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Pele protegida é com o goiabão Liana John - 13/06/2013 às 16:22

Já vou logo avisando: não é para sair por aí lambuzando o rosto com goiaba pura, suco de goiaba ou goiabada, seja mole, cascão ou peneirada. O efeito não é o mesmo e ainda se corre o risco de atrair por engano algum sabiá distraído. Melhor esperar pela conclusão dos estudos, em estágio avançado na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), campus Araraquara, no interior de São Paulo.

Lá, desde 2008, a biotecnóloga Bruna Galdorfini Chiari trabalha com diferentes extratos de goiaba vermelha (Psidium guajava), avaliando as propriedades antioxidantes de compostos fenólicos para uso em um creme cosmético. Os extratos são produzidos a partir do fruto, depois de retiradas as sementes e processada a polpa. E a variedade de goiaba escolhida é a Paluma, por ser grande, carnuda e plantada em grande escala, no Brasil. Essa variedade foi criada pela Unesp de Jaboticabal, tendo como principais características a safra longa, a polpa firme e o fruto grande: um goiabão de 200 gramas, em média!

A goiaba, como sabemos, ocorre em todo o Brasil e também nos países vizinhos. Teve sua área de distribuição muito ampliada por povos primitivos, sobretudo ao longo dos peabirus, grandes caminhos usados para migrações, movimentações temporárias e troca de mercadorias (inclusive entre incas e indígenas brasileiros), em tempos pré-cabralinos e pré-colombianos.

A árvore original chega a ter seis metros de altura, mas as variedades cultivadas são mantidas mais baixas para facilitar a colheita. Os troncos são flexíveis e resistentes, de casca lisa, sujeita a uma “descamação” natural. Na primavera, as flores brancas enfeitam os ramos, parecendo mini arranjos de noivas e, durante o verão, os frutos fazem a alegria de insetos, aves e mamíferos, dos pequenininhos aos marmanjões. Além de fornecer um alimento rico em vitaminas, a goiabeira ainda tem folhas boas para um chá contra diarreias e inflamações de boca e garganta.

E agora a goiaba pode ganhar mais uma utilidade, como cosmético contra o envelhecimento. “Os flavonoides da goiaba têm ação antioxidante na pele, comprovada in vitro e em experimentos com modelos animais (coelhos). Esses compostos previnem a ação de radicais livres, normalmente associados ao envelhecimento (perda de elasticidade da pele e consequente formação de rugas), à hiperpigmentação (manchas senis) e outros efeitos inestéticos”, detalha a pesquisadora. “Estamos verificando, inclusive, se podem filtrar os raios ultravioleta e prevenir os danos causados pelo excesso de exposição ao sol”.

Para chegar ao extrato certo, Bruna primeiro avaliou diversos processos, tomando o cuidado de extrair os compostos da goiaba com etanol de cana-de-açúcar. “Embora o etanol seja usado apenas em uma etapa do processo e não permaneça na formulação, nós optamos por ele, em lugar de outros químicos, para não colocar em risco os potenciais consumidores desse cosmético”, afirma.

A segunda etapa foi testar diversas concentrações e avaliar seus efeitos. “Essa é uma das principais razões pelas quais não recomendamos o uso da goiaba ao natural: o creme é um concentrado de substâncias ativas e a aplicação do suco ou da polpa, direto na pele, não traria os mesmos resultados”, diz.

A pesquisa conta com a orientação de Vera Isaac e a colaboração de Regina Cicarelli, ambas da Unesp-Araraquara. Começou como trabalho de mestrado de Bruna Chari em Ciências Fermacêuticas, com bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e continua como seu doutorado, com bolsa da Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (Capes). Além disso, também obteve recursos do Programa de Apoio e Desenvolvimento Cientifico (PADC) da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp e material (as goiabas) da indústria alimentícia Predilecta, sediada em São Lourenço do Turvo (SP).

