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Pepinos e conchas contra trombose e tumores Liana John - 03/01/2013 às 18:37

Na virada do ano, a praia é o destino de milhões de brasileiros e turistas, sempre dispostos a confiar ao mar suas mágoas passadas em troca de energia e esperança renovadas. As superstições e oferendas variam, declaradas ou camufladas, mas a fé é a mesma. Pois ao tomar conhecimento de algumas pesquisas feitas com seres marinhos, tenho a impressão de que essa história das ondas levarem embora nossos males e renovarem nossas forças não está lá tão longe da verdade…

Há pelo menos duas décadas, o biólogo Mauro Sérgio Gonçalves Pavão, do Laboratório de Tecido Conjuntivo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), trabalha com invertebrados marinhos com a perspectiva de produzir medicamentos para limpar o sistema cardiovascular e conter a progressão de tumores. Segundo seus estudos, substâncias extraídas de pepinos-do-mar, ascídias e do molusco conhecido pelo nome francês de coquille (concha) Saint-Jacques podem substituir a heparina comercial, atualmente utilizada contra trombose e em cirurgias.

A heparina é uma substância anticoagulante produzida pelo fígado e encontrada em nosso organismo fixada às proteínas das mucosas. Sua função é prolongar o tempo de coagulação do sangue e dissolver trombos, como são chamadas as aglomerações de plaquetas no interior dos vasos sanguíneos, semelhantes a coágulos e causadoras de trombose. A heparina também normaliza tecidos endurecidos; estimula a regeneração do tecido conjuntivo; produz vasodilatação e melhora a circulação sanguínea.

A heparina comercial hoje disponível é retirada dos pulmões de bovinos ou dos intestinos de suínos e tem dois inconvenientes: pode vir contaminada por microrganismos prejudiciais ao homem e pode causar hemorragias em pacientes mais sensíveis. “Os invertebrados marinhos são filogeneticamente muito distantes do homem e isso reduz muito a possibilidade de infecção, ao contrário de bois ou porcos, que também são mamíferos, como nós”, explica Mauro Pavão. Nos anos 1980, por exemplo, quando houve o surto do mal da vaca louca (encefalopatia espongiforme bovina), a heparina de origem bovina foi proibida devido ao risco de contaminação.

“Cada invertebrado estudado produz uma substância diferente, embora todas sejam análogas à heparina”, explica o pesquisador, que tem mestrado e doutorado em Biologia Molecular e fez pós-doutorado em Química de Macromoléculas na Universidade de Washington (EUA). “Cada espécie tem uma peculiaridade estrutural e de atividade biológica, de modo que já contamos com um painel de moléculas com diversas aplicações: algumas são boas anticoagulantes, agem contra trombose sem o inconveniente de causar hemorragias; outras impedem a progressão de metástase (disseminação do câncer) e outras ainda têm efeito anti-inflamatório. Conseguimos bons resultado até nos casos de inflamações crônicas, como na retocolite ulcerativa ou doença de Crohn: nossa heparina teve ação anti-inflamatória local, com restabelecimento da estrutura morfológica da mucosa intestinal”.

Mais duas vantagens das heparinas que vêm do mar são a alta produtividade por peso e a possibilidade de produção em larga escala. Assim, não é preciso recorrer ao extrativismo com risco de depauperar os estoques naturais. Conforme menciona Pavão, “os pepinos-do-mar já são criados aos milhares para alimentação, sobretudo na China, e as conchas conhecidas como Saint-Jacques já fazem parte da maricultura gourmet da França há muitos anos e também são produzidos aqui no Rio de Janeiro, na Ilha Grande, pelo Instituto EcoDesenvolvimento, nosso fornecedor para os moluscos utilizados em todos os testes”. Bastaria adaptar as técnicas ao objetivo de produzir medicamentos.

Fazem parte da equipe liderada por Mauro Pavão outros dez pós-graduandos e pesquisadores. Ele ainda conta com a colaboração do gastroenterologista Heitor Siffert de Souza e da especialista em câncer de mama, Morgana Teixeira Lima Castelo Branco. Eles contam com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e do Instituto de Saúde Pública dos Estados Unidos (especificamente dirigidos aos estudos da ação anticoagulante da heparina brasileira). Uma patente já foi registrada, através da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), associada ao anticoagulante. Mas ainda não houve indústrias interessadas em fabricar o medicamento, apesar das diversas vantagens sobre a heparina comercial disponível.

“Ainda há uma distância muito grande entre o que fazemos na universidade e sua aplicação prática. É preciso muito mais recursos para os testes clínicos e a obtenção desses recursos depende muito da interface universidade-empresas, muito incipiente no Brasil”, observa o pesquisador. “O grande problema é ter estes compostos vinculados a uma patente forte”.

