Biodiversa

Publique
o selo
no seu blog

Luzinha ‘dedo-duro’ tiago - 14/07/2010 às 12:03


É fácil identificar um rio poluído por esgotos: a água cheira mal, é escura, viscosa e, muitas vezes, chega a formar espumas ou placas de sujeira. Também é evidente quando um alimento está podre: o odor é forte, aparecem fungos e a consistência se altera. Difícil é saber se a água ou o alimento estão contaminados quando os contaminantes são solúveis, estão bem diluídos ou são invisíveis, caso de bactérias, amebas, vírus e outros agentes causadores de doenças (patógenos). Aí falta uma evidência para denunciar a contaminação…

Mas, e se desse para iluminar esses contaminantes? Certamente facilitaria o trabalho dos responsáveis pelo controle de qualidade da água, de alimentos e mesmo dos ambientes e instrumentos de hospitais, cuja rigorosa esterilização é crucial.

Pois ‘dedar’ contaminantes é justamente a função dos marcadores luminosos, produtos derivados de pesquisas com a biodiversidade. A luzinha ‘dedo-duro’ vem dos vaga-lumes e seu nome técnico é bioluminescência. Trata-se de uma luminosidade fria e visível produzida, em geral, com a finalidade de comunicação. No caso dos vaga-lumes, o pisca-pisca é uma forma de atrair parceiros em época de acasalamento.

Vários outros seres também são bioluminescentes: fungos, águas-vivas, moluscos, plânctons, bactérias e algas marinhas. Porém só os vaga-lumes têm uma proteína com função de ‘ignição’. Essa proteína ‘dá a partida’ a uma reação química entre uma molécula orgânica chamada luciferina e o oxigênio, com a ajuda de enzimas chamadas luciferases (catalizadoras). Ao ‘queimar’, o vaga-lume não libera calor, mas luz visível.

Quando as proteínas da luzinha foram isoladas, logo se pensou nas suas múltiplas utilidades. E hoje já existem kits de testes disponíveis no mercado, para saber de modo fácil e rápido se um lote de alimentos está contaminado ou não; se a água é 100% pura e se um ambiente esterilizado está mesmo livre de bactérias, fungos, ou qualquer outro ser vivo.
Os contaminantes podem ser detectados em nível molecular, com uma precisão impossível de obter com outros métodos. Tal propriedade logo despertou interesse também na área médica, pois os marcadores luminosos à base de bioluminescência podem ‘denunciar’ processos biológicos e patológicos nas células, em tempo real e em organismos vivos. Os marcadores luminosos servem ainda para verificar se os espermatozóides estão vivos, em testes de fertilidade.

“Nenhuma outra técnica, até agora, consegue detectar tais processos com tanta sensibilidade”, afirma Vadim Viviani, especialista em Bioquímica e Biologia Molecular da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Rio Claro (SP). Ele trabalha há 20 anos com vaga-lumes, fez pós-doutorado no Japão e mantém parceria com o Instituto de Pesquisas Avançadas de Osaka (AIST). Segundo afirma, a bioluminescência abreviou, simplificou e tornou mais eficientes os testes de fármacos em animais. Agora é possível ver – literalmente – o efeito do remédio em cobaias vivas, em lugar de avaliar cada etapa após sacrificá-las.

O Brasil abriga cerca de 500 espécies de vaga-lumes, mais ou menos 25% do total mundial conhecido. E provavelmente existe um número muito maior de espécies ainda por serem descritas. Os insetos de luzinha verde são os mais comuns. Eles enfeitam as noites quentes de verão, nas localidades em que as noites ainda são escuras de fato e as luzes artificiais não atrapalham o ‘namoro’ dos bichinhos.

Mas aqui também existem espécies capazes de produzir luminosidade amarela, laranja e vermelha, conta Viviani. E estas estão no foco das pesquisas mundiais mais recentes. Elas servem como marcadores luminosos mais eficientes para mamíferos, sobretudo em órgãos mais irrigados – como fígado e coração – nos quais a luzinha verde tende a ser mascarada pela cor do sangue.

Além de úteis na ‘deduragem’ de contaminantes escondidos, infecções latentes e reações a medicamentos, as luzinhas dos vaga-lumes podem ser fonte de renda no turismo de observação, seguindo o exemplo das larvas luminosas de cavernas, na Nova Zelândia, e de organismos marinhos, no Mar do Caribe. Nos meses de primavera, com o início das chuvas, as larvas de uma espécie brasileira de vaga-lume concentram-se sobre cupinzeiros no Cerrado da região Centro-Oeste. E já existem até passeios noturnos organizados por pousadas e operadoras de turismo para ver o espetáculo.

Quem se habilita a conferir o show, no entanto, é bom se apressar. De acordo com Vadim Viviani, a transformação de pastagens em lavouras de soja reduziu de modo drástico o ambiente propício a essa espécie de vaga-lume, restando poucas áreas protegidas, como o Parque Nacional de Emas.

