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Uma microalga para dois macrodesejos: emagrecer e não envelhecer Liana John - 08/11/2012 às 18:58

Orientais, vegetarianos e veganos já conhecem um suplemento alimentar, em cápsulas ou farinha, chamado espirulina (ou Spirulina). Trata-se de uma alga microscópica verde-azulada, rica em proteínas e micronutrientes, que compensa a falta de carne na dieta, reduz a fome de gorduras e combate os radicais livres. Ou seja: ajuda a emagrecer e retarda o envelhecimento.

As microalgas que deram origem à produção da espirulina hoje disponível no mercado mundial vieram de lagoas mexicanas ou africanas. O que pouquíssima gente sabe é que – yes – nós temos nossa própria espirulina. Quem a descobriu na Lagoa Mangueira foi o engenheiro de alimentos Jorge Alberto Vieira Costa, coordenador da Engenharia Bioquímica da Universidade Federal do Rio Grande (FURG).

A Lagoa Mangueira fica no Rio Grande do Sul, entre a Lagoa Mirim e o Oceano Atlântico, numa estreita faixa de planície litorânea. Tem 110 quilômetros de extensão, bem perto da fronteira com o Uruguai. “Num passado distante, a lagoa tinha conexão com o mar, mas depois que a Terra esfriou e o mar recuou, a conexão deixou de existir. Muitas conchas e animais marinhos foram parar no fundo, acumulando carbonatos e bicarbonatos. Por esta razão, a lagoa hoje tem um pH bem alcalino, acima de 9, e sabemos que este é um ambiente propício para o crescimento de microalgas com uso ambiental, alimentar e medicinal”, explica Jorge Costa.

Ele colheu amostras e, de fato, isolou uma subespécie brasileira da microalga mais consumida no Planeta: Spirulina platensis. Aí teve início uma série de projetos de pesquisa, mestrados e doutorados, que já dura 13 anos, com recursos da FURG e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

“A espirulina tem uma grande quantidade de proteína, entre 50 e 60%, e diversas vitaminas e sais minerais importantes”, resume o pesquisador. “Além disso, é um antioxidante natural e tem atividade contra tumores e problemas do esôfago, conforme verificado em experimentos com modelos celulares”.

A microalga ainda é uma boa fonte de vitamina B12, fundamental na fabricação de glóbulos vermelhos (de onde o interesse dos vegetarianos e veganos). Todas estas vantagens não podiam ficar restritas ao laboratório, gerando apenas bons artigos científicos. Era preciso compartilhar com o público, razão pela qual Jorge Costa comemora a produção comercial de espirulina por uma empresa gaúcha, com apoio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e do Governo Estadual.

A nova empresa – Olson Nutracêuticos – já está instalada há um ano em Camaquã, a 135 km de Porto Alegre, e começa a comercializar a primeira espirulina brasileira em janeiro de 2013, via internet e por meio de uma rede de respresentantes, em todo o Brasil.

“A colheita é feita a cada três meses e esperamos produzir cerca de 500 kg por mês, inicialmente como farinha e em cápsulas, sendo que as cápsulas também são de origem vegetal (agar-agar)”, conta Adriana Olson, proprietária da empresa. Ela já trabalha há muitos anos na produção de plantas ornamentais, especiarias e ervas para temperos e chás. Para as microalgas, construiu uma estufa bem isolada, com 5 tanques de 50 mil litros, e precisou desenvolver máquinas apropriadas para agitar a água e para colher a espirulina automaticamente, passando em seguida por um filtro-prensa.

“Aqui nada é manual e tudo é orgânico, desde a estufa até o jardim em volta e mesmo o escritório. Já temos as licenças da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA)”, comenta Adriana. “Agora estamos providenciando o registro no Instituto Biodinâmico (IBD), que faz a certificação orgânica. Estamos tomando todos os cuidados na produção de um alimento que eu mesma vou consumir com muita segurança”.

E, só para arrematar, o pesquisador Jorge Costa lembra que, ao adotar a nossa espirulina como base para sua produção, Adriana Olson não está introduzindo um organismo exótico, mas trabalhando com uma espécie nativa. “A globalização biológica não funciona, o ideal é aproveitar espécies nativas”, diz. Tem razão, especialmente no universo de seres tão minúsculos, com potencial para se transformarem em invasores quase invisíveis.