Para chegar lá, sua equipe continua focada nas heparinas de invertebrados marinhos, preocupada em desenvolver outros métodos e estudar seu efeito terapêutico antimetástase. Conforme Mauro Pavão, a heparina age sobre enzimas que estão mais expressas e ativas na fase de progressão do tumor: ela inibe estas enzimas, inclusive quando os compostos são ministrados por via oral. “Estamos estudando como uma célula do tumor primário se destaca e migra para outros tecidos para formar um tumor secundário, pois acreditamos que a heparina pode inibir esta transformação”, diz.

Enquanto a pesquisa não se transforma em outra patente e as patentes não despertam o devido interesse, o grupo da UFRJ vai tratando de formar especialistas. Quem sabe numa hora dessas as ondas do mar não trazem também uma nova mentalidade para investidores? Se trouxer, eles estarão prontos!

E eu, pelo sim, pelo não, vou tratar logo de pular minhas sete ondinhas de 2013 com o pensamento em um bom futuro para medicamentos tão importantes!

Fotos: Mauro Pavão (pepino-do-mar, ao alto, e coquille Saint-Jacques, acima)

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Orelha de onça acaba com asma, rinite e afins Liana John - 27/12/2012 às 13:56

Que ninguém saia por aí caçando onça para tirar as orelhas, hein! O novo remédio para tratar problemas respiratórios, incluindo os de fundo alérgico e resposta imune, vem da flora brasileira e não da fauna! A orelha-de-onça em questão é uma planta originária do sertão nordestino, lá das bandas de Souza, no interior da Paraíba. Também conhecida como milona ou Cissampelos sympodialis, é uma trepadeira de folhas largas, em forma de coração, e de crescimento rápido, fácil de multiplicar e cultivar.

Na cultura popular, as raízes são usadas em chás contra diversos males dos pulmões, mas pesquisas realizadas na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) provaram também a eficácia das folhas contra a inflamação e o broncoespasmo característicos da asma e de outras doenças crônicas do trato respiratório. “Além de serem menos tóxicas, as folhas são mais abundantes e sua coleta não extingue a planta”, comenta a médica e farmacêutica Margareth de Fátima Formiga Melo Diniz, atual reitora da UFPB.

Nos anos 1980, ela trouxe as primeiras mudas do município de Souza, localizado a 400 quilômetros da capital paraibana, e deu início a estudos botânicos, químicos, farmacológicos, toxicológicos e imunológicos, garantindo desde a caracterização da espécie e métodos de plantio e colheita até o desenvolvimento do novo medicamento, cuja patente já foi registrada. Pela equipe envolvida no estudo já passaram mais de duas dezenas de pesquisadores e pós-graduandos, contando com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e bolsas da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

“Essa planta tem um mecanismo broncodilatador muito importante, com a peculiaridade de bloquear uma enzima que dificulta a expansão do pulmão, em pacientes com asma, rinite alérgica e mesmo com doenças virais, como gripes e resfriados”, prossegue Margareth. “O bloqueio da enzima permite a expansão do pulmão e a normalização do movimento respiratório. Segundo acreditamos, o medicamento pode até produzir efeito em casos de enfizema, embora este efeito ainda precise ser testado”.

Para asma e rinites, o grupo de pesquisa já seguiu todos os procedimentos exigidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para a aprovação de fitoterápicos e, agora, a doutoranda Liane Franco Mangueira realiza os testes clínicos finais. A previsão de conclusão é em meados de 2013, quando então o medicamento estará pronto para entrar no mercado, oferecendo uma alternativa aos remédios tradicionais, com menos efeitos colaterais.

“Acreditamos que o novo medicamento será beneficiado pela política adotada pelo Governo Federal nos últimos cinco anos, de incluir no Sistema Único de Saúde os fitoterápicos aprovados pela Anvisa”, acrescenta Margareth Diniz. Assim, se você sofre ataques de espirros todas as manhãs ou não pode chegar perto de uma poeirinha sem perder a respiração, o negócio é prestar atenção às notícias vindas da Paraíba: logo, logo essas orelhas-de-onça devem aparecer nas prateleiras da farmácia, para seu alívio!

Foto: arquivo UFPB

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Bambu da bica à boca Liana John - 21/12/2012 às 13:50

Quem bebeu água fresquinha trazida da fonte por um encanamento de bambu já pode dizer que conhece uma das melhores coisas da roça!

Em Minas Gerais tem muito disso: encanamentos de bambu espalhados pelas serras boas de bica, servindo de transporte barato, prático e saudável. Mas a tecnologia não se restringe ao sertão mineiro ou à água de beber. E nem é assunto apenas para matutos: também é objeto de pesquisa nos ramos da engenharia agrícola, engenharia civil, arquitetura e saneamento.

No mundo, são conhecidas cerca de 1250 espécies de bambu, cuja família é a das gramíneas. No Brasil, são 230 espécies nativas e 50 trazidas por colonizadores e imigrantes, oriundas principalmente da Ásia e da África, conforme nos conta Raphael Moras de Vasconcellos, fundador da rede virtual Bambu Brasileiro. Existem extensas florestas de bambu no Acre e fronteiras afora, formando uma mancha de aproximados 180 mil quilômetros quadrados no sudoeste da Amazônia, facilmente identificável em imagens de satélite. A espécie predominante nestas florestas é Guadua weberbaueri.

