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Babaçu, o adsorvente eficiente Liana John - 24/01/2013 às 21:23

Opa! Será um erro de revisão logo no título deste blog? Adsorvente em lugar de absorvente?

Nada disso! As duas palavras são muito parecidas, mas seus significados são distintos, como bem nos esclarecem os químicos. Absorver é reter por assimilação, quando a substância absorvente incorpora a substância absorvida, enquanto adsorver é reter na superfície, na base das ligações moleculares. Exatamente como faz a casca modificada do babaçu com íons metálicos presentes em líquidos tão diversos como aguardente e efluentes de indústrias têxteis.

O babaçu tira os metais indesejados das soluções e livra nossos rios da sobrecarga poluente (no caso dos efluentes têxteis). Melhor: depois de usado, esse adsorvente pode passar por um processo de regeneração chamado dessorção, no qual o metal é removido de sua superfície e o produto volta a entrar em ação, com carga total. Melhor ainda: também existe a possibilidade de reaproveitar a casca de babaçu impregnada de íons metálicos na produção de carvão vegetal para abastecer os altos fornos de guseiras (indústrias processadoras de minério de ferro. Com isso se garante, a um tempo, maior aproveitamento do mesmo coquinho, mais geração de renda e a eliminação (por incineração) dos resíduos poluentes.

Essa pesquisa com partes da casca de babaçu (endocarpo e mesocarpo) envolve a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade Federal do Maranhão (UFMA), estado de origem da palmeira cientificamente conhecida como Orbignya phalerata, nativa também no Piauí, Ceará, Pará, Mato Grosso e Tocantins.

Alta (20 metros) e muito produtiva, a palmeira de babaçu chega a “botar” (como se diz lá no norte) oito cachos por ano, com um total de até dois mil coquinhos. A espécie ainda é “adepta” de grandes aglomerações, formando extensos babaçuais naturais. Cada coquinho guarda de 3 a 5 amêndoas e pesa entre 100 e 400 gramas. O óleo extraído das amêndoas serve para cozinhar e fazer sabonetes e xampus excelentes.

E da casca que antes sobrava agora aprendemos a tirar mais um produto de grande potencial. “Esse novo uso da casca do babaçu é perfeitamente compatível tanto com a utilização de máquinas para quebrar coco, quanto com o trabalho das quebradeiras de coco (que é manual, demorado e bastante trabalhoso)”, explica a química Adriana Pires Vieira, atualmente em fase de pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP).

Adriana fez iniciação científica, mestrado e doutorado sobre o adsorvente de casca de babaçu e é uma das autoras da patente gerada pela pesquisa, ao lado dos especialistas Sirlane Aparecida Abreu Santana, Cícero Wellington Brito Bezerra e Hildo Antonio dos Santos Silva, da UFMA; Claudio Airoldi, Edson Cavalcante Silva Filho e Júlio César Perin de Melo, da Unicamp. Os recursos para o projeto e para as bolsas de pós-graduação vieram da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

A remoção de metais com o babaçu estabiliza na metade do tempo necessário para o processo convencional, com carvão ativado e, no caso da aguardente, o adsorvente chega a retirar até 96% do cobre. “Além de ser um processo mais rápido e eficiente de remoção de íons metálicos, a utilização do babaçu como adsorvente de cobre na produção de aguardente de cana-de-açúcar torna-se mais barata em relação ao carvão ativado, devido ao fato da casca do coco ser um resíduo do processo de separação das amêndoas”, acrescenta Adriana. “Outra vantagem é o fato de o babaçu ser extremamente abundante em boa parte do país, ou seja, é um material disponível em grande quantidade”.

Livre do cobre, a aguardente ganha em qualidade e em aceitação no mercado internacional.

E então, vai uma purinha (mesmo) aí?

Foto: Liana John (cacho de babaçu, Morros, Maranhão)

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Quando a inspiração vem do formigueiro Liana John - 17/01/2013 às 20:57

Nestes tempos de chuvas torrenciais acompanhadas de inundações vale buscar exemplos na natureza para melhorar nossa capacidade de adaptação, se possível, com o mínimo de perdas e danos. E um dos exemplos recomendados pelo Instituto de Biomimética dos Estados Unidos vem da Amazônia brasileira, mais precisamente dos formigueiros construídos por duas espécies do gênero Mycocepurus: M. goeldii e M. smithii.

Essas formigas são consideradas coletoras de resíduos, não estão na odiada categoria das cortadeiras. Elas andam pela floresta em busca de restos de folhas já caídas ou dejetos de minhocas e lagartas, que levam para o formigueiro e depositam cuidadosamente em compartimentos anexos ao seu jardim subterrâneo, onde cultivam os fungos de que se alimentam.

Como é o caso da grande maioria de cupins e formigas, a estabilidade do microclima dentro formigueiro é fundamental para essa “agricultura interior”: não pode ficar quente demais, nem frio demais, nem seco demais, nem molhado demais, senão o fungo morre. E com ele morre toda a comunidade.

O problema é comum, mas cada espécie tem uma solução arquitetônica diferente, adaptada aos desastres climáticos locais. Na Amazônia das formigas Mycocepurus, o principal desafio é evitar inundações decorrentes de chuvas torrenciais (2554 milímetros por ano, em média) e a solução dos insetos é uma rede de canais e pequenos “salões”, em forma de árvore ou em forma de colar. A entrada de cada “salão” fica no teto e os preciosos fungos são cultivados de “cabeça para baixo”, pendurados longe das paredes. Assim, se por acaso a chuva entrar, não destrói o jardim, não molha a comida e nem altera o microclima!

Existem, inclusive, alguns canais de drenagem da água de chuva para os níveis inferiores do formigueiro, num esquema semelhante ao dos piscinões, ou seja, são reservatórios temporários, que retêm a água apenas para dar tempo de ela ser absorvida pelo solo.

A eficiência da arquitetura antienchentes foi cuidadosamente observada por três pesquisadores: o norteamericano Christian Rabeling, pela Universidade do Texas, e os alemães Manfred Verhaagh, do Museu Estadual de História Natural de Karlsruhe, e Wolf Engels, da Universidade de Tübingen. Eles contaram com a colaboração do pesquisador brasileiro Marcos Garcia, da Embrapa Amazônia Ocidental, e com recursos do Ministério Federal de Educação e Pesquisa da Alemanha (BMBF) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Além, é claro, de contar com uma imensa dose de paciência para escavar 13 formigueiros com 199 pequenos compartimentos, tudo na base do pincelzinho arqueológico, de modo a poder observar tanto as instalações das formigas como seu funcionamento. E cada um desses formigueiros se espalhava por pelo menos um metro cúbico!

Os resultados do trabalhão estão resumidos em um artigo científico publicado pelo Jornal de Ciência dos Insetos (Rabeling C, Verhaagh M, Engels W. 2007. Comparative study of nest architecture and colony structure of the fungus-growing ants, Mycocepurus goeldii and M. smithii. 13pp. Journal of Insect Science 7:40) acessível online no link: www.insectscience.org/7.40.

Conforme detalham os três pesquisadores, em seu texto, na rede de túneis tipo “árvore” existe um corredor principal vertical e dele saem “galhos” horizontais fazendo um ângulo de 90 graus, com os salões nas pontas. Na rede tipo “colar”, as câmaras ficam no corredor principal, como pérolas enfileiradas num cordão. As duas espécies de formigas usam os dois tipos de arquitetura.

Alguns compartimentos são usados só para armazenar os restos vegetais coletados no chão da floresta ou o “adubo” de minhocas e de lagartas  (este encontrado em um único depósito). Mais ou menos metade das câmaras serve para o cultivo dos fungos, um tipo de agricultura que talvez valha experimentar para multiplicar alguns de nossos cogumelos comestíveis. E há ainda outros salões com fungos e larvas, equivalentes, digamos, a berçários com serviço de quarto.

Quem sabe quando chegarmos à fase de preparo para lidar com os desastres decorrentes das mudanças climáticas (chegaremos alguma dia?) nós possamos tirar algumas lições desses formigueiros e da vida das formigas, tão bem adaptadas em sua arquitetura subterrânea independente de se encontrarem em pleno caminho das águas!

Foto: Alex Wild (Mycocepurus smithii cultivando fungo. Publicação gentilmente autorizada por www.alexanderwild.com)

 

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Palmas para a carnaúba Liana John - 10/01/2013 às 10:39

As gerações X e Y provavelmente nunca viram funcionar uma enceradeira, aquele eletrodoméstico com escovinhas giratórias que deixava o chão brilhante e escorregadio. Consequentemente nunca aprenderam que a cera de carnaúba era a melhor de todas na proteção e embelezamento do assoalho de madeira, fosse o piso feito em tacos ou tábua corrida. Na verdade, a cera de carnaúba para passar no assoalho ainda resiste no mercado, apesar de os vernizes especiais, com brilho permanente, terem tirado a enceradeira de cena na grande maioria das casas. Tem gente que passa a cera nos móveis ou mesmo no chão, quando o verniz dá sinais de velhice.

Já entre os amantes de um carro bem encerado, a carnaúba continua firme e famosa entre as melhores para proteger a pintura contra os desgastes do sol, da chuva e da poluição. O silicone, feito de petróleo, bem que se esforça em roubar o mercado, mas a cera de carnaúba mantém clientes fieis.

Retirada das folhas de uma palmeira abundante nos estados do Maranhão, Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte, cujo nome científico é Copernicia prunifera, a cera de carnaúba deve sua fama a uma composição química reforçada em diesteres e ácidos metoxicinâmicos. Essa composição garante o brilho e a proteção do que quer que seja encerado sem endurecer demais, sem rachar como outras ceras e sem derreter, mesmo que a camada seja bem fininha.

Sendo assim, a cera de carnaúba também acabou entrando no acabamento de muitos outros produtos, de papel, circuitos de computador e cascos de barcos e pranchas de surf até maquiagem e cosméticos, como espessante hipoalegênico e emoliente. A lista de usos da cera de carnaúba no exterior é imensa, quase dá para dizer que se trata de um produto mais valorizado nos Estados Unidos, Alemanha e Japão do que no Brasil. Porém aqui também existe muita pesquisa em andamento para aproveitamento dessa excepcional palmeira de cera.

Na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), por exemplo, Luiz Fernando Meneses Carvalho fez sua tese de doutorado sobre o uso de fibras de carnaúba em compósitos para substituir fibra de vidro, em diversos usos industriais, com a vantagem de tornar os compósitos biodegradáveis e, portanto, menos impactantes após o uso. Já o pesquisador Wagner Ferreira da Mota, da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes – MG) propõe a imersão de frutos de maracujá em cera de carnaúba, após colheita, seleção e lavagem, para prolongar a vida de prateleira do fruto, protegendo contra fungos e evitando a perda de umidade.

Agora, verdade seja dita, a carnaúba tornou-se mesmo o xodó dos arquitetos e construtores de pousadas, especialmente nas localidades muito visitadas por turistas estrangeiros. Áreas imensas de restaurantes e salas de estar são cobertas por telhados de folhas de carnaúba. Não só porque o aspecto rústico remete às casas originais da população tradicional, principalmente porque as folhas de carnaúba – graças à sua exclusiva cobertura de cera – resistem à chuva e ao sol e garantem o frescor do ambiente. Além de serem altamente decorativas, claro!

Então, se em sua próxima viagem à porção norte do Nordeste você topar com uma palmeira de folhas espalmadas e tronco com textura espiralada, faça uma reverência: trata-se de uma palmeira de carnaúba e ela merece todo nosso respeito e reconhecimento.

Fotos: Liana John (folhas de carnaúba, ao alto, e telhado da Pousada do Buna, em Atins – MA)

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LIANA JOHN

é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

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