Fotos: Adriana Olson (farinha de espirulina, ao alto, tanques para produção comercial das microalgas, acima)

 

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Para curtir sem poluir Liana John - 01/11/2012 às 10:00

O curtimento de “uma tonelada de peles salgadas produz de 200 a 250 quilos de couro acabado e 600 kg de resíduos sólidos”. É o que nos conta a bióloga e doutora em gestão ambiental Roseli Senna Ganem, da Universidade de Brasília (UnB), em um estudo realizado para a Câmara dos Deputados. Os curtumes também consomem grande quantidade de água e de produtos químicos, entre os quais se destacam: “o sal comum (na fase de conservação das peles), a soda cáustica, diversos ácidos, fungicidas (altamente tóxicos para o homem e o meio ambiente), solventes, cromo e outros metais (no curtimento mineral), taninos (no curtimento vegetal), sais diversos, corantes, óleos e resinas (no acabamento)”.

Eliminar todos os químicos do processo ainda não é possível, mas a opção pelos taninos vegetais pode reduzir os poluentes mais perigosos. O principal é o cromo que, no ambiente, contamina tanto águas superficiais como o lençol freático e, no organismo humano, interfere no metabolismo do açúcar, afeta o coração e é associado a alguns tipos de câncer (cromo hexavalente).

O cromo é um mineral tanante, ou seja, desempenha a mesma função dos taninos vegetais, presentes nas cascas de diversas árvores: protege o couro contra os fungos e as bactérias do apodrecimento. As duas grandes vantagens do cromo são o preço e a ligação química que ele estabelece com as proteínas do couro, conferindo mais durabilidade ao curtimento.

Quando se pesa o risco de contaminação e o custo do tratamento de efluentes ou mesmo da recuperação do cromo para reuso, porém, as vantagens não são assim tão grandes. Sobretudo quando a comparação é feita com as árvores campeãs em taninos, como a acácia negra (Acacia meamsii), originária da Austrália e plantada no Rio Grande do Sul para abastecer os curtumes. E várias espécies nativas da Caatinga, do Cerrado e do Pantanal, como os angicos (gênero Anandenanthera), o açoita-cavalo (Luehea divaricata), o barbatimão (Striphnodendron barbatiman) e as juremas preta (Mimosa hostilis) e branca (gênero Piptadenia).

“No Pantanal, os peões que ainda se interessam em trabalhar o couro preferem o angico e o açoita-cavalo, duas espécies abundantes, fáceis de encontrar”, observa o ecólogo e doutor em Zootecnia, Manuel Antonio Chagas Jacinto, pioneiro na pesquisa do curtimento do couro que atualmente trabalha na Embrapa Pecuária do Sudeste, em São Carlos (SP). “Mas na Caatinga também há boas opções, de árvores com alto teor de taninos, com as quais se obtêm resultados equivalentes aos do curtimento industrial, como é o caso da jurema-preta”.

O pesquisador já trabalhou na Embrapa Pantanal, onde ainda orienta o mestrado de Alexandra Rocha de Oliveira, além de percorrer diversas localidades onde se mantém a tradição do trabalho com o couro, realizando cursos de curtimento com forte apelo ambiental. Neste início de novembro, por exemplo, estará em Morada Nova, no Ceará, demonstrando as vantagens do tanino vegetal no tratamento de peles de ovelhas deslanadas de raça brasileira.

“O tratamento com os taninos vegetais serve para couros de bovinos, ovinos ou caprinos; promove a valorização da mão de obra local e abre um leque de possibilidades para agregar valor aos produtos de couro”, comenta Manuel Jacinto. Por isso ele mantém uma parceria com um trançador muito hábil – Alfred Werner Loosli – que complementa seus cursos ensinando o que fazer com o couro após o curtimento natural.

“Tudo o que tem interesse econômico acaba vingando”, acredita o especialista. “Se a árvore interessa, porque tem tanino e é utilizada, eles vão cuidar”. Pelo sim, pelo não, os cursos incluem recomendações quanto à porcentagem de casca que pode ser retirada de cada árvore para não comprometer seu crescimento e quanto aos cuidados para garantir a cicatrização em cerca de seis meses (para nova utilização após um ano). Dependendo do tamanho da árvore, Manuel Jacinto indica a cobertura do tronco exposto com barro ou mesmo a alternativa de fazer um desbaste e utilizar as cascas dos galhos podados. “Os galhos têm menos tanino, mas a árvore se recupera mais rápido”, diz.

Quanto às outras etapas do processo de curtimento do couro, já existem tecnologias e procedimentos para o combate à poluição e para a economia da água e energia consumidas, assim como para a disposição e tratamento dos efluentes líquidos e resíduos sólidos. Destacam-se o reuso da água e os circuitos fechados – para evitar a descarga de efluentes no meio ambiente. “Aqui no laboratório da Embrapa não temos encanamentos de saída: nem esgoto nem fossa séptica”, explica Manuel Jacinto. “Todo efluente vai direto para umas barricas de onde segue para os decantadores e entra no processo de reuso”.

