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Bom para o paladar, bom para o cérebro Liana John - 07/06/2013 às 16:01

No outono europeu – sobretudo na Itália e na França – os cardápios de restaurantes se enchem de cogumelos frescos, das pequenas setas aos grandes boletos e cantarelos. E sair pelos bosques, de cestinha em punho, para coletar pessoalmente os macrofungos mais apetitosos é uma atividade que mobiliza muita gente, com direito a pacotes turísticos exclusivamente montados com tal finalidade.

Nas matas brasileiras, infelizmente, nem sempre as condições são boas para o crescimento dos fungos carnosos, do tipo que rende uma refeição e não some na panela ao ser refogado. Em geral, faltam sombra e umidade nas doses certas. É por isso que as poucas espécies mais consumidas no país – shitake, shimeji, cogumelo-paris e boletos – são exóticas e cultivadas.

“Temos muitas espécies nativas de fungos, várias comestíveis, mas diferente dos países temperados, poucas delas são carnosas”, explica Marina Capelari, especialista em Micologia do Instituto de Botânica de São Paulo. A grande exceção é o cogumelo-salmão (Pleurotus djamor), comum tanto na Mata Atlântica, como na Amazônia. “A espécie pode ser encontrada nos locais mais úmidos e mais fechados da mata, colonizando troncos recém-cortados ou caídos”, diz.

Marina coletou cogumelos desta espécie nos anos 1990, ali mesmo, no Instituto de Botânica, e nas matas do Jardim Botânico de São Paulo. Trabalhou por algum tempo com a multiplicação para fins de cultivo e chegou a repassar os esporos (“sementes”) para alguns produtores, como Roney Bernardes Rocha, que continuou a domesticar o fungo, conseguindo obter uma variedade mais macia, mais adequada ao consumo.

Instalado no Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais desde 1988, Roney optou pelo cultivo orgânico, utilizando bagaço de cana, farelo de trigo, torta de mamona, calcário, fosfato reativo de Araxá, feno ou capim elefante como substrato (material sobre o qual cresce o fungo). Ele só utiliza águas cristalinas de fonte, pois, conforme explica, “os cogumelos possuem em média 90% de água e, portanto, a qualidade da água utilizada no cultivo é fundamental. A água será absorvida pelos cogumelos e, como se sabe, eles não devem ser lavados antes de utilizados”.

Como as demais espécies comestíveis mais famosas, o cogumelo-salmão tem muita proteína e fibras, sem a desvantagem da gordura presente nas carnes. Também possui vitaminas do complexo B (B1, B2, B3 e B6) e minerais como potássio, magnésio e fósforo, em maior quantidade, além de cálcio e ferro, em concentrações menores. Mas o elemento de maior valor – que confere a esse cogumelo o status de alimento funcional – é a vitamina B9 ou ácido fólico.

Nem sempre devidamente valorizado, o ácido fólico faz parte dos complexos vitamínicos consumidos por gestantes porque é importante para a formação do tubo neural do bebê, a estrutura que dará origem ao cérebro e à medula espinal. É recomendado também para bebês e crianças com síndrome de Down, para ajudar no desenvolvimento do cérebro. E, se consumido regularmente em alimentos ao longo da vida, reduz os riscos do mal de Alzheimer e de hipertensão, derrame e anemias.

Além de tudo, o cogumelo-salmão ainda faz bem ao olhar, com seu rosa-alaranjado vivo, feito de encomenda para enfeitar pratos. Quando cozido, ele desbota, perde toda essa coloração, é verdade. Mas continua muito bom para o paladar e para a saúde!

Fotos: Cogumelos do Caminhante

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Bacupari bom de boca Liana John - 29/05/2013 às 15:13

Nem só de polpas congeladas precisam viver os apreciadores de frutas amazônicas. Algumas frutas in natura têm condições de chegar inteiras, saudáveis e gostosas aos mercados consumidores de outras regiões do país e até do exterior!

Quem garante é a pesquisadora Patrícia Maria Pinto, do Programa de Pós-graduação em Fitotecnia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), em Piracicaba, interior paulista. Sob a orientação de Angelo Pedro Jacomino e com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), ela analisou as características de colheita e armazenamento de três frutas amazônicas muito bem cotadas por seu sabor e alto teor de vitaminas: o abiu (Pouteria caimito), o bacupari (Garcinia gardneriana) e o camu-camu (Myrciaria dubia). E considerou viável esticar para 15 dias o tempo de prateleira se a colheita for feita no momento certo e as frutas forem refrigeradas a 5 grau centígrados (camu-camu) ou a 10 graus centígrados (abiu e bacupari).

