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Madeiras que cantam e encantam Liana John - 20/01/2011 às 13:24

 

Inconformado com o baixo aproveitamento das madeiras amazônicas devido ao desconhecimento de seu diversificado potencial, Mario Rabelo de Souza decidiu fazer nossas árvores cantarem. E encabeçou um projeto de pesquisa no Laboratório de Produtos Florestais (LPF) com testes para caracterização das madeiras quanto às propriedades necessárias para a construção de instrumentos musicais. Logo o LPF passou a ter sessões de demonstração, mobilizando fabricantes de instrumentos – industriais e amadores (luthiers) – e, claro, músicos.

 

Inconformado com a dificuldade em comprar fagotes no Brasil ou importar os instrumentos da Europa para seus alunos, Hary Schweizer decidiu reformar e fabricar os próprios instrumentos. E um dia o professor de música da Universidade de Brasília e fagostista da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional acabou participando de uma das sessões demonstrativas do LPF. Lá foi apresentado à muiracatiara (Astronium lecointei), árvore amazônica de madeira pesada, boa para tornear na forma de instrumentos de sopro.

Isso foi no final dos anos 1980. Naquela época, o LPF era subordinado ao Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), e hoje pertence ao Serviço Florestal Brasileiro (SFB). Mas a pesquisa com madeiras para instrumentos atravessou as décadas e continua buscando novos sons nas florestas brasileiras, com mais de 300 espécies estudadas!

Muitos dos fabricantes de instrumentos que passaram pelo LPF adotaram as madeiras indicadas. Alguns se animaram com os primeiros resultados e até ampliaram as pesquisas por conta própria, incorporando outras espécies ao seu leque de opções.

 

Foi o caso de Hary Schweizer. Catarinense, filho de alemães, o fagotista visitava a terra natal e precisou ir a uma marcenaria para consertar uma veneziana arrombada por ladrões. A esta altura ele já era também o fabricante dos fagotes Schweizer, feitos de muiracatiara. Mas considerava a espécie um pouco pesada demais para o seu instrumento. Assim, quando bateu os olhos num pedaço de madeira de bom tamanho, jogado num canto da marcenaria, interessou-se em testá-la.

“Era embuia (Ocotea porosa) e o dono da marcenaria me deu de presente, pois não pretendia fazer nada com aquilo”, conta o músico. “Achei bonito, experimentei fazer um fagote e funcionou bem”.

 

A propriedade mais importantes para a madeira a ser transformada em instrumentos de sopro é a estabilidade. “Quando o músico sopra, inevitavelmente molha o instrumento, depois ele seca, em seguida molha, então a madeira não pode ser do tipo que sofre com isso, precisa ser estável nestas condições”, comenta Mario Rabelo, do LPF. “No fagote, também é importante a perfuração, então a madeira precisa ‘aceitar’ ser trabalhada e, ao mesmo tempo, não pode trabalhar depois de pronta”, acrescenta Schweizer. “A madeira ainda precisa ‘aceitar’ bem o verniz e ficar bonita no instrumento”.

Pois a embuia se mostrou estável e também fácil de tornear, de boa ressonância e belo acabamento. “E o resultado sonoro é igual ao dos fagotes importados, feitos,em geral, com maplewood”, diz Hary Shweizer. Ele fez um estoque de embuia – espécie em declínio, em vias de se tornar ameaçada – e agora só produz ou reforma os fagotes com essa madeira.

Quer ouvir como soa esse pedacinho da biodiversidade brasileira?

FOTO: Hary Schweizer/dilvulgação

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Comentários

20/01/2011 às 13:27 Anonymous - diz:

Richard Sotero – diz:Excelente reportage. Também nesse tema precisamos sair do extrativismo e partir para florestas cultivadas, dentro de padrões em que o desenvolvimento da árvore a a técnica de corte atendam a finalidade: ausência de impactos e microfissuras nas fibras e garantia de um futuro som maravilhoso. Aprendi muito com a matéria!

20/01/2011 às 13:27 Anonymous - diz:

Richard Sotero – diz:Excelente reportage. Também nesse tema precisamos sair do extrativismo e partir para florestas cultivadas, dentro de padrões em que o desenvolvimento da árvore a a técnica de corte atendam a finalidade: ausência de impactos e microfissuras nas fibras e garantia de um futuro som maravilhoso. Aprendi muito com a matéria!

20/01/2011 às 13:47 Anonymous - diz:

Marcos Terra – diz:A matéria é muito interessante. Mostra tudo que ainda pode ser descoberto como aplicações para nossas madeiras nativas. Essa aplicação sonora da biodiversidade é encantadora. A questão é: alguém poderia hoje derrubar uma árvore de embuia sem ser criminalizado?

20/01/2011 às 16:16 Anonymous - diz:

Liana John – diz:De fato, o ideal aqui, como nos demais usos que se faz da madeira, é sair do extrativismo e buscar o plantio comercial. Mas a diversificação de espécies usadas para fabricar instrumentos musicais também ajuda a tornar a exploração madeiria mais sustentável na medida em que agrega valor ao produto final e substitui o simples descarte (que ainda acontece muito por simples ignorância a respeito do potencial de cada espécie).

20/01/2011 às 16:53 Anonymous - diz:

Rogerio R. Ruschel – diz:Ótima matéria, como sempre no seu blog. Ouvi dizer que temos boas madeiras para violão e guitarras e que existem estudos semelhantes no IPT, aqui em São Paulo.Abraços

20/01/2011 às 19:16 Anonymous - diz:

Zaga Truzzi – diz:Muito interessante, Liana. Já tinha conhecimento de guitarras e baixos produzidos com madeiras brasileiras.Abraços.ps.: e o som foi de primeira!!

21/01/2011 às 07:28 Anonymous - diz:

Hary Schweizer – diz:Como é fácil ler quando alguém escreve bem, e ainda por cima com um tema interessante, que aliás é o meu.Não derrubei nenhuma árvore de imbuia para meus fagotes, pois meu trabalho é artesanal e com menos da metade de uma árvore teria trabalho por mais de uma vida. Realmente a imbuia está sob proteção ambiental, mas assim como encontrei um toco de imbuia lançado ao chão naquela marcenaria, encontrei também numa madeireira de Mafra, minha cidade natal e conhecida por seus imbuiais, os tocos já cortados e devidamente envelhecidos que precisava para meu trabalho, e isso numa época em que não havia tanta preocupação ambiental.Em tempo: a foto do link do Youtube mostra fagotes construidos com tres madeiras diferentes: a primeira que me foi identificada como “bálsamo” (myroxilon), a segunda, a muiracatiara, e a terceira, imbuia.Seu texto (espero que com sua permissão)vai para a seção de depoimentos de meu site: http://www.haryschweizer.com.br

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BiodiversaLiana John

Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

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