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Mosquitos contadores de histórias Liana John - 28/04/2011 às 13:50

No primeiro filme
Jurassic Park, um mosquito fóssil faz história ao ’doar’ sangue carregado de
DNA para a recriação dos dinossauros. Na vida real, mosquitos da Mata Atlântica
contam a história da distribuição da biodiversidade e podem ajudar na
restauração da vegetação nativa com o máximo de diversidade genética.

 

Para saber o que
‘dizem’ os mosquitos historiadores, o pesquisador português Pedro Miguel da
Costa Pedro
, do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ) e da Universidade de
Guelph
(Canadá), está no Brasil fazendo coletas. Ele instala máquinas (www.mosquitron.com.br) movidas a
gás de cozinha no meio do mato e as deixa agir sozinhas por até uma semana.
Cada máquina é acoplada a um botijão de gás de cozinha que movimenta um
ventilador/aspirador e passa por um catalizador. O butano do botijão é
convertido em gás carbônico (dióxido de carbono) e expelido pelo ventilador,
atraindo todos os tipos de mosquitos das redondezas, num raio de 45 metros.

A exemplo das
espécies de mosquitos associadas ao homem, as espécies silvestres identificam
os animais de sangue quente no meio do mato pelo dióxido de carbono expelido na
respiração. As tais máquinas imitam a expiração e, quando o mosquito se
aproxima do suposto ‘alvo’, o aspirador entra em ação, sugando-o para um
reservatório dentro do aparelho.

“A cada tubinho
cheio de mosquitos acrescento sílica ou etanol puro, cuja função é secar os
insetos e preservar intacto seu DNA”, explica Pedro, graduado em comportamento
animal pela Universidade de Bucknell (Estados Unidos), com doutorado pela
Universidade de Leeds (Inglaterra). “Depois, preparo a mistura de, digamos, mil
mosquitos em laboratório e a coloco no sequenciador genético. Os primeiros
sequenciadores analisavam apenas o DNA de um animal por vez, mas os atuais,
chamados de next generation (próxima geração), permitem trabalhar conjuntos de
até 3 milhões de indivíduos por vez”.

No caso dos
mosquitos da Mata Atlântica, o que interessa é um pedacinho do DNA de cada
inseto, conhecido como citocromo-oxidase 1, que identifica uma molécula
auxiliar da respiração celular. “É algo que todos os animais têm, mas em
sequências diferentes. Isso me permite não só distinguir as espécies de
mosquitos coletadas como saber se há variação genética entre indivíduos da mesma
espécie”, explica o pesquisador. Em média, uma amostra com mil mosquitos tem de
10 a 20 espécies distintas. E as mais interessantes para o resgate da História
Natural da Mata Atlântica são aquelas exclusivas de floresta, não associadas ao
homem, como os mosquitos dos gêneros Sabethes e Wyeomyia, todos diurnos e
‘fashion’, de cor azul esverdeado metálico.

Ao colocar no
mapa do Brasil a informação gerada por todas as amostras sequenciadas, Pedro
consegue ‘ler’ a história da evolução dos mosquitos, identificando quais
mutações são mais antigas e quais são mais recentes; quais indivíduos são
‘parentes’ mais próximos, quais são mais distantes. Como as espécies são
restritas ao ambiente florestal, dá então para saber como a Mata Atlântica
ocupou o território ao longo de centenas de milhares de anos.

 

“As eras glaciais
duram, em média, 100 mil anos, enquanto as eras interglaciais duram cerca de 10
mil anos. Durante as eras glaciais, o clima fica mais seco e as florestas
tropicais, como a Mata Atlântica, recuam e se restringem ao que chamamos de
refúgios de biodiversidade, cercados de vegetação mais aberta, tipo savana”,
prossegue o especialista. “Estudos realizados com outros animais – anfíbios,
roedores e serpentes – indicam que os principais refúgios de Mata Atlântica da
última era glacial (Pleistoceno) se localizavam em Pernambuco, na Bahia e em
São Paulo. Quando entramos na presente era interglacial, a floresta
gradualmente se espalhou a partir destes refúgios, recolonizando as áreas
adjacentes até ocupar toda a área delimitada como domínio da Mata Atlântica”.

