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Todo charme dos painéis de fibras naturais Liana John - 06/12/2012 às 18:41

As numerosas vantagens ambientais e econômicas dos aglomerados nos ensinaram a ver graça nas siglas MDF e MDP. O significado delas, respectivamente, é Medium Density Fiberboard (painel de fibras de média densidade) e Medium Density Particleboard (painel de partículas de média densidade). Ambas substituem a madeira maciça, sobretudo na fabricação de móveis e divisórias, reduzindo a pressão de desmatamento em  nossas florestas naturais.

Ainda assim, a principal matéria prima desses aglomerados é madeira: fibras ou partículas de eucaliptos e pinheiros de reflorestamento. E no processo de produção há risco de intoxicação dos trabalhadores, pelo formol liberado durante o uso de uma resina derivada do petróleo, um formaldeído.

Para substituir a madeira e a resina tóxica, o pesquisador Juliano Fiorelli iniciou o estudo de alternativas na Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da Universidade de São Paulo (FZEA/USP), campus de Pirassununga. Engenheiro civil com mestrado e doutorado em Ciências e Engenharia de Materiais, ele trabalha na criação e avaliação de painéis de partículas de fibras naturais agregadas com uma resina poliuretana à base de óleo de mamona.

Desde 2009, ele testou e desenvolveu diversas alternativas de painéis, incluindo alguns de grande qualidade estética. Entre as fibras pesquisadas estão cascas de amendoim (Arachis hypogaea), uma planta cuja origem brasileira raramente lembramos: nativa da bacia dos rios Paraná e Paraguai, a espécie foi distribuída pelo mundo pelos portugueses, ainda no tempo das grandes navegações e hoje é a base da alimentação de muitas comunidades da África e da Ásia.

Também foram usados outros resíduos agrícolas abundantes no Brasil, como bagaço de cana-de-açúcar, fibras de sisal e fibras de casca de coco verde. E há alguns meses teve início a segunda fase do projeto de pesquisa, utilizando fibras da Amazônia, como juta, curauá e bambus nativos, com a mesma resina à base de óleo de mamona.

“As principais vantagens desses painéis são: agregar valor e dar utilidade aos resíduos agrícolas; substituir os painéis de madeira e substituir a resina de base petróleo por uma resina de fonte renovável e sem a toxicidade do formol”, observa Juliano Fiorelli. Ele não pretende depositar patente e, sim, trabalhar com a transferência de tecnologia para a indústria, de modo a disseminar o conhecimento gerado e fazer os produtos chegarem logo ao mercado.

A equipe dedicada a esta pesquisa, coordenada por Juliano Fiorelli, é composta por três alunos de Iniciação Científica, dois mestrandos, dois doutorando e dois pós-doutorandos. Algumas fases do projeto de pesquisa são feitas em parceria com a Escola de Engenharia da USP, em São Carlos, e a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), também da USP, em Piracicaba. Os recursos vêm principalmente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (Capes) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

O pesquisador adverte para o fato de os painéis de partículas de fibras naturais se destinarem a usos internos, sem exposição ao tempo, pois eles não resistem ao excesso de umidade. “E ainda estamos tentando resolver tecnicamente a suscetibilidade dos painéis de cascas de amendoim a insetos”, adverte o engenheiro de materiais. “Mas a eficiência do polímero feito com coco verde e e a do bagaço de cana têm durabilidade igual aos agregados de madeira”.

Sem problemas, já aprendemos que móveis de MDP e MDF também não podem pegar umidade direta. O charme deles está nos quesitos sustentabilidade e preço. E, pelo jeito, os novos painéis de fibras naturais devem ter notas mais altas nos mesmos itens, acrescidas do caráter renovável e não poluente de seus componentes naturais. Impossível resistir!

Fotos: Juliano Fiorelli/USP (ao alto, da esq. para a dir.: cascas de amendoim, bagaço de cana e fibras de coco verde e, acima, amostras dos painéis)

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Pequi, o protetor dos atletas Liana John - 29/11/2012 às 19:20

Fazer exercícios é bom, mas exagerar na dose é perigoso. A virtude está no meio, conforme repetem, há milênios, os discípulos de Aristóteles, Buda e Confúcio.