A expectativa da pesquisadora é iniciar os testes clínicos ainda em 2013 para – quem sabe? – colocar um novo cosmético “antivelhice” no mercado dentro de um ou dois anos. Uma coisa é certa: goiabão é que não vai faltar para proteger nossa pele com brasilidade!

Foto: Liana John

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Bom para o paladar, bom para o cérebro Liana John - 07/06/2013 às 16:01

No outono europeu – sobretudo na Itália e na França – os cardápios de restaurantes se enchem de cogumelos frescos, das pequenas setas aos grandes boletos e cantarelos. E sair pelos bosques, de cestinha em punho, para coletar pessoalmente os macrofungos mais apetitosos é uma atividade que mobiliza muita gente, com direito a pacotes turísticos exclusivamente montados com tal finalidade.

Nas matas brasileiras, infelizmente, nem sempre as condições são boas para o crescimento dos fungos carnosos, do tipo que rende uma refeição e não some na panela ao ser refogado. Em geral, faltam sombra e umidade nas doses certas. É por isso que as poucas espécies mais consumidas no país – shitake, shimeji, cogumelo-paris e boletos – são exóticas e cultivadas.

“Temos muitas espécies nativas de fungos, várias comestíveis, mas diferente dos países temperados, poucas delas são carnosas”, explica Marina Capelari, especialista em Micologia do Instituto de Botânica de São Paulo. A grande exceção é o cogumelo-salmão (Pleurotus djamor), comum tanto na Mata Atlântica, como na Amazônia. “A espécie pode ser encontrada nos locais mais úmidos e mais fechados da mata, colonizando troncos recém-cortados ou caídos”, diz.

Marina coletou cogumelos desta espécie nos anos 1990, ali mesmo, no Instituto de Botânica, e nas matas do Jardim Botânico de São Paulo. Trabalhou por algum tempo com a multiplicação para fins de cultivo e chegou a repassar os esporos (“sementes”) para alguns produtores, como Roney Bernardes Rocha, que continuou a domesticar o fungo, conseguindo obter uma variedade mais macia, mais adequada ao consumo.

Instalado no Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais desde 1988, Roney optou pelo cultivo orgânico, utilizando bagaço de cana, farelo de trigo, torta de mamona, calcário, fosfato reativo de Araxá, feno ou capim elefante como substrato (material sobre o qual cresce o fungo). Ele só utiliza águas cristalinas de fonte, pois, conforme explica, “os cogumelos possuem em média 90% de água e, portanto, a qualidade da água utilizada no cultivo é fundamental. A água será absorvida pelos cogumelos e, como se sabe, eles não devem ser lavados antes de utilizados”.

Como as demais espécies comestíveis mais famosas, o cogumelo-salmão tem muita proteína e fibras, sem a desvantagem da gordura presente nas carnes. Também possui vitaminas do complexo B (B1, B2, B3 e B6) e minerais como potássio, magnésio e fósforo, em maior quantidade, além de cálcio e ferro, em concentrações menores. Mas o elemento de maior valor – que confere a esse cogumelo o status de alimento funcional – é a vitamina B9 ou ácido fólico.

Nem sempre devidamente valorizado, o ácido fólico faz parte dos complexos vitamínicos consumidos por gestantes porque é importante para a formação do tubo neural do bebê, a estrutura que dará origem ao cérebro e à medula espinal. É recomendado também para bebês e crianças com síndrome de Down, para ajudar no desenvolvimento do cérebro. E, se consumido regularmente em alimentos ao longo da vida, reduz os riscos do mal de Alzheimer e de hipertensão, derrame e anemias.

Além de tudo, o cogumelo-salmão ainda faz bem ao olhar, com seu rosa-alaranjado vivo, feito de encomenda para enfeitar pratos. Quando cozido, ele desbota, perde toda essa coloração, é verdade. Mas continua muito bom para o paladar e para a saúde!