Embora a floresta
tivesse a mesma exuberância do Nordeste ao Sul è época do Descobrimento,
geneticamente há uma grande diferença entre as áreas dos antigos refúgios e as
áreas de recolonização. Os refúgios guardam uma biodiversidade e uma
diversidade genética de cada espécie muito maior. Por isso sua conservação é de
extrema importância. “E, se formos restaurar algum trecho de mata, o melhor é
buscar sementes nas áreas de antigos refúgios mais próximas, ou seja, as
árvores a serem plantadas em Pernambuco e nos estados vizinhos devem sair do
refúgio de Pernambuco, as plantadas no Paraná ou no Rio de Janeiro devem sair
do refúgio de São Paulo e assim por diante”, recomenda Pedro.

O problema é que
não temos os limites dos antigos refúgios, pois os mapas traçados a partir dos
vertebrados são parciais e é preciso ponderar a forma de distribuição de cada
espécie e se o relevo ou os rios funcionam como barreiras, o que tende a ser um
ruído na história contada por seu DNA. “Já os mosquitos nos dão algumas
vantagens, pois posso coletar e analisar 20 espécies ao mesmo tempo e um grande
número de insetos de cada espécie. Além disso, eles voam e os rios – se não
forem muito largos – não são barreiras como são para serpentes, anfíbios e
roedores. Sem contar que o comportamento dos mosquitos é muito estudado, a
literatura científica é ampla, sabe-se muito sobre sua Ecologia, distância de
voo, reprodução, em função dos estudos realizados com insetos vetores de
doenças ”, observa o especialista.

Em outras
palavras, mosquitos podem ‘contar’ mais detalhes sobre como era a Mata
Atlântica antes do homem existir. E devem ajudar Pedro da Costa Pedro a
desenhar os limites dos antigos refúgios de Mata Atlântica, além de verificar a
própria hipótese dos refúgios de Pernambuco, Bahia e São Paulo. A expectativa é
concluir a pesquisa até o final de 2012, com apoio da National Geographic
Society
.

E você que só
pensava nos mosquitos como meros sugadores de sangue, infernais e inúteis… Parece
que eles têm algo a nos dizer, afinal, além do irritante
zzzzuuuuiiiiiiiiiiiiimmmm!

Foto: Eduardo Bredo/Sucen (mosquito do gênero Sabethes) 

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Comentários

02/05/2011 às 15:56 Anonymous - diz:

Haroldo Castro – diz:Bem diferente essa historia!

02/05/2011 às 18:01 Anonymous - diz:

Luis Gonzaga Truzzi – diz:Quem diria , hem ! Que esse “marditinho” teria uma importante função , principalmente p/ pesquisadores “ligados” ,como esse português. Muito interessante e singular!!

05/05/2011 às 15:31 Anonymous - diz:

Andrea Peçanha Travassos – diz:Que pesquisa interessante!A formulação desta hipótese é fantástica!

05/05/2011 às 21:50 Anonymous - diz:

zaga truzzi – diz:Mosquito fashion mesmo esse Sabhetes!

06/05/2011 às 15:42 Anonymous - diz:

Rogerio Pelepka – diz:Sou sócio da empresa Mosquitron, distribuidora exclusiva no Brasil dos equipamentos “Mosquito Magnet” dos EUA, utilizados pelo pesquisador Pedro.

14/04/2012 às 12:23 leila - diz:

nossa que dinossauro de verdade hem

31/01/2014 às 17:30 Ingrid Piva - diz:

Nossa hoje eu fui picada por um mosquito parecido com esse, só que essas peninhas rs, só tem nas parte da frente .. Tem algum risco . =/

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LIANA JOHN

é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

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