Se não tomarmos cuidado, podemos apagar de vez as prestativas luzinhas ‘dedo-duro’…

FOTO: João Prudente

ver este postcomente
Comentários

17/07/2010 às 23:05 Anonymous - diz:

Isabel Pellizzer – diz:Muito interessante! Essa é uma luz que deve ser mantida acesa e não pode apagar de jeito nenhum.

19/07/2010 às 09:54 Anonymous - diz:

Geraldo Edler – diz:Fantástica essa descoberta, essa pesquisa e essa matéria. Ouvi dizer que a teia das aranhas também está servindo para o melhoramento da fibra do algodão por transgenia. Ciência e biodiversidade dão certo.

19/07/2010 às 14:07 Anonymous - diz:

Rodrigo Mesquit – diz:Parabéns! Avanti.bj

28/07/2010 às 16:40 Anonymous - diz:

Sonia Merino – diz:Adorei sua palestra ontem na FNAC, quanta novidades eu tive com suas histórias, muito interessantes.Abraços,Sonia

Deixe aqui seu comentário: Preencha os campos abaixo para comentar, solicitar ou acrescentar informações. Participe!

Enviar

BiodiversaLiana John

Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

Posts anteriores

• Uma ponte para dois remédios

• Guanandi reabilita a várzea amiga

• Coração forte como um touro

• Para viajar sem jet lag

• Mensageiras das boas águas

• Os poderes ocultos do X-Caboquinho

• Do couro n’água ao couro d’água

• Descole, se for capaz

• Frutas com veneno, nunca mais!

• Uma invasora contra invasões

• Larica de priprioca

• Em passo de formiguinha…

• O toque de Midas da bromelina

• Curauá enfrenta até terremoto!

• Da boca da serpente

• Com mulungu, mamulengo é moleza!

• Com mandacaru não tem água turva

• Pode comer que… é batata!

• Um catavento contra o câncer de laringe

• Enfim um fim para micoses teimosas!

• A volta por cima da velha piaçava

• Quando a ferroada vira remédio

• Feijoa: guardem bem este nome!

• A proteção está no bagaço

• Coco no cabelo, casca no churrasco

• Novo etanol sairá do solo amazônico

• Caju com resíduos faz do piso à telha

• O macaco está certo!

• Sujeira da grossa pede bactérias faxineiras

• O conservante dos conservadores de beleza

• Com baguaçu, a febre vai pro brejo

• É a volta do cipó de aroeira

• Bom para bumbum de bebê

• Pimenta-de-macaco ajuda até a descascar abacaxi sem surpresas

• Quem disse que pau oco não faz milagre?

• Sinal vermelho para o sol

• Comigo ninguém pode… nem mesmo a poluição!

• Vacinar o cão para proteger o dono

• De veneno a fortificante

• Na horta marinha brota saúde e renda

• Patauá é prazer de cama e mesa!

• A saúde é índigo blue

• A inspiradora flexibilidade do pirarucu

• Para curar qualquer ferida

• Pau-terra contra os efeitos do estresse

• Viva São João! Lá no alto e aqui no chão!

• Bicão high-tech

• Erva pra cabeça, por dentro e por fora

• Há males que vêm pra bem

• Tucupi, tacacá e tá na cara

• Esse chá de cogumelo é do bom!

• Um dedal de esperança contra alergias

• Só uma santa para derrotar a celulite!

• Mosquitos contadores de histórias

• Tremiliques da grumixava

• Coquinhos para encher o tanque

• O rapa das bactérias mineradoras

• Pimenta na salmonela dos outros é antisséptico

• Como bem dizia Anchieta…

• Comer, beber, emagrecer

• Do lixo para as passarelas

• Para matar a sede de saúde

• Varre, varre a dengue, vassourinha…

• Microexército para macrobatalhas

• Deu praga na praga

• Para rejuvenescer, use o escorrega-macaco

• Cascavel na veia ou em cápsulas?

• Madeiras que cantam e encantam

• Falta ar? Recorra ao peixe venenoso!

• Comece bem, com a pata-de-vaca certa!

• Um toque de sabor e textura aos congelados

• Overdose agrícola tem cura!

• Uma torneirinha para o bem-estar

• Para o alto e além!

• Vírus por vírus, o nacional é melhor

• A criativa defesa das pererecas

• Como tirar plástico da mandioca

• O inibidor de serpentes

• Relaxe! Deixe o herpes com a marcela

• Contra gripes e resfriados, use o guarda-sol

• Para lavar a égua… Ops: a água!

• Regeneração óssea sai da zona do vinagre

• Lugar de caju é na escova de dentes

• E carrapato lá tem serventia?

• A aposta no picão-preto

• As vantagens de ser homem-aranha

• Vai antigraxa aí, doutor?

• Um segredinho para adiar a morte

• Alívio é com a cabeludinha

• Esponjas para lavar o Mal do Século

• Medidores bat-precisos e bat-econômicos

• Vazou petróleo no mar? Camarão nele!

• Buriti: das veredas para os semáforos

• Luzinha ‘dedo-duro’

• Caranguejeiras x super bactérias

PATROCÍNIO: