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Do lixo para as passarelas Liana John - 04/03/2011 às 17:14

O presente de um aluno, durante um curso sobre sementes para reflorestamento, abriu um novo campo de pesquisas para a engenheira florestal Noemi Vianna Leão. E as mulherada fã de biojoias tem muito a agradecer a este aluno!

A pesquisadora é especialista em armazenamento de sementes de espécies florestais na Embrapa Amazônia Oriental, em Belém (PA). E seu trabalho sempre foi estudar meios de conservar vivos os embriões das sementes, garantindo o máximo índice de germinação possível para cada espécie. Em geral, isso significa evitar a perda de água da semente, mantendo o teor de umidade interna sempre acima de 7%.

Noemi guardou seu belo colar. Mas três meses depois, quando foi usar, assistiu a uma revoada de bichinhos saindo da caixa. As sementes estavam danificadas, todas furadas pelos insetos, além de mofadas.
“Vivemos na zona equatorial e a umidade do ar, aqui, costuma ser superior a 90%. Se queremos evitar a ação dos fungos e dos insetos sobre os materiais vegetais utilizados em biojoias precisamos promover a secagem das sementes", , comenta a pesquisadora, que trabalha em parceria com a fitopatologista Ruth Linda Benchimol e com a assistente Elizabeth Cordeiro Shimizo.

Mas só a secagem ao sol não é suficiente, porque a umidade do ar é muito alta. É preciso recorrer a outros sistemas, como as estufas próprias para esta finalidade. O objetivo é chegar ao menor índice de umidade possível e garantir que o embrião não fique vivo, justamente o oposto do que se faz quando a intenção é plantar. Para a biojoia, o objetivo é retirar a água de modo a transformar a semente em um objeto de adorno.

A partir da divulgação de seu trabalho de pesquisa, Noemi passou a ser procurada tanto por artesãos como por coletores de sementes interessados em esterilizar seus materiais. “Então, além de secar em estufas, expusemos o material à luz ultravioleta, em um equipamento que temos em nosso laboratório, a câmera de fluxo laminar”, diz. Agora a ideia é instalar estufas e câmeras como essa em locais públicos, como universidades ou escolas, para que os coletores tenham acesso e possam melhorar a qualidade do seu material.

Noemi também realiza testes com fornos domésticos convencionais e fornos microondas, com a intenção de chegar a recomendações de temperatura e tempo de secagem para cada espécie. “O ideal é promover a secagem logo após a coleta para as sementes chegarem ao artesão em boas condições”, acrescenta.

Ainda há a alternativa de fabricar uma pequena estufa caseira, usando lâmpadas comuns como fonte de aquecimento e secagem. Sem contar as recomendações de armazenamento das biojoias já prontas, em embalagens fechadas com sache de sílica gel.

O contato com diversos coletores trouxe mais uma preocupação: a sustentabilidade da coleta. “O caroço do açaí (Euterpe oleracea), aqui em Belém, é um resíduo. O que interessa ao mercado é a polpa do açaí. E essa semente é a sobra após a retirada da polpa, usada até para fazer adubo”. De fato, na hora de plantar, os produtores recorrem à semente certificada da Embrapa. Então, as biojoias de caroço de açaí são a transformação de lixo em produto.

O mesmo não se pode dizer de outras sementes, fruto de puro extrativismo, como a famosa jarina (Phytelephas macrocarpa), também conhecida como marfim vegetal, e o muruci (Byrsonima crassiflora). “A jarina brasileira é endêmica, praticamente só existe no Acre. É uma espécie não domesticada e nos últimos 8 anos de exploração intensa na fabricação de biojoias, não se plantou nada”, alerta a especialista. “Por isso acreditamos que há risco de erosão do recurso natural, já que também não estamos deixando as sementes nativas germinarem para renovação da floresta”.

Como medida de conservação, a Embrapa trabalha na domesticação da palmeira. Porém os resultados podem demorar. “Obtivemos mudas após 6 meses de plantio e uma única palmeira de 4 anos floresceu. Mas as sementes continuam germinando”, observa Noemi, com esperança.

Em relação ao muruci, a recomendação é só usar as sementes para plantio, pois se trata de uma fruteira de subsistência. “Encontramos uma semente semelhante, de outra espécie mais abundante e não comestível, para substituir o caroço de muruci”, complementa a engenheira florestal.

 
E é assim – entre soluções acessíveis a todos e com a atenção voltada para a realidade de quem trabalha com biojoias – que Noemi Vianna Leão contribui para por a biodiversidade brasileira no mercado, mas sem depauperar nossos recursos naturais. Com sua ajuda, já teve até artesão enviando biojoias para desfiles em Paris! E sem risco de ver besourinhos decolarem de sementes furadas!

Foto: Liana John (sementes de açaí à esq. e jarina à dir.)

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Comentários

21/03/2011 às 09:17 Anonymous - diz:

Isabel Pellizzer – diz:Muito importante o trabalho da Noemi em dar uma atenção especial as essas jóias de semente que são lindas e merecem ser aproveitadas!

01/05/2011 às 08:08 Anonymous - diz:

gilmara – diz:trabalho com biojoias há 5 anos, e conservo elas em geladeira para nao ter bichinhos, e nunca tive problema com eles

18/10/2011 às 18:06 Cassia - diz:

Procuro curso de Biojoias em Belem do Para ou outras regioes da amazonia. Alguem pode me ajudar?Obrigada,
Cassia

15/02/2012 às 22:46 luiz emanuel abrantes pego - diz:

ola boa noite,gostaria de saber a que preço ta estas sementes e qual o minimo que voces vendem para minas gerais,cidade de teofilo otoni e que tipos de sementes tem para fornecer,gostaria de comprar para revender aqui,abraço e obrigado luiz

01/05/2012 às 22:26 maria da graça - diz:

gostaria de comprar apostilas do curso de biojoias.será possivel com voces?
grata graça

02/05/2012 às 11:02 Liana John - diz:

Oi Graça, não representamos nenhum curso de biojoias, só escrevi um blog a respeito do uso de sementes para este fim. Sugiro que procure o Senac, parece que eles têm cursos ou podem indicar.

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BiodiversaLiana John

Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

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