Fotos: Cogumelos do Caminhante

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Bacupari bom de boca Liana John - 29/05/2013 às 15:13

Nem só de polpas congeladas precisam viver os apreciadores de frutas amazônicas. Algumas frutas in natura têm condições de chegar inteiras, saudáveis e gostosas aos mercados consumidores de outras regiões do país e até do exterior!

Quem garante é a pesquisadora Patrícia Maria Pinto, do Programa de Pós-graduação em Fitotecnia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), em Piracicaba, interior paulista. Sob a orientação de Angelo Pedro Jacomino e com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), ela analisou as características de colheita e armazenamento de três frutas amazônicas muito bem cotadas por seu sabor e alto teor de vitaminas: o abiu (Pouteria caimito), o bacupari (Garcinia gardneriana) e o camu-camu (Myrciaria dubia). E considerou viável esticar para 15 dias o tempo de prateleira se a colheita for feita no momento certo e as frutas forem refrigeradas a 5 grau centígrados (camu-camu) ou a 10 graus centígrados (abiu e bacupari).

Na pesquisa, foram avaliados a coloração das frutas, a firmeza, a perda de massa, o teor de acidez e de sólidos solúveis e a integridade dos pigmentos e das vitaminas, fatores fundamentais para determinar o período de viabilidade de consumo. O abiu e o camu-camu podem ser colhidos “de vez” como bem dizem os caipiras. Ou seja, quando a casca começa a assumir a coloração da fase madura: entre o verde e o amarelo para o abiu e entre o verde e o roxo para o camu-camu. Já o bacupari precisa estar maduro mesmo, com a casca totalmente amarelo-ouro.

A intenção de Patrícia foi mostrar aos produtores as técnicas adequadas para assegurar a boa vida pós-colheita e assim abrir os mercados do Centro-Sul a essas frutas da floresta, que também podem ser plantadas em outras regiões. O mesmo tipo de estudo deve ser realizado com outras espécies amazônicas atualmente distribuídas apenas como polpa congelada ou em produtos industrializados, como o açaí ou o cupuaçu.
A possibilidade de incentivar o plantio e incrementar a comercialização dessas frutas in natura, conforme indica a pesquisa da Esalq, é duplamente interessante no caso do bacupari, cujas casca e sementes têm propriedades bactericidas contra os agentes causadores de doenças da boca.

O extrato da casca de bacupari tem uma substância chamada 7-epiclusianona, considerada tão potente quanto a clorexidina – o antibiótico mais usado em Odontologia – com as vantagens de não escurecer os dentes, não ter cheiro e nem gosto ruim. A pesquisa sobre esta atividade bactericida foi realizada pela equipe de Marcelo dos Santos, da Universidade Federal de Alfenas, de Minas Gerais, com a participação da Esalq-USP e de dentistas da Faculdade de Odontologia de Piracicaba da Universidade Estadual de Campinas (FOP-Unicamp). Eles concluíram que o extrato do bacupari pode ser usado em enxaguadores bucais com ação contra placas bacterianas, cáries, aftas e problemas das gengivas.

Lá na Amazônia, o bacupari cresce nas florestas de terra firme, enquanto no Cerrado aparece com mais frequência nas matas de galeria e, no Pantanal, nas bordas de mata. Para algumas etnias indígenas, a árvore de ramos horizontais serve para delimitar as roças, o que explica o nome, em tupi guarani, cujo significado é fruto de cerca.
Se for plantada em escala, em outras regiões do Brasil, essa fruta poderá cercar muito mais do que roças. Poderá limitar nossa sede com o sabor refrescante de um bom suco natural e ainda sitiar as bactérias bucais. Sem contar o cerco ao calor: quando sombreada, na mata, a árvore de bacupari atinge em média quatro metros de altura, mas quando plantada ao sol pode superar os 15 metros, formando uma bela copa bem fechada.
E então o que falta para bacuparizar nossos quintais?

Foto: Liana John

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Biodiversa

LIANA JOHN

é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

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