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O macaco está certo! Liana John - 28/10/2011 às 02:40

Muitas pesquisas com plantas medicinais, cosméticos e alimentos funcionais têm um pezinho na Antropologia. Os usos tradicionais das espécies nativas são pistas importantes para o isolamento de substâncias com potencial para o desenvolvimento de novos medicamentos e produtos inovadores. Mas, às vezes, a inspiração pode vir de outras fontes, um tanto quanto surpreendentes…

É o caso de uma pesquisa iniciada lá atrás, em 1982, em Minas Gerais. A antropóloga norteamericana Karen B. Strier veio ao Brasil para o trabalho de campo de seu doutorado, defendido na Universidade de Harvard (EUA). Em lugar de estudar comunidades humanas, porém, ela elegeu a vida social do nosso maior macaco – o muriqui (Brachyteles arachnoides). O doutorado acabou, mas a fascinação pela sociedade desses macacos sábios e pacíficos, não.

E, para continuar a pesquisa, Karen estabeleceu uma “ponte aérea” entre a cidade de Madison – onde atualmente trabalha na Universidade de Winconsin – e a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Feliciano Miguel Abdala, em Montes Claros. Entre idas e vindas, ela já soma 28 a 29 anos de observações, em grande parte com o apoio da National Science Foundation (NSF).

Dos 22 muriquis que povoavam a reserva nos anos 1980, hoje já existem 300 descendentes, divididos em 4 grupos familiares. O fato de tê-los observado por tanto tempo, geração após geração, permitiu à pesquisadora notar alguns detalhes curiosos, como o hábito de eles saírem de seu pedaço – no centro da mata – e se deslocarem para a periferia, enfrentando até a vegetação aberta, em busca das favas de
tamboril (Enterolobium contortisiliquum), espécie também conhecida como orelha-de-macaco.

Ao chegar à árvore frondosa e cheia de frutos, porém, cada muriqui só come um pouco, diferente de quando a visita é às figueiras, por exemplo, em torno das quais todo o grupo permanece dias seguidos, degustando todos os figos ao alcance das mãos. Karen especulou sobre as razões desse comportamento e contou com a ajuda de colegas do Brasil e dos EUA para analisar as fezes dos animais. Entre tais parceiros podem ser citados Claudio P. Nogueira, da Universidade de Guarulhos, Alcides Pissinati do Centro de Primatologia do Rio de Janeiro, e Toni Ziegler, também da Universidade de Wisconsin.

“A intenção de investigar as propriedades bioativas dos alimentos do muriqui surgiu de conversas com Dr Eloy Rodriguez, então na Universidade da Califórnia_Irvine (e hoje da Universidade de Cornell)”, recorda Karen Strier. “Uma das ideias originais era tentar relacionar observações dos macacos se alimentando com as propriedades das plantas que eles comiam, de modo a tentar entender o timing da estação reprodutiva e a saúde dos animais”.

Sim, porque um dado curioso comprovado nas análises de fezes daquela população de macacos foi a ausência de parasitas intestinais (verminoses), um sinal de saúde excelente, bem diverso dos muriquis do Parque Estadual Carlos Botelho, na Serra do Mar (SP), também analisados pela equipe. E uma segunda curiosidade é o fato das favas de tamboril conterem stigmasterol, um esteróide usado em laboratório para a síntese de progesterona, o hormônio feminino associado à gestação e ao aleitamento.

Estariam os muriquis tomando um vermífugo preventivo? E as senhoras-muriqui, seriam elas adeptas de um reforço hormonal como preparação para a estação reprodutiva? Ou a orelha-de-macaco funcionaria no controle de natalidade, como contraceptivo?

Karen não enveredou por este caminho de pesquisa. Ela continua investindo nas relações sociais dos muriquis. Mas suas descobertas abriram caminho para um braço inusitado da “etnobotânica” no Brasil: o da investigação do uso de plantas funcionais pelos primatas!

Em tempo, o tamboril era uma espécie usada como descongestionante, vermífugo e larvicida pelos índios guarani, de acordo com levantamento publicado por Francisco da Silva Noelli, em sua pós-graduação na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). E seus frutos são reputados como abortivos entre os pecuaristas, efeito comprovado em testes com cobaias, num experimento realizadoem 2008, na Veterinária da Universidade Federal de Pelotas (RS).

Como vemos, o macaco sabe escolher sua dieta, seja para garantir a saúde perfeita, seja para “controlar” as gestações. Vale, portanto, esmiuçar os dados obtidos em observações cuidadosas de grupos de primatas, como a de Karen Strier. Um bom começo é ler o livro dela sobre os muriquis de Montes Claros, intitulado Faces na Floresta e editado em português em 2007.

Foto: Geiser Trivelato (orelha-de-macaco)

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Comentários

30/10/2011 às 14:05 Emmanuel M Favre-Nicolin - diz:

Muito interessante. Temos muito para aprender da natureza e nesse caso do chamados “primatas”, nem tanto primata talvez?

Emmanuel M. Favre-Nicolin
Blog Vitória Sustentável
http://vitoria-sustentavel.blogspot.com

30/10/2011 às 20:45 Rosmari Lazarini - diz:

Só uma mente aberta desperta para outras finalidades. Quando o objetivo de pesquisa é alvo de conhecimento específico e somente específico, pode-se correr o risco de se amplicar os conhecimentos.
Parabéns a todos que trabalham nesta área de pesquisa. Gostei muito desse trabalho.

31/10/2011 às 13:11 HAROLDO CASTRO - diz:

Belíssimo artigo sobre os muriquis, o maior primata das Américas. A vida sexual dos macacos também é das mais interessantes: os muriquis criaram uma sociedade do tipo “paz e amor”, onde as lutas entre machos para encontrar fêmeas foram substituídas por outras soluções mais eficientes: quem tiver maior quantidade de esperma fertiliza a senhora Muriqui, o que fica explícito pelo tamanho das bolas masculinas. Talvez seja por isso que as senhoras preferiram controlar a natalidade… rsss…
Liana, escreve mais sobre o Muriqui, mesmo sem pesquisas farmacêuticas…

Haroldo Castro
blog Viajologia/Época
http://colunas.epoca.globo.com/viajologia/

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BiodiversaLiana John

Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

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