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Para viajar sem jet lag Liana John - 19/04/2012 às 14:40
Já viu coisa mais inconveniente do que o cansaço após uma viagem de avião, só por atravessar uns três ou quatro fusos horários? Você volta da Europa com aquela energia de quem bateu perna pelos roteiros culturais ou gastronômicos do Velho Mundo e dá uma preguiça de trabalhar no dia seguinte. Parece até desculpa para esnobar os colegas e não é nada disso, você mal consegue abrir os olhos de tão pesados…
E o estômago, então? Reclama café quando ainda está escuro, almoço no meio da manhã e jantar na hora do cafezinho, uma confusão que pode durar até uma semana!
A culpa é toda do jet lag, uma fadiga provocada pela dificuldade de ajuste do seu relógio biológico à mudança de fuso horário, sobretudo quando a viagem de avião é leste-oeste e a diferença é superior a três horas. O chamado ritmo circadiano – horário habitual de sono/vigília e de alimentação – fica todo atrapalhado com a mudança, pois ele é influenciado pela luz solar.
Estudar o ritmo circadiano e substâncias capazes de alterá-lo é a especialidade do pesquisador japonês Yoshiaki Onishi, do Instituto de Pesquisa Biomédica da maior instituição governamental do Japão, o Advanced Industrial Science and Technology (AIST). Lá em Tsukuba, cidade localizada a nordeste de Tóquio, Onishi recebeu extratos químicos de plantas do gênero Passiflora e isolou um alcaloide chamado harmina com bom potencial para controle do jet lag.
Em entrevista ao Planeta Sustentável via internet, o pesquisador explicou que esse alcaloide “modula o nível de expressão do gene associado ao relógio biológico, conhecido como Bmal1. Se o viajante toma harmina antes de viajar o ritmo circadiano se prolonga, ajustando o relógio biológico para o fuso horário do local de chegada”. Ou pelo menos essa é a aposta da equipe do AIST.
“Esperamos obter melhores resultados com a harmina pura sintetizada, no entanto, substâncias químicas compostas às vezes produzem mais efeito do que as simples e, por isso, novos estudos ainda são necessários”, diz Onishi.
Para quem está se perguntando o que essa pesquisa tem a ver com a biodiversidade brasileira, basta lembrar a espécie mais famosa dessa família botânica por aqui: o maracujá-azedo (Passiflora edulis). Existem cerca de 500 espécies de passifloráceas na América do Sul, sendo 133 originárias do Brasil. Yoshiaki Onishi já recebeu o extrato pronto e não sabe de qual planta veio, mas afirma: “com base na literatura, acho que o alcaloide harmina está presente na maioria dessas 133 espécies, embora as concentrações possam variar”.
Enquanto o medicamento à base de harmina não chega ao mercado, a sugestão é encher a cara de suco de maracujá antes e durante o voo. Se você não sair do avião com o relógio biológico tinindo de pontualidade, pelo menos terá dormido bem, pois uma das qualidades comprovadas do maracujá é funcionar como calmante.
Bons sonhos!
Fotos: Liana John (flor e fruto de maracujá – Passiflora edulis)
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Mensageiras das boas águas Liana John - 12/04/2012 às 23:21
Quem já pôs um pezinho na roça certamente já ouviu falar que a presença de libélulas em um ambiente é sinal de água limpa.
De fato, esses insetos leves e elegantes, quase etéreos, têm uma forte ligação com a água. A maioria das 5.600 espécies de libélulas conhecidas em todo o mundo vive na água de alguns meses a três anos, em seus estágios de larva e ninfa. Depois, saem da água para a transformação final e vivem a fase adulta de alguns dias a poucos meses, com aquele abdômen comprido e asas transparentes que tão bem as caracterizam.
Em todas as fases de vida são insetos carnívoros: alimentam-se de larvas de mosquitos e de outros insetos, girinos e peixinhos. Prestam, portanto, o mesmo serviço ambiental de todos os predadores, que é o controle das populações de suas presas (incluindo larvas de Aedes aegypti e outros vetores de doenças, por exemplo). Antes de morrer, garantem a nova geração depositando seus ovos na água.
Por estas e outras razões, encontrar libélulas sempre é sinal de que existe água por perto. Para saber se a água está limpa ou não, a questão é reconhecer a espécie de libélula à vista. É o que explica o biólogo Marcos Magalhães de Souza, doutor pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Minas Gerais: “Libélulas são bioindicadoras da qualidade da água, mas existem espécies bem generalistas, que toleram águas paradas e baixas concentrações de oxigênio, e existem espécies que só ocorrem em água limpa e corrente, assim como há espécies de campo aberto e de mata fechada”.
No Brasil, são conhecidas libélulas de 1203 espécies de 14 famílias diferentes. Assim, reconhecer as espécies mensageiras de boas águas não é uma tarefa fácil. A menos que você conheça um pequeno truque de biólogo acostumado com observações de campo: “Existem libélulas que pousam com as asas abertas e libélulas que pousam com asas fechadas, mas as espécies do gênero Heteragrion pousam com as asas entreabertas e esse é um gênero exclusivo de ambientes inalterados, com algumas espécies que ocorrem apenas em matas”, revela Marcos. Ou seja, as libélulas deste gênero são bioindicadoras seguras da boa qualidade da água.
Na região de Tiradentes, em Minas Gerais, o biólogo chegou a coletar duas espécies raras desse gênero: a libélula azul da foto acima (Heteragrion obsoletum) que só havia sido registrada uma vez anteriormente, em 1886, quando a espécie foi descrita, e a libélula preta e amarela (Heteragrion tiradentense) da foto abaixo. Ambas são exclusivas de riachos de mata e muito sensíveis a alterações ambientais.
Outra dica importante é a diversidade de libélulas. Se no corpo d’água vivem várias espécies diferentes, é muito provável que ali não tenha poluentes (orgânicos ou químicos) e nem excesso de sedimentos, alterações de temperaturas ou baixas concentrações de oxigênio.
Para quem recorre ao trabalho de especialistas como Marcos, o uso de bioindicadores pode significar economia no monitoramento ambiental. Em lugar de instalar uma porção de medidores de poluentes ou sensores complicados, é possível recorrer a uma avaliação periódica das libélulas presentes na área. Enquanto elas dão o ar de sua graça, a barra está limpa.
Vale lembrar que o “emprego” de bioindicadora não é exclusivo das libélulas. Outros insetos associados a cursos d’água ou aquáticos também trazem mensagens seguras sobre as condições da água. Mas tais mensagens precisam ser igualmente decifradas por especialistas. É o caso, por exemplo, das moscas-da-pedra (família Gryptoterigidae) que só existem em águas limpas, correntes e muito bem oxigenadas, como as de cachoeiras e corredeiras não poluídas. É o caso também de insetos grandes e marrons do gênero Corydalus, que vivem o estágio de larva em águas limpas e o estágio adulto nas margens de rios, apenas enquanto o solo se mantém despoluído e úmido. Qualquer contaminação da água ou da terra e eles desaparecem. Sua presença, ao contrário, é sinal de saúde ambiental.
Em resumo, se você estiver perdido num mato sem cachorro, precisando saber se a água disponível não está poluída pode procurar por libélulas. Mas preste bem atenção à maneira como elas pousam antes de matar a sede. Já se o caso é monitorar o estado de conservação de um ambiente sujeito a impactos de atividades poluentes, peça ajuda a um especialista cuja habilidade de identificar os insetos superespecialistas poderá ser de grande ajuda.
