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Quando a ferroada vira remédio Liana John - 08/12/2011 às 17:10

Diz o povo da roça que ninho de marimbondo em casa traz sorte. Pois há uns bons anos, uma pesquisadora resolveu examinar de perto a grande variedade de compostos mobilizados a cada ferroada e descobriu duas substâncias neuroativas promissoras na peçonha do marimbondo-estrela (Polybia occidentalis). Um deles é um analgésico potente e o outro, um anticonvulsivante com efeitos colaterais reduzidos.

A pesquisadora é Márcia Renata Mortari, hoje docente na Universidade de Brasília (UnB). Ela iniciou esse estudo na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (FFCL/RP-USP), na equipe de Wagner Ferreira dos Santos, com quem ainda mantém parceria. Formada em Biologia, fez mestrado e doutorado em Psicobiologia e foca suas pesquisas em neurofármacos.

A substância analgésica isolada chama-se Treonina-6 Bradicinina ou Thr6Bk. Os testes de hipertermia realizados com animais (ratos) comprovaram os mesmos efeitos de controle da dor observados na aplicação de morfina, porém com apenas metade da dose. Ou seja,
um analgésico à base de Thr6Bk seria duas vezes mais potente do que a morfina.

“Mas os estudos para desenvolvimento desse analgésico não progrediram muito. Estamos mais concentrados no anticonvulsivante”, explica Márcia Mortari, que agora orienta uma tese de pós-graduação relacionada à substância. “Após isolar o peptídeo da peçonha do marimbondo – chamado de occidentalina em homenagem ao inseto – conseguimos obter um análogo, em fase de requisição de patente”. Um análogo é um peptídeo sintetizado em laboratório, com as mesmas características daquele produzido pelo marimbondo.

A equipe da UnB também busca melhorar a ação do peptídeo original, desenhando outros análogos aperfeiçoados. De qualquer forma, com o que já obtiveram, é possível chegar a um medicamento mais eficaz e com menos efeitos colaterais do que os disponíveis no mercado. “A ação da occidentalina é muito específica. Se comparada à dos anticonvulsivantes comerciais, causa menos sedação como efeito colateral, por exemplo. O peptídeo ainda apresenta um perfil neuroprotetor bastante interessante, evitando a progressão da doença convulsiva, além de controlar a
convulsão”, acrescenta Márcia.

A pesquisa com as novas substâncias contam com financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF). Os resultados ainda são preliminares e devem passar por várias fases de testes até chegar ao mercado.

E o marimbondo que deu origem a tão boa promessa? “É uma espécie enxameante (que forma enxames), relativamente comum no Brasil, também conhecida como marimbondo-farinha-seca, devido à aparente fragilidade do ninho”, informa o especialista em marimbondos, Marcos Magalhães de Souza, biólogo e pós-doutorando na Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais.

Segundo ele, a alimentação não difere muito da dieta básica dos marimbondos: néctar e pólen, colhidos em flores diversas, e outros insetos, sobretudo lagartas. Em geral, o ninho é arredondado com orifício de entrada lateral, como é comum entre as espécies do gênero Polybia. É fixado na vegetação, mas também em construções, sobretudo nos beirais de telhados de casas ou galpões abandonados ou com pouco movimento de pessoas. “A ferroada é um pouco dolorida, mas a espécie não é muito agressiva, desde que não se encoste no ninho”, observa.

Em outras palavras, manter essa espécie de marimbondo em casa – desde que a uma distância segura e longe de agitações – pode trazer mesmo sorte no futuro. Quem sabe então não passamos a chamá-lo de marimbondo-boa-estrela?

 

Foto: Marcos Magalhães (ninho de marimbondo-estrela)

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Comentários

08/12/2011 às 17:43 Catarina Menucci - diz:

Liana
Achei muito interessante a notícia do Marimbondo.
Será maravilhoso poder controlar convulsões.Abraços e parabéns pelo Blog

08/12/2011 às 17:46 Sergio Viegas - diz:

Espero que os medicamentos se mostrem seguros e estejam disponíveis em breve!

08/12/2011 às 18:24 Marcos Terra - diz:

Interessantíssimo artigo. Parabéns aos pesquisadores que estão investigando algo tão inesperado e promissor. E parabéns a Liana, que como sempre, descobre cada coisa nessa nossa biodiversidade!

08/12/2011 às 22:34 Tiago - diz:

Interessante.
A cura pela dor…
Isso é lindo na natureza, tudo que precisamos esta aí.
[ ]s

09/12/2011 às 01:45 Sidney - diz:

A cada dia mais e mais descobertas como essa são importantíssimas
parabéns

09/12/2011 às 14:06 Nilza - diz:

Simplesmente incrível e ao mesmo tempo belo a riqueza da natureza. E o apoio indispensável de Órgãos da Saúde e Pesquisa Científica para a aplicação de tão poderoso fármaco. Parabéns pela divulgação!

12/12/2011 às 18:32 gustavo dias - diz:

Interessante !!
Esses dias fiz o que não podia, esbarrei numa turminha delas e levei algumas ferroadas, acho que gerei um certo credito da tal substância ..rsrs

Sucesso pra pesquisa !

17/12/2011 às 19:50 Moacyr Castro - diz:

Liana!
O que seria da natureza sem a Lina, sua mais perfeita tradutora?

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BiodiversaLiana John

Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

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