Quando os músculos entram em funcionamento, o organismo tende a canalizar mais oxigênio para eles e menos para os órgãos. Depois, ao longo do exercício, alternam-se momentos com excesso e escassez de oxigênio. A respiração acelera o processo de oxidação e aumenta a produção de radicais livres. Novamente o organismo contrabalança, liberando mais enzimas e substâncias antioxidantes para neutralizar os radicais livres.

Todo esse vai e volta é para restabelecer o equilíbrio. Se o exercício é muito prolongado ou o nível de exigência é muito alto, porém, o organismo não dá conta de garantir a normalização. Aí ocorre o estresse oxidativo, com potencial para causar danos nos componentes das células, incluindo proteínas e até o DNA do indivíduo. Por essa razão, esportistas de alto desempenho devem tomar suplementos antioxidantes e assim proteger, em especial, o coração, os pulmões e o fígado.

Ocorre que parte da resposta ao exercício – a produção das enzimas antioxidantes – é determinada geneticamente, ou seja, difere de pessoa para pessoa. “Devido à nossa diversidade genética é difícil determinar o que é exercício demais para cada indivíduo ou qual a dose ideal de suplementos antioxidantes, pois eliminar todos os radicais livres também não é bom, uma vez que os músculos precisam deles como sinalização para funcionar direito”, explica a bióloga especializada em Genética Humana, Ana Luisa Miranda-Vilela, da Universidade de Brasília (UnB).

A busca por substâncias mais seguras levou ao estudo de alimentos com propriedades antioxidantes para substituir s suplementos sintetizados em laboratório. Aqui entra na história o pequi (Caryocar brasiliense), fruto típico do Cerrado brasileiro, ingrediente obrigatório nas mesas tradicionais de goianos.

“O pequi é rico vitamina E e em carotenoides, que são eficientes para proteger coração e fígado em situações de baixa oxigenação, quando vai tudo para os músculos”, diz Ana Luisa. “Também é rico em vitamina C, que protege o pulmão em caso de esgotamento, quando é comum baixar a imunidade e abrir caminho para gripes e doenças respiratórias”.

Sob a orientação de Cesar Koppe Grisolia, também da UnB, a pesquisadora desenvolveu seu doutorado sobre o efeito antioxidante do óleo de pequi, realizando primeiro testes de toxicologia em camundongos e, depois, exames de sangue em atletas, antes e depois de corridas, primeiro sem nenhuma suplementação e em seguida a 14 dias de suplementação com cápsulas de óleo de pequi. A pesquisa durou quatro anos, com bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) no último ano. Rendeu uma patente e está em fase de transferência de tecnologia e registro na Anvisa para gerar um produto comercial.

“O óleo de pequi, além de possuir várias propriedades nutricionais, apresentou efeitos antioxidantes e cardiovasculares protetores”, diz a conclusão da tese de Ana Luisa. Juntamente com Cesar Grisolia, a autora continua a trabalhar com o pequi, investigando agora o potencial como adjuvante na quimioterapia do câncer. E mais duas mestrandas também se debruçam sobre a fruta verde-amarela (casca verde e polpa amarela): Mariana Matos Roll e Ieler Ferreira Ribeiro.

Nossa torcida é para tudo andar em e rápido, pois 2014 e 2016 estão aí na porta e nossos atletas precisam mesmo de um bravo fruto do Cerrado para proteger seus corações!

Fotos: Fernando Cunha/Wikipedia Commons (ao alto) e Silvestre Silva (acima)

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Do lixo para o Spa Liana John - 22/11/2012 às 13:23

O maracujá (Passiflora spp) é mesmo um curinga da boa saúde: já tratamos aqui no Biodiversa das propriedades do bagaço contra o diabetes e do potencial do alcaloide harmina para o controle de jet lag. E todo mundo conhece as vantagens extraídas da polpa: betacaroteno, vitaminas do complexo B, cálcio, ferro, fósforo e a tal maracujina (passiflorina para os cientistas), boa para acalmar de bebês a marmanjões estressados, sem causar dependência como os sedativos químicos.

Pois ainda tem mais: das sementes se extrai um óleo emoliente, hidratante, restaurador das camadas lipídicas da pele e relaxante (as sementes também contém passiflorina). A caracterização desse óleo foi feita por duas doutorandas da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), Eliana Monteiro Soares de Oliveira e Suelen de Alvarenga Regis, sob orientação de Eder Dutra de Resende, do Laboratório de Tecnologia de Alimentos (LTA/UENF).

O projeto ganhou uma dimensão prática por meio de parceria com o agrônomo e doutor em Tecnologia de Alimentos, Sergio Agostinho Cenci, da Embrapa Agroindústria de Alimentos. Ele coordena o Arranjo Produtivo Local do Maracujá, com o objetivo de reorganizar a produção da fruta no estado do Rio de Janeiro, difundindo inovações tecnológicas entre os produtores. Com isso, eles conseguem reduzir custos na lavoura; adotar variedades melhoradas; aproveitar integralmente o fruto e proteger o meio ambiente.

A utilização de sementes para produção de óleo entra nas duas últimas categorias. Consideradas resíduo pelas indústrias de sucos e sorvetes, as sementes eram descartadas no ambiente. Não são mais: agora elas garantem renda extra para os produtores e são transformadas no sofisticado óleo de maracujá para fins cosméticos pela Extrair – Óleos Naturais.

A empresa se instalou em Bom Jesus de Itabapoana, RJ, com apoio técnico da Embrapa e da equipe da UENF, mais um investimento inicial da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj), da ordem de R$ 200 mil. “A comercialização do óleo só teve início em janeiro de 2011, mas estamos montando o projeto desde 2008, atrás do melhor equipamento, melhor processo”, conta o diretor da Extrair, o engenheiro agrônomo Sandro Reis. “Precisamos desenvolver e ajustar as máquinas para separar as sementes, que são coletadas sujas nas áreas de produção e aqui passam por um processo inédito de limpeza. Ainda adaptamos a máquina de extração e filtragem do óleo, totalmente mecânica e sem químicos. É difícil achar uma empresa parecida no Brasil”.

Também não é fácil encontrar um arranjo tão bem azeitado – se me perdoam o trocadilho. Tanto é que essa turma já foi premiada três vezes no último ano. Eles ganharam o Prêmio Brasil de Engenharia, o Prêmio Peter Muranyi e o Prêmio SESI de Qualidade do Trabalho – Etapa Regional. Apesar da ‘fama’, eles não perderam a conexão com os agricultores para quem repassam as dicas técnicas por meio de “Dias de Campo” como o que acontece no próximo 29 de novembro, organizado por Sérgio Cenci (cenci@ctaa.embrapa.br).

A capacidade instalada ainda está um pouco ociosa, é verdade. As máquinas poderiam processar 200 quilos de sementes por hora, mas nem sempre há tanta matéria prima disponível. A safra do maracujá no norte fluminense começa em novembro e dura até março/abril. “Nos outros meses, garantimos nossa produção graças ao armazenamento das sementes, que passam pelo processo de limpeza e secagem antes de serem estocadas em silos”, acrescenta o agrônomo-empresário.

Além de fornecer para todo o Brasil, Reis já exporta para os Estados Unidos, França e Colômbia. Com esse óleo de aroma suave e propriedades relaxantes, as indústrias de cosméticos fabricam desodorantes corporais, cremes para a pele de gestantes e bebês, óleos de massagem, entre outros produtos.

Então, cabe ou não cabe um Spa dentro dessa fruta curinga?

FOTOS: Liana John (ao alto, sementes de maracujá)

             Sandro Reis (acima, máquina de filtragem do óleo de semente de maracujá)

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LIANA JOHN

é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

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