Como se vê, com atenção e opções corretas é possível até curtir (couros) sem poluir!

Fotos: Liana John (cascas de angico, no alto, e, acima, couro de boi salgado, secando ao sol na Baía das Pedras, no Pantanal)

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O fim (da picada) está próximo! Liana John - 25/10/2012 às 15:25

Praias, cachoeiras e rios maravilhosos do nosso Brasil – como bem sabemos – são povoados por um mosquitinho pequenininho, porém notável. Suas picadas nos atingem nas dobras mais inconvenientes do corpo e produzem bolotas vermelhas com um pontinho de sangue no meio, de gosto estético muito duvidoso e efeito-coceira prolongado.

Sim, estamos falando dos borrachudos ou piuns ou, como preferem os cientistas, de dípteros da família Simuliidae representados por algo entre 40 e 50 espécies em todo o território nacional.

Como no caso dos pernilongos, apenas as fêmeas “borrachudas” picam, aparentemente só após a cópula. Em seguida, elas põem os ovos em folhas, galhos ou raízes, junto de águas correntes. As larvas têm vida aquática, permanecendo presas à vegetação por meio de ventosas e fios de seda. Esta é a fase em que os borrachudos são mais sensíveis, ideal para o controle.

Durante muitos anos, esse controle foi feito com o chamado “fumacê”: um veículo que percorria as ruas de casas de praia e vilas localizadas na beira de rios, soltando uma fumaça espessa – e tóxica – de DDT. Depois vieram os inseticidas químicos aplicados na água, onde ficam as larvas, ainda muito poluentes, com grande impacto sobre toda a fauna aquática e na cadeia alimentar. E há quem recorra, ainda, ao óleo queimado, despejado sem dó na água, onde seus efeitos negativos persistem por muitos e muitos anos.

A boa notícia é que já existem inseticidas biológicos para substituir os químicos de alto impacto. Um deles, chamado com justiça de Fim da Picada, foi desenvolvido graças a uma parceria entre pesquisadores da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia e da empresa Bthek Biotecnologia, com sede no Distrito Federal.

Conforme explica a bióloga e doutora em Agronomia, Rose Gomes Monnerat, da Embrapa, a vantagem do bioinseticida é o fato de ele ser muito específico contra as larvas de borrachudo, sem impactos para os outros seres aquáticos ou para o homem. O produto é aplicado na água e o que mata a praga é uma toxina apelidada de Cri (de cristal) produzida pela bactéria Bacillus thuringiensis.

Bacillus thuringiensis tem ação conhecida contra diversas pragas agrícolas. Porém, num caso como este, dos borrachudos, precisamos identificar uma estirpe, uma raça da bactéria capaz de produzir toxinas específicas”, explica a pesquisadora. “A estirpe que mata as lagartas, por exemplo, não mata os mosquitos”.

A busca foi realizada no Banco de Bacilos Entomopatogênicos da Embrapa, que abriga uma coleção de mais de 2.500 microrganismos, coletados desde 1988 em diversas regiões do país, em geral, no solo. “Selecionamos três opções para então dar início às séries de testes de laboratório e de campo”, acrescenta Rose.

Nos testes de laboratório, a estirpe de bacilo selecionada deve ser fácil de reproduzir em meios de cultura baratos, de forma a viabilizar a produção comercial. Esses meios de cultura são uma mistura de leveduras, proteínas e carboidratos, já industrializados, uniformes e certificados, pois é necessário repetir os mesmos resultados verificados em laboratório quando o bioinseticida estiver na linha de produção.

Após obter 10 mil litros da bactéria selecionada, bem homogênea, Rose Monnerat passa para a fase de formulação do produto, acrescentando componentes importantes para assegurar um bom tempo de prateleira, a estabilidade do bioinseticida em diversas condições climáticas e outras características fundamentais. “Neste caso do bioinseticida contra borrachudos, por exemplo, acrescentamos um protetor solar à fórmula, pois as bactérias são sensíveis aos raios de sol e o produto será aplicado na água a céu aberto”, explica a especialista.

Segundo ela, agora o Fim da Picada está pronto e passa por mais uma série de testes toxicológicos antes de ser protocolado o pedido de licença junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Estes últimos testes são de responsabilidade da Bthek, a empresa que colocará o novo bioinsetida brasileiro no mercado.

Da parte dos caminhantes e banhistas habitués de grandes cascatas a riachinhos encachoeirados, de preferência em locais remotos, fico aqui na torcida para o produto passar em todos os testes com louvor e nos livrar – enfim – do maldito mosquitinho. E sem poluir nossas águas cristalinas!

Foto: Liana John (São Sebastião/SP)

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LIANA JOHN

é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

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