Os bambus mais usados em construções, decoração, artesanato e para o transporte de água, porém, são os introduzidos, que em alguns locais chegam formar touceiras espontâneas. “Os bambus nativos têm as mesmas propriedades dos exóticos e alguns têm o diâmetro apropriado para servir como encanamento, como Guadua chacoensis. Tecnicamente, poderiam ser usados nas mesmas aplicações, mas o acesso é mais difícil, pois pouca gente os planta e sua retirada das matas está sujeita às mesmas restrições das árvores”, explica Marco Antonio dos Reis Pereira, pesquisador da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Bauru.

O estudo do bambu em sistemas de irrigação foi tema de sua pós-graduação, mestrado e doutorado. Com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Pereira fez a caracterização física e mecânica do bambu, além de criar modelos de colheita e manejo, de fácil assimilação por agricultores. “O bambu tem alta eficiência no transporte de água, é muito mais barato do que os canos de PVC e não tem impactos ambientais como os da produção de PVC”, diz. “No caso da irrigação, as paredes do bambu são suficientemente espessas para permitir a fixação de aspersores comuns, suportando a pressão da água, como um cano. E se o sistema de irrigação é por gotejamento é mais fácil ainda: basta furar o bambu e instalar os ‘espaguetinhos’ de condução da água”.

Segundo o engenheiro agrícola, qualquer agricultor pode montar seu próprio sistema de irrigação, tirando os nós internos do bambu com um metal afiado ou com uma espécie de broca caseira e unindo as peças com borracha de câmera de pneus ou encaixes simples. Na instalação, o maior cuidado deve ser proteger o encanamento do sol e da chuva, para aumentar sua durabilidade. Em geral, enterrar o encanamento a pouca profundidade já resolve a questão.

“Mesmo sem tratamento, o bambu aguenta cerca de dois anos de uso contínuo, desde que seja colhido maduro. Com tratamento à base de fogo ou água, pode durar mais. Existem ainda tratamentos químicos contra fungos e cupins, mas não convém usar quando se transporta água. É melhor simplesmente substituir o pedaço danificado quando for o caso”, observa Pereira. Se o sitiante tem a moita ali à mão, na propriedade, é só cortar um bambu novo e fazer a substituição.

Para os mesmos agricultores ou até para comunidades isoladas, sem serviço de água e esgoto, o bambu tem outra utilidade preciosa: a filtragem da água. O pesquisador Adriano Luiz Tonetti montou um reator biológico com anéis de bambu para tratar esgoto na Faculdade de Engenharia Civil da Universidade Estadual de Campinas (FEC/Unicamp). Com isso, deu início a uma longa pesquisa de alternativas de filtragem mais populares, acessíveis e sem químicos.

O reator pode ser montado num tonel enterrado, só com areia, cascalho e pedaços de bambu cortados em anéis de 2 a 3 centímetros de largura. “O esgoto entra por baixo e sobe por pressão, passando pelo filtro lentamente. O bambu funciona como estrutura à qual aderem microrganismos digestores de matéria orgânica (presentes no próprio esgoto). Visualmente, a água que sai do sistema poderia ser considerada de classe 1”, afirma o pesquisador. “Claro que, em se tratando de esgoto, existem patógenos não visíveis, portanto a água não é potável e deve ser aproveitada apenas como água de reuso”.

Conforme as diversas avaliações realizadas pelo grupo de pesquisa, o bambu é muito mais eficiente do que as pedrinhas na filtragem, pois possui microestruturas integralmente preenchidas pelos microrganismos enquanto nas pedras eles permanecem apenas na superfície. Recentemente, Tonetti passou a trabalhar também com cascas de coco verde em sistemas de filtragem semelhantes, porém de maior volume. As cascas são resíduos problemáticos, devido ao tamanho e à dificuldade de decomposição, razão pela qual diversos pesquisadores buscam alternativas de reaproveitamento. No sistema de filtragem da Unicamp, elas podem substituir o bambu.

“Ainda estamos testando a durabilidade das cascas de coco, mas a durabilidade do bambu é muito grande: nos primeiros reatores que montamos, há dez anos, ainda funcionam os anéis originais, nunca houve troca, e temos relatos de sistemas semelhantes, feitos no Japão, com mil anos de uso!”, observa Tonetti. Ele conta que um sistema de filtragem com bambu será montado no próximo ano, em uma escola rural da região de Campinas, com apoio do Comitê das Bacias do Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ). É o primeiro passo para difundir o sistema de tratamento biológico pelos interiores excluídos das redes de coleta de esgotos.

Bom para os moradores dessas regiões e excelente para a qualidade da água dos rios, que passarão a receber uma carga menor de dejetos!

Fotos: Liana John (ao alto, bica de bambu e, acima, bambus da Mata Atlântica, na Serra do Mar)

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LIANA JOHN

é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

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