Na pesquisa, foram avaliados a coloração das frutas, a firmeza, a perda de massa, o teor de acidez e de sólidos solúveis e a integridade dos pigmentos e das vitaminas, fatores fundamentais para determinar o período de viabilidade de consumo. O abiu e o camu-camu podem ser colhidos “de vez” como bem dizem os caipiras. Ou seja, quando a casca começa a assumir a coloração da fase madura: entre o verde e o amarelo para o abiu e entre o verde e o roxo para o camu-camu. Já o bacupari precisa estar maduro mesmo, com a casca totalmente amarelo-ouro.

A intenção de Patrícia foi mostrar aos produtores as técnicas adequadas para assegurar a boa vida pós-colheita e assim abrir os mercados do Centro-Sul a essas frutas da floresta, que também podem ser plantadas em outras regiões. O mesmo tipo de estudo deve ser realizado com outras espécies amazônicas atualmente distribuídas apenas como polpa congelada ou em produtos industrializados, como o açaí ou o cupuaçu.
A possibilidade de incentivar o plantio e incrementar a comercialização dessas frutas in natura, conforme indica a pesquisa da Esalq, é duplamente interessante no caso do bacupari, cujas casca e sementes têm propriedades bactericidas contra os agentes causadores de doenças da boca.

O extrato da casca de bacupari tem uma substância chamada 7-epiclusianona, considerada tão potente quanto a clorexidina – o antibiótico mais usado em Odontologia – com as vantagens de não escurecer os dentes, não ter cheiro e nem gosto ruim. A pesquisa sobre esta atividade bactericida foi realizada pela equipe de Marcelo dos Santos, da Universidade Federal de Alfenas, de Minas Gerais, com a participação da Esalq-USP e de dentistas da Faculdade de Odontologia de Piracicaba da Universidade Estadual de Campinas (FOP-Unicamp). Eles concluíram que o extrato do bacupari pode ser usado em enxaguadores bucais com ação contra placas bacterianas, cáries, aftas e problemas das gengivas.

Lá na Amazônia, o bacupari cresce nas florestas de terra firme, enquanto no Cerrado aparece com mais frequência nas matas de galeria e, no Pantanal, nas bordas de mata. Para algumas etnias indígenas, a árvore de ramos horizontais serve para delimitar as roças, o que explica o nome, em tupi guarani, cujo significado é fruto de cerca.
Se for plantada em escala, em outras regiões do Brasil, essa fruta poderá cercar muito mais do que roças. Poderá limitar nossa sede com o sabor refrescante de um bom suco natural e ainda sitiar as bactérias bucais. Sem contar o cerco ao calor: quando sombreada, na mata, a árvore de bacupari atinge em média quatro metros de altura, mas quando plantada ao sol pode superar os 15 metros, formando uma bela copa bem fechada.
E então o que falta para bacuparizar nossos quintais?

Foto: Liana John

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Do toco oco sai de tudo um pouco Liana John - 23/05/2013 às 22:50

Na Floresta Amazônica, como em outras matas tropicais, é grande o número de árvores com ocos. Alguns buracos foram feitos para funcionar como ninhos, pacientemente abertos por pica-paus e alargados por araras e papagaios, para depois ganharem inquilinos diversos, de abelhas a mamíferos. Outros buracos decorrem da ação de cupins, besouros, brocas e demais insetos furadores, depois aprofundados por fungos variados. E existem ainda os ocos naturais associados à genética de certas árvores.

Seja qual for a origem dos ocos, o fato é que sua existência fragiliza as árvores e elas tendem a cair ou quebrar mais facilmente com as ventanias. E quando, por engano ou inexperiência do madeireiro, essas árvores vão parar nas serrarias, acabam encostadas num canto, desprezadas por não fornecerem tábuas de bom tamanho.