Fotos: Marcos Magalhães de Souza (Heteragrion obsoletum, ao alto, e H. tiradentense, abaixo)
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Os poderes ocultos do X-Caboquinho Liana John - 05/04/2012 às 19:43
Depois do açaí, a nova onda de saúde a ser exportada da Amazônia para o resto do País (e quiçá do mundo!) atende pelo nome de X Caboquinho. Esse é o apelido regional de um sanduiche feito na chapa com pão, queijo e lascas de polpa de tucumã. Há numerosas variações no recheio: tem gente que acrescenta presunto ou carne, tem a versão salada e tem aqueles que preferem fatias de banana da terra, mas em nenhuma hipótese pode faltar o tucumã, a verdadeira alma desse novo lanche.
A palmeira de tucumã-do-Amazonas (Astrocaryum aculeatum) nasce em solos pobres ou degradados e resiste bem ao fogo das queimadas. É praticamente uma planta invasora, porém de grande utilidade para os ribeirinhos, pois suas fibras dão uma corda de alta qualidade; suas folhas servem para cobrir as casas; seus espinhos são usados para fazer renda de bilro; seus frutos servem para comer e as cascas do fruto, com um pouquinho de design e habilidade, transformam-se em biojoias e renda extra.
Mas a melhor notícia está muito além do nível de subsistência: o tucumã é um excelente antioxidante e também ajuda a controlar o câncer de mama, além de ter potencial contra leucemia e no controle de bactérias e fungos causadores de infecções hospitalares, como as cepas de Candida albicans que ameaçam a vida de quem fez cateterismo e está na UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Todas essas atividades estão em avaliação no outro extremo do Brasil, na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul.
As pesquisas com o tucumã são orientadas, lá no Sul, pela bióloga Ivana Beatrice Mânica da Cruz, mestre e doutora em Genética e Biologia Molecular e professora na Farmacologia e na Bioquímica Toxicológica. Ela conta com a parceria à longa distância do médico especialista em Gerontologia e Saúde do Idoso da Universidade Estadual do Amazonas (UEA), Euler Esteves Ribeiro. Os dois coordenam esses estudos, realizados com uma equipe de 4 outros pesquisadores – dois em fase de mestrado e dois doutorandos – com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), das Fundações de Amparo à Pesquisa do Rio Grande do Sul e do Amazonas (Fapergs e Fapeam) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
“Fizemos as análises das atividades das cascas e da polpa do tucumã com extrato alcoólico, que não tem cinzas, fibras ou outros componentes que atrapalham os estudos, realizados diretamente em culturas de células”, explica Ivana da Cruz. “Apesar de usarmos o extrato em nossas análises, temos condições de chegar às doses ideais de consumo do tucumã como alimento funcional”.
Curiosamente a polpa apresenta melhor atividade do que a casca, embora a casca tenha uma concentração maior de substâncias ativas do que a polpa. Os estudos ainda estão em andamento, mas a pesquisadora já pode adiantar alguns bons resultados. Por exemplo, ao consumir 100 gramas de polpa de tucumã uma pessoa obtém três vezes mais carotenoides – substâncias precursoras da vitamina A – do que ao ingerir 100 gramas de cenoura. Obtém também uma boa quantidade de vitamina C e diversos flavonoides antioxidantes como a quercitina e a rutina.
“Fomos o primeiro grupo a identificar quercitina em tucumã”, destaca Ivana. “Os flavonoides são muito estáveis e não se perdem com a preparação do X Caboquinho ou com o transporte e a armazenagem, desde que a polpa permaneça congelada ou embalada, sem ser exposta à luz, ao calor ou ao ar (oxigênio)”.
A equipe ainda analisou a presença de substâncias prejudiciais à saúde na polpa do tucumã e considerou o fruto pouco tóxico. “Aqui cabe um alerta: normalmente se fala dos benefícios dos fitoterápicos ou dos alimentos funcionais, mas não se fala na dose certa daquele princípio ativo. E qualquer coisa em excesso faz mal, até água. Assim, é preciso avaliar sempre a dose indicada”, adverte a especialista em Biologia Molecular.
