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Regeneração óssea sai da zona do vinagre Liana John - 30/09/2010 às 08:31

Como é desagradável abrir uma garrafa de vinho, antecipando seu sabor, e descobrir que a degustação foi, literalmente, para o vinagre! As responsáveis por esta traição ao paladar são bactérias do gênero Gluconacetobacter, consideradas bem comuns, caseiras até. No entanto, essas bactérias têm uma habilidade incomum, de grande utilidade na pesquisa de biomateriais: elas produzem celulose pura, com a qual é possível fabricar membranas biodegradáveis e biocompatíveis com o organismo humano.

No Instituto de Química da Universidade Estadual Paulista (IQ/Unesp), campus de Araraquara, a equipe coordenada por Reinaldo Marchetto testou a celulose bacteriana como base para a regeneração óssea, adicionando à tal membrana proteínas de colágeno, o mineral hidroxiapatita e um peptídeo sintético, estimulador do crescimento ósseo. “Esse peptídeo é o principal componente, pois ele estimula primeiro a proliferação das células e, depois, sua diferenciação e migração para constituição do tecido ósseo”, explica Marchetto.

Os primeiros resultados de testes com coelhos indicam que a recuperação óssea pode ocorrer entre uma a duas semanas, dependendo do tipo de problema. “Neste momento estamos investindo na recuperação de ossos da face, sobretudo associada a restaurações odontológicas, mas o biomaterial tem potencial também como auxiliar em outros tipos de regeneração óssea, de trincas ou pequenas fraturas ou mesmo casos associados à osteoporose”, completa o pesquisador.

A vantagem de usar a membrana de celulose bacteriana como base, além da ausência de contaminantes, é o fato de ela ter uma estrutura da ordem de nanômetros (um nanômetro = um metro dividido por um bilhão). Isso a torna eficiente na fixação dos demais componentes e muito resistente. E após algum tempo a celulose é reabsorvida pelo organismo, de modo que só é necessária uma cirurgia de implantação, dispensando a intervenção para retirada.

A celulose bacteriana ainda pode ser cultivada em moldes de diferentes formatos, conforme a necessidade da aplicação, ou seja, de acordo com o defeito a ser reparado. Inicialmente, a membrana tem uma espessura de 5 milímetros. É tratada, esterilizada em autoclave e recebe os demais componentes – por precipitação e ligação química. A água é, então, retirada e a membrana fica fina como um papel, um filme como preferem os pesquisadores. E mesmo assim a resistência se mantém, bem como o formato original.

A equipe já depositou a patente em nome da Unesp e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que financiou a pesquisa. O próximo passo é aprovar, junto ao Comitê de Ética, os testes clínicos (em humanos), a princípio apenas de restauração do osso da mandíbula para suportar implantes de dentes. Estes testes serão realizados pela doutoranda Sybele Saska, integrante da equipe, da qual também participam os pesquisadores Younès Messaddeq, Sidney J. L. Ribeiro, Ana Maria M. Gaspar, Paulo Tambasco de Oliveira e o aluno Lucas Novaes Teixeira.

Sybele Saska já foi premiada pelo desenvolvimento do biomaterial, inclusive. Ela recebeu um prêmio em dinheiro da empresa alemã Heraeus, em julho passado, durante uma reunião internacional de pesquisa odontológica realizada na Espanha.

A expectativa é chegar a um produto comercial dentro de 5 anos, a um custo bem inferior a similares importados. O preço final pode ficar entre 10 a 20 vezes mais baixo, aqui no Brasil, graças ao uso inédito do peptídeo sintético fixado na celulose bacteriana.

É algo a se lembrar ao abrir a próxima garrafa de vinho convertido em vinagre por Gluconacetobacter spp. A decepção do paladar não muda, mas pode-se ter alguma condescendência para com as transformações promovidas por bactérias.

 

FOTO: Celulose bacteriana ao microscópio - IQ/Unesp

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Comentários

01/10/2010 às 14:31 Anonymous - diz:

maria elena rocafort – diz:que maravilhosa descoberta, parabéns a todos os envolvidos.

16/10/2010 às 13:09 Anonymous - diz:

Fabio Castro – diz:Achei fantástico esse artigo. Não sei como voce consegue organizar de forma simples e objetivas coisas tão complicadas. E são pesquisas que nem se ouviu falar. as bactérias são as formas de vida por excelência neste planeta!

31/05/2011 às 12:46 Anonymous - diz:

I’m impressed! You’ve managed the amlost impossible.

01/06/2011 às 05:36 Anonymous - diz:

600585 mikyofttwkro

01/06/2011 às 05:42 Anonymous - diz:

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BiodiversaLiana John

Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

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