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O toque de Midas da bromelina Liana John - 16/02/2012 às 11:52
Quem se interessou pela utilização das fibras do curauá (assunto do Biodiversa na semana passada) vai gostar de saber que os rendimentos da exploração dessa bromélia amazônica podem ser incrementados com a extração da bromelina. O “lembrete” é do ambientalista Roberto Smeraldi, articulador do Balcão de Negócios Sustentáveis da organização não governamental Amigos da Terra, endossado pelo pesquisador Osmar Alves Lameira, da Embrapa Amazônia Oriental, responsável pelo desenvolvimento de uma nova variedade de curauá sem espinhos, mais fácil de colher e processar.
De acordo com Smeraldi, “a extração da bromelina amplia o aproveitamento do curauá e pode viabilizar a cadeia produtiva, gerando o ganho de escala necessário ao aproveitamento industrial da fibra”. Ele conta que a bromelina é uma enzima de ampla aplicação na indústria farmacêutica, alimentícia e de sapatos. Pode ser extraída do abacaxi, mas aí gera uma competição com o mercado do fruto, de polpa e de sucos.
“Já a fruta do curauá, por não ser consumida, apresenta um potencial produtivo específico muito interessante, visto que o Brasil importa bromelina e o valor de mercado é alto, mais de R$ 3 mil o quilo”, acrescenta o autor do Novo Manual de Negócios Sustentáveis, lançado em 2011.
“Economicamente falando, em meu ponto de vista, é mais rentável utilizar o caldo produzido no processamento das fibras do curauá, pois já diminuiria a etapa de extração da enzima do tecido vegetal”, pondera o biólogo e doutor em Engenharia Química, Edgar Silveira Campos, do Laboratório de Processos de Separação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Segundo explica Silveira Campos, as pesquisas para a obtenção da bromelina costumam ser realizadas a partir dos resíduos das indústrias que processam o abacaxi, porque este tem valor comercial. “Nesta linha de pensamento, a utilização dos frutos do curauá é viável, bastando apenas realizar testes referentes às características de suas enzimas”, diz. Porém, se há “intenção de produzir bromelina a partir de todo o curauá, haveria a necessidade de isolamento e comparação das enzimas produzidas nos diversos tecidos vegetais da planta”.
O estudo é importante, pois existem diferenças entre os vários tipos de bromelina. No caso do abacaxi, por exemplo, a enzima do fruto, mais usada na indústria alimentícia, difere da enzima do talo, mais utilizada pela indústria farmacêutica. Esta bromelina é muito bem documentada por seu efeito anti-inflamatório e eficácia comprovada na cura de angina, indigestão e problemas respiratórios.
No laboratório da Unicamp, estão em curso estudos com a bromelina extraída dos resíduos do curauá roxo e branco, com o objetivo de fazer a caracterização das enzimas; avaliar diferentes sistemas de extração, em duas fases aquosas e precipitação fracionada; testar a estabilidade da enzima bruta e parcialmente purificada, além de analisar a viabilidade econômica da purificação.
Os resultados ainda são preliminares, mas as perspectivas são boas. Pelo menos uma indústria alimentícia interessada já fez contato com a equipe de pesquisa.
Do ponto de vista dos produtores amazônicos, os sistemas de extração da bromelina em duas fases aquosas, testados na Unicamp, merecem atenção. A tecnologia não é complicada, não exige instalações de grande porte e está ao alcance de investidores locais. “Esses sistemas de extração são bastante utilizados na área médica e nas indústrias químicas”, complementa Siqueira Campos. “Também são adequados para as indústrias farmacêuticas ou alimentícias, possuem baixo custo de produção e de investimento em equipamentos, além de serem facilmente escalonáveis. E seus reagentes são bastante simples de se obter”.
Com os níveis de purificação alcançados em laboratório, é possível utilizar a bromelina em gel, loções e cremes anti-inflamatórios. “Mais um detalhe interessante é que o aproveitamento da bromelina não afeta as outras utilizações da planta”, observa Osmar Lameira. “Podemos acrescentar que a resina descartada serve como ração para bovinos, com cerca de 7% de proteínas, e como celulose”.
Em resumo, o curauá parece se revelar como uma “bromélia dos ovos de ouro”. Alô produtores da Amazônia: o que estão esperando para começar a plantar?
Fotos: Osmar Lameira/Embrapa (curauá roxo e branco sem espinhos e extração da fibra)
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19/02/2012 às 21:35 lia ines - diz:
Nossa! tudo de bom!
21/02/2012 às 20:37 Ana Luiza de Almeida - diz:
Gostaria de obter maiores informações sobre esta planta como faço para planta-la e se é aceitavel no vale do paraiba, obrigado
21/02/2012 às 22:50 Liana John - diz:
Oi Ana Luiza
O lançamento da variedade comercial melhorada pela Embrapa será em setembro deste ano.
Você pode procurar mais informações com o pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental Osmar Lameira, no email osmar@cpatu.embrapa.br.
Mas ele informa que a planta é sensível ao frio, de modo que o Vale do Paraíba talvez não tenha o clima ideal.
Boa sorte!
23/02/2012 às 15:17 Rogerio Ruschel - diz:
Excelente, Liana!
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Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.
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