marcela seria o melhor meio de aliviar a pressão de coleta sobre a planta nativa. E ajudaria uma grande parcela da população a relaxar, livre do incômodo do herpes labial.
FOTO: Liana John
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21/10/2010 às 15:36 Anonymous - diz:
Isabel Pellizzer – diz:Essa ferida na boca incomoda muito! Tomara mesmo que dê certo a fabricação deste medicamento – Será um alivio!
21/10/2010 às 21:55 Anonymous - diz:
Eliege Fante – diz:Só não achei legal anunciar como uma coisa boa que vamos depender de mais um produto industrial; não sei porquê tudo tudo tem que virar dinheiro neste mundo. Se for pra falar em dinheiro, queria saber quem vai pagar o conhecimento popular, indígena de que a macela era remédio pra herpes tb. Abração Liana leio sempre
23/10/2010 às 05:11 Anonymous - diz:
Amadeu Penteado – diz:Parabéns pelo artigo destacar que não basta um conhecimento empírico ou popular da biodiversidade. Uma das piores coisas que pode acontecer a um produto da biodiversidade é seu uso dar certo e ficar popular. A pressão coleta acaba com a planta nativa em seu ecossistema. De onde a importância da domesticação, seleção e plantio comercial para aliviar a pressão de coleta. Isso vale para todos os vegetais. O extrativismo deve ser substituído, quase sempre, pela agricultura.
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Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.
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