Conhecedora da boa qualidade dessas espécies amazônicas, apesar de caídas ou desprezadas, a tecnóloga em madeira com mestrado e doutorado em Ciências Florestais, Claudete Catanhede do Nascimento, montou um projeto de aproveitamento, com viés ambiental, social e cultural. O projeto Instrumento musical com madeiras da Amazônia: Ukulele é desenvolvido pelos laboratórios de Engenharia de Artefatos de Madeira (LEAM) e Manejo Florestal do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), em parceira com o luthier Gean dos Santos Dantas, da empresa Puroamazonas. Os recursos são do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Madeiras da Amazônia, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM).

De início, Claudete percorre as escolas de um município e seleciona os interessados em trabalhar com madeiras caídas entre os adolescentes de 13 a 17 anos com notas boas. Em Manacapuru, cuja sede fica a 90 km de Manaus, o trabalho começou há um ano e meio e envolve 17 alunos de escolas públicas, municipais e estaduais. Em Iranduba, a 40 km da capital amazonense, o projeto é mais recente e envolve 13 alunos de três escolas. Todos os participantes recebem bolsa de Iniciação Científica do CNPq, no valor de R$ 100,00 mensais.

A garotada tem aulas teóricas e oficinas práticas para aprender a reconhecer e trabalhar os pedaços aproveitáveis de quatro espécies de madeira e, então, com a ajuda do luthier Gean Dantas, fabricam o ukulele, um violãozinho valente de quatro cordas, muito popular no Havaí e nos Estados Unidos. Da madeira do marupá (Simarouba amara), eles fazem o tampo; do louro preto (Ocotea neesiana) saem o fundo e a lateral; com o morototó (Schefflera morototoni) firmam o braço e no piquiá marfim (Aspidosperma album) montam a escala.

“Escolhemos o ukulele porque ele pode ter vários tamanhos e as especificações de corte são menos exigentes. Por exemplo, não é preciso fazer um corte radial, como o violão, é mais simples de fazer”, explica a pesquisadora do INPA. Por ser pequeno e com partes de madeiras diferentes, o instrumento também permite usar pedaços de troncos que não teriam serventia de outra forma. Como as madeiras de boa qualidade entre um oco aqui e outro ali.

Para se arriscar na arte, os alunos precisam demonstrar habilidade. “Também devem gostar de música e ter tempo disponível para o projeto. Fazemos questão de insistir na formação científica, na capacitação. Eles aprendem a fazer um diagnóstico do estado da madeira encontrada, a valorizar as espécies florestais da Amazônia, a aplicar a metodologia do desenvolvimento de pesquisa e da construção de instrumento musical de corda”, completa a especialista.

Os estudantes vão à floresta para recolher pedaços de troncos caídos, percorrem pátios de serrarias atrás de madeiras rejeitadas por terem ocos e usam ainda madeira de demolição. “A madeira de demolição é a que tem o som melhor: está completamente seca e geralmente tem mais de 50 anos”, observa Claudete Catanhede. “As madeiras recolhidas na mata ou provenientes das serrarias seguem para as estufas de secagem do nosso laboratório, em Manaus. Temos uma estufa convencional e uma estufa solar, desenvolvida ali mesmo no INPA”.

Ao terminar seu trabalho, o aluno faz uma dissertação para validação de sua pesquisa e se apresenta tocando o instrumento que fabricou. Os estudantes de Manacapuru também têm feito palestras (com música) em outras escolas, contando sua experiência e multiplicando o interesse entre os jovens de sua idade. E os 15 entre eles com maior talento para o palco agora passam os sábados e domingos em oficinas de música oferecidas pelo maestro Davi Nunes e outros professores da Orquestra de Violões do Teatro Amazonas. Os meninos se preparam para tocar com a orquestra no dia 20 de outubro deste ano, com os seus ukuleles, no grande teatro de Manaus. No repertório, além de música clássica, executarão toadas de ciranda típicas de Manacapuru!

Ukulele, por sinal, é uma expressão havaiana, que pode ser traduzida como “pulga saltitante ou saltadora”. O instrumento, na verdade, é uma fusão de dois outros originários da Ilha da Madeira, levados para o Havaí por madeirenses plantadores de cana-de-açúcar, no Século XIX. Lá acabou recriado e renomeado. E agora promete garantir a trilha sonora de uma nova história de sustentabilidade e arte, no interior do Amazonas.

Foto: Projeto Ukulele/INPA

 

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Biodiversa

LIANA JOHN

é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

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