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Pau-terra contra os efeitos do estresse Liana John - 30/06/2011 às 13:11

Viver em grandes
centros urbanos é viver acompanhado. Se por muitos ou poucos, bons ou maus
acompanhantes, isso já depende do estilo de vida e da rede de relacionamentos
de cada um. Certo, mesmo, é o fato de todo mundo precisar conviver, em algum
momento, com alguma companhia indesejada. Do tipo que chega quando não é
chamada, fica quando não é bem vinda e não vai embora só porque você quer. 

 

Alguns males
urbanos
também são assim. E o estresse é o caso mais típico: dá sinais de se
instalar sempre no pior momento, não responde aos apelos para te deixar em paz
e custa muito a desaparecer. Igualzinho à sua ‘filha’ mais próxima e mais
tirana, a úlcera. Ou devíamos dizer as úlceras, pois existem muitas versões da
doença, geralmente derivada de um desequilíbrio do sistema digestivo que tem como consequencia a corrosão das paredes internas do estômago pelo próprio suco gástrico,
por medicamentos, por drogas ou por alimentos. Conviver com uma úlcera não é
fácil e requer cuidados muito prolongados, senão para o resto da vida. 

 

Por tudo isso, a
pesquisa de substâncias com potencial para controlar ou cicatrizar úlceras interessa a muita gente. E existem diversas
opções promissoras derivadas da flora brasileira. Como uma árvore cujos ramos são usados
na decoração de interiores, em arranjos de folhas e flores secas, e cujo nome comum pode ser pau-terra, pau-terrinha ou pau-terra-de-flor-miudinha (Qualea parviflora).
Nativa do cerrado paulista, esta espécie é popularmente usada contra úlceras,
inflamações, dor, diarréia e na desinfecção de ferimentos externos.

“Com base na
indicação etnofarmacobotânica partimos para analisar o extrato da planta,
quimicamente”, conta Ana Lúcia Martiniano Nasser, cujas teses de mestrado
(2004) e de doutorado (2007) versam sobre Qualea, ambas defendidas na
Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araraquara (SP). “Comprovamos
atividade nos casos de úlcera gástrica, indicando a possibilidade de
desenvolvimento de um medicamento para a prevenção e tratamento (melhoria,pois a cura é muito difícil).
Para os demais usos não detectamos nenhuma substância ativa”.

Segundo ela própria explica,
Ana Lúcia inicialmente testou um extrato alcoólico feito a partir das cascas da
planta – a mesma parte usada popularmente, porém como chá. Em seguida, ela
fracionou o extrato, testando novamente cada fração até identificar a de melhor
atividade: a dos triterpenóides. “A partir daí, a indicação é de testes
farmacológicos, realizados por outra equipe”, diz. “O extrato não apresentou
nenhum efeito tóxico agudo e inibiu a formação de úlceras gástricas, além de reduzir a
severidade das lesões frente a diversos modelos experimentais, confirmando o
uso popular. Os extratos metanólicos de Qualea parviflora também mostraram
diminuição da motilidade intestinal, ou seja, a análise química justifica o uso
popular contra diarréias”.

A pesquisa
passou, então, para as mãos da bióloga com formação em farmacologia, Patrícia
Mazzolin
, que ainda trabalha com a espécie na Unesp Botucatu. O estudo
de Patrícia já tem 5 anos. “Verificamos a existência de substâncias
antioxidantes no extrato, com possibilidade de uso na prevenção e na proteção
contra úlceras gástricas”, observa a pesquisadora. “E as perspectivas também
são boas no uso contra colite intestinal”.

Patrícia
prossegue com os testes pré-clínicos em laboratório pelo menos até o final deste ano, mas
ainda há um longo caminho a ser percorrido até se obter um
medicamento comercial. E esse teria de ser trilhado por uma indústria
farmacêutica
interessada em tais descobertas e, sobretudo, capaz de investir no
uso racional da biodiversidade brasileira.

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Comentários

08/07/2011 às 16:27 Anonymous - diz:

Pedro Martins de Oliveira Dr – diz:Que bom mais um para minha relação de árvores fundamentais para nossas vidas. Pena é que estão destruindo tudo. Dai a necessidade de campanhas e politicas mais sólidas na preservação destas árvores. Vou iniciar minha luta. Se tiver alguma ONG séria neste sentido conte comigo.034-33137485 Uberaba mg

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BiodiversaLiana John

Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

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