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O conservante dos conservadores de beleza Liana John - 13/10/2011 às 19:45

Bactérias e fungos – como todos sabemos e sempre esquecemos – estão por toda parte! Acabou de lavar as mãos e tocou em algum móvel, em alguém? Já encheu os dedos de microrganismos de novo! Coçou a cabeça? Fez um agradinho no cachorro? Mais micróbios… Teclou no celular ou no laptop? Iiiih, aí contaminou de vez!

Isso não significa que precisamos viver em bolhas herméticas e higienizadas. Bactérias e fungos fazem parte do nosso organismo tanto quanto das coisas e dos seres à nossa volta. Só se tornam um problema quando proliferam de forma desequilibrada. Por isso, tomamos cuidado com medicamentos e alimentos, por exemplo, para não induzir à deterioração: nada de beber leite ou suco direto do frasco; nada de usar o talher pessoal para servir os outros; nada de encostar o vidrinho de xarope na boca ou manipular comprimidos que não serão tomados de imediato… e assim por diante.

Mas existe outra categoria de produtos sujeita a contaminações caseiras à qual nem sempre estamos atentos: os cosméticos. De acordo com a farmacêutica da Universidade de São Paulo (USP), Telma Mary Kaneko, especialista em controle biológico de qualidade de medicamentos e cosméticos, o certo seria usar espatulazinhas limpas a cada aplicação de cremes e loções de beleza. Ou recorrer a embalagens em spray, que dispensam o toque. Ou ainda se restringir ao uso individual de cada produto.

“Para os cosméticos de uso múltiplo, como hidratantes, xampus, cremes dentais, etc, sempre há o risco da introdução inadvertida de bactérias e fungos”, observa Telma. “O simples ato de abrir o frasco com a mão já contamina. Então é importante que esses cosméticos contenham conservantes antimicrobianos”.

A tendência do mercado consumidor é optar por conservantes naturais, também quando se trata de cosméticos. Não apenas porque o natural é ‘moda’, mas porque os conservantes sintéticos podem causar alergias nas pessoas mais sensíveis.

Por isso Telma trabalhou na pesquisa de um conservante vegetal à base de Lippia salvaefolia, em parceria com o também farmacêutico Paulo Roberto Moreno, do Instituto de Química da USP. E ainda orientou a tese de doutorado de Beatriz Resende Freitas, no âmbito da qual foram realizados os testes toxicológicos e de atividade antimicrobiana. “Fizemos os testes em meio de cultura e em pele
reconstituída: não verificamos toxicidade e a atividade como conservante se mostrou adequada”, acrescenta a pesquisadora. “Mesmo assim são necessários mais testes clínicos até o desenvolvimento de um produto comercial”.

Lippia salviaefolia é uma planta herbácea, da família das verbenas, muito utilizadas como ornamentais”, conta Paulo Moreno. Sua distribuição natural abrange o Cerrado de São Paulo e Minas Gerais, com algumas ocorrências também no Rio de Janeiro. É fácil de cultivar e o extrato é obtido das partes aéreas (folhas, ramos, flores). “Na partição dos compostos, verificamos que os componentes ativos são flavonóides antibacterianos e antifúngicos”, continua o pesquisador. Outros trabalhos ainda indicam atividade antioxidante para o mesmo tipo de extrato, o que pode ser uma vantagem a mais no uso cosmético da espécie, nos tratamentos antienvelhecimento.

Os três especialistas – Telma, Beatriz e Moreno – já depositaram patente para o uso de Lippia salviaefolia como conservante natural de cosméticos. Agora depende do interesse da indústria para levar adiante os testes que faltam e por no mercado uma alternativa mais natural para os produtos conservadores de beleza.

Foto: Liana John

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Comentários

14/10/2011 às 18:28 Carla Sabiá - diz:

Muito boa a reportagem nem sempre pensamos nestes pequenos cuidados mas sempre usei espátula para passar cremes no rosto !

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BiodiversaLiana John

Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

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