Ela prossegue nas explicações: “Todos nós precisamos de oxigênio e glicose para viver. Nós obtemos nossa energia através da oxidação. Porém, cerca de 5% do oxigênio vira radical livre em nosso organismo. É como se o oxigênio ficasse desbalanceado após perder alguns elétrons e se associasse a qualquer molécula disponível, “enferrujando” as células. Em geral, a associação é com macromoléculas de gordura e causa modificações estruturais em nossas células, dando origem a mais de 200 tipos de doenças”.
Quando ingerimos substâncias antioxidantes em nossa alimentação, no entanto, essas substâncias “correm” para se ligar aos radicais livres e, assim, mantém o equilíbrio do organismo. Os antioxidantes protegem as células dos “ataques” dos radicais livres e mantêm as funções celulares por mais tempo. Ou seja, além de retardar o envelhecimento, os antioxidantes ajudam a prevenir diversas doenças associadas ao estresse oxidante.
“Mas não adianta correr na farmácia para comprar altas doses de vitamina C ou de suplementos antioxidantes”, continua a pesquisadora. “Se a pessoa não está praticando exercícios de alto rendimento, se não está doente e quer apenas prevenir a ação dos radicais livres, é melhor garantir uma dieta equilibrada, optando sempre pela variedade de frutas ingeridas como alimento, um pouco de tucumã por dia nesta semana, um pouco de açaí na próxima. Sempre em sucos ou nas refeições, pois antioxidante demais também tiram o equilíbrio do organismo. Alguns radicais livres são necessários para algumas funções, nem todos devem ser eliminados”.
Atenção, portanto, gulosos de plantão: quando o X Caboquinho chegar à lanchonete mais próxima podem apostar no poder oculto do tucumã contra os sinais de velhice e estresse. Mas nada de exagerar: nem um cacho inteiro de tucumã faz o relógio voltar para trás!
Fotos: Liana John (frutos de tucumã maduros e cachos verdes)
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Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.
• Uma ponte para dois remédios
• Guanandi reabilita a várzea amiga
• Os poderes ocultos do X-Caboquinho
• Do couro n’água ao couro d’água
• Frutas com veneno, nunca mais!
• Uma invasora contra invasões
• O toque de Midas da bromelina
• Curauá enfrenta até terremoto!
• Com mulungu, mamulengo é moleza!
• Com mandacaru não tem água turva
• Um catavento contra o câncer de laringe
• Enfim um fim para micoses teimosas!
• A volta por cima da velha piaçava
• Quando a ferroada vira remédio
• Feijoa: guardem bem este nome!
• Coco no cabelo, casca no churrasco
• Novo etanol sairá do solo amazônico
• Caju com resíduos faz do piso à telha
• Sujeira da grossa pede bactérias faxineiras
• O conservante dos conservadores de beleza
• Com baguaçu, a febre vai pro brejo
• É a volta do cipó de aroeira
• Pimenta-de-macaco ajuda até a descascar abacaxi sem surpresas
• Quem disse que pau oco não faz milagre?
• Comigo ninguém pode… nem mesmo a poluição!
• Vacinar o cão para proteger o dono
• Na horta marinha brota saúde e renda
• Patauá é prazer de cama e mesa!
• A inspiradora flexibilidade do pirarucu
• Pau-terra contra os efeitos do estresse
• Viva São João! Lá no alto e aqui no chão!
• Erva pra cabeça, por dentro e por fora
• Esse chá de cogumelo é do bom!
• Um dedal de esperança contra alergias
• Só uma santa para derrotar a celulite!
• Mosquitos contadores de histórias
• Coquinhos para encher o tanque
• O rapa das bactérias mineradoras
• Pimenta na salmonela dos outros é antisséptico
• Varre, varre a dengue, vassourinha…
• Microexército para macrobatalhas
• Para rejuvenescer, use o escorrega-macaco
• Cascavel na veia ou em cápsulas?
• Madeiras que cantam e encantam
• Falta ar? Recorra ao peixe venenoso!
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• Uma torneirinha para o bem-estar
• Vírus por vírus, o nacional é melhor
• A criativa defesa das pererecas
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• Um segredinho para adiar a morte
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