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Pimenta-de-macaco ajuda até a descascar abacaxi sem surpresas Liana John - 15/09/2011 às 20:43


A história toda começou por ‘culpa’ da exploração predatória da canela-sassafrás em Santa Catarina. Essa árvore aparentada com o louro dá um óleo essencial – o safrol – disputado por perfumarias, para ser usado como fixador de perfumes. Nos anos 1970, o Brasil produzia cerca de 2 mil toneladas de safrol por ano, exportado principalmente para o Japão, Estados Unidos e Itália. Nos anos1990, por falta de matéria-prima, o Brasil passou à condição de importador e até hoje o mercado interno é abastecido com importações da China e Vietnã.

Diversos grupos de pesquisa então se dedicaram a prospectar plantas com bons teores de safrol, na tentativa de encontrar um substituto para a árvore catarinense. As melhores opções saíram do Acre, das pesquisas com diversas espécies não comestíveis do gênero Piper, vulgarmente conhecidas como pimentas-longas. Mas os resultados não se restringiram à perfumaria: surgiram também soluções potenciais para problemas agrícolas.

“Nesse grupo de plantas, cada espécie tem teores diferentes de três substâncias de grande interesse: o safrol, o dilapiol e a miristicina”, conta o agrônomo Murilo Fazolin, da Embrapa Acre. “As espécies com maior teor de safrol foram selecionadas para a substituição da canela-sassafrás, mas não eliminamos as demais. Na verdade, iniciamos a pesquisa com a pimenta-de-macaco (Piper aduncum) que tem alto teor de dilapiol”.

O dilapiol é um inseticida natural, capaz de dar fim a pragas agrícolas resistentes, como brocas, percevejos e vaquinhas, dispensando inseticidas químicos. “Demos início a testes com o extrato de pimenta-de-macaco como inseticida natural e numa versão misturada com inseticidas químicos”, prossegue Fazolin. “O inseticida natural tem alta eficiência e pode ser usado em produções orgânicas, mas queima folhas muito delicadas, como as de alface, feijão e mesmo milho”.

Por isso, a recomendação dessa versão se restringe a plantas de folhas mais duras, enceradas, como o abacaxi, o café e os citros. Segundo o pesquisador, nos testes feitos em campos de produtores rurais de abacaxi do Acre, os danos causados pela broca do fruto foram de 50% onde não houve aplicações; 10% onde foram aplicados os inseticidas químicos tradicionais e apenas 3% nas áreas tratadas apenas com pimenta-de-macaco.

A estimativa de custo das aplicações do extrato ainda é bem preliminar, mas hoje sairia 30% mais caro do que usar o químico convencional. Quando comparada ao tratamento orgânico mais conhecido, no entanto, a pimenta-de-macaco é bem mais vantajosa: 60% mais barata do que Bacillus thuringiensis. Vale lembrar que cada abacaxi com broca-do-fruto é um abacaxi perdido: por fora o fruto parece inteiro, mas por dentro está inutilizado pela lagarta.

“Além disso, o extrato reduz a contaminação ambiental das pulverizações com químicos”, acrescenta Murilo Fazolin. Mesmo na mistura com os inseticidas tradicionais, há redução da poluição, pois as doses de químicos são 50% menores. A mistura é indicada para as plantas de folhas mais delicadas, em especial nos casos de infestações de vaquinha-do-feijoeiro e lagarta-do-cartucho de milho.

“Ainda estamos estudando os efeitos das aplicações de dilapiol nas populações de abelhas e de outros organismos que não queremos impactar. E precisamos fazer ajustes de dosagens para cada caso. Mas já obtivemos registro do extrato como inseticida orgânico no Ministério do Meio Ambiente e no Ministério da Agricultura”, afirma o agrônomo. A equipe da Embrapa Acre também já desenvolveu sistemas de plantio da pimenta-de-macaco, que é uma planta comum em capoeiras, com grande capacidade de rebrota. O produtor planta uma vez e depois só corta os ramos para produzir o extrato. E se irrigar ainda consegue dois cortes por ano! A pimenta-de-macaco só é sensível ao sombreamento e à falta d’água.

“Precisamos investir agora na domesticação da planta, na produção de um cultivar próprio para plantios comerciais para dar origem à produção em escala”, conclui Fazolin. Ele estima de 3 a 4 anos para chegar a este cultivar, com a possibilidade de encurtar o prazo para 2 anos, se houver investimento de novos parceiros.

Que o bom senso das indústrias o ajude a descascar esse abacaxi agrícola. Da parte dos consumidores orgânicos posso afirmar que não falta disposição em comprar produtos sem pragas e sem veneno, seja abacaxi, café, laranja, feijão ou milho!

Foto: Murilo Fazolin/divulgação (Folhas e fruto ganchoso de Piper aduncum)

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Comentários

12/03/2012 às 22:54 damiao bonfim mendes - diz:

como é feito o extrato de pimenta de macaco?

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BiodiversaLiana John

Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

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