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Para lavar a égua… Ops: a água! Liana John - 07/10/2010 às 17:31
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No Brasil, existem mais residências com aparelhos de TV (95%), telefone (84%) e DVD (72%) do que ligadas a redes de esgotos ou a fossas sépticas (59%). É o que diz o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com base na Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (PNAD), realizada em 2009 e divulgada há um mês.
Quem não tem esgoto nem fossa dispensa os dejetos a céu aberto e, direta ou indiretamente, tudo acaba nos rios, lagos, mar e outros corpos dágua. Quem tem o esgoto coletado envia os dejetos para alguma estação de tratamento, que reduz a poluição orgânica e devolve a água mais ou menos limpa para rios, lagos e mar. Isso quando existe de fato algum tratamento, pois boa parte das redes de esgotos apenas faz a coleta em domicílio, concentra a sujeira, e também a destina aos corpos dágua, sem qualquer tratamento.
Seja como for, tratar esgotos a ponto de lavar a água e deixá-la limpinha, livre até de bactérias, ainda é uma meta distante. Para alcançá-la, não basta recorrer aos métodos tradicionais de tratamento de dejetos. É preciso inovar. Exatamente o que fazem pesquisadores como Mauro Parolin e Jefferson de Queiroz Crispim, ambos da Faculdade de Ciências e Letras de Campo Mourão (Fecilcam), no Paraná.
Eles desenvolveram um modelo de tratamento dos esgotos domésticos para propriedades rurais, escolas e condomínios, capaz de tratar 95% da sujeira. E deixam os últimos 5% por conta dos cauxis, como são genericamente chamadas várias espécies de esponjas de água doce, que se alimentam de bactérias e livram o precioso líquido de qualquer contaminação biológica.
Na estação de tratamento por zonas de raízes, primeiro filtramos os dejetos em brita e areia, depois fazemos o líquido circular pelas raízes de plantas aquáticas, retirando 95% da carga poluidora. Em seguida, a água passa por mais uma caixa com as esponjas e elas fazem um último trabalho de limpeza, retirando as bactérias, explica Parolin. Os cauxis são animais filtradores por natureza. Eles filtram a água para obter seu alimento, que são os micro-organismos.
Os pesquisadores do Paraná já instalaram suas estações de tratamento em diversas propriedades rurais e em escolas e estão ajustando a forma de operação para chegar a uma rotina fácil de ser seguida por leigos. Paralelamente, estudam maneiras de reproduzir as esponjas em cativeiro para acrescentá-las à caixa de purificação final, nestas estações. Nossa preocupação é usar, em cada região, apenas espécies locais, de modo a não causar desequilíbrios, pois a água limpa é devolvida aos rios e uma espécie de outra localidade poderia se tornar invasora. Na estação, as esponjas ficam contidas, mas elas lançam seus embriões na água corrente.
Especialista em cauxis, a pesquisadora Cecília Volkmer Ribeiro, do Museu de Ciências Naturais da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul, incluiu 11 espécies brasileiras na Lista Vermelha do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). São esponjas de ocorrência muito restrita, limitada a algumas lagoas.
As espécies menos ameaçadas, no entanto, poderiam ter uso comercial. E a pesquisadora aponta outras particularidades desses organismos, com potencial a ser desenvolvido. As esponjas de água doce produzem biosílica, um material com muitas aplicações possíveis, até como chips de computador, diz. A biosílica se encontra nas espículas, um tipo de espinho de que é constituída a estrutura do animal.
Conforme relata Cecília, algumas etnias indígenas utilizavam estas espículas para tornar suas cerâmicas mais resistentes, caso dos Carajás. Isso no passado, os Carajás atuais não mantiveram a tradição deste tipo de cerâmica, comenta. Mas nas peças antigas, o desenho das espículas chega a ser visível em meio à argila moldada.
No Centro-Oeste, as espículas são utilizadas na produção de cerâmica refratária, inclusive para exportação. A forma de exploração, porém, não é sustentável. O ideal seria promover a criação de esponjas para não depredar as concentrações naturais. Há um projeto neste sentido destinado a lagos de hidrelétricas, observa a especialista. A esponjicultura de água doce poderia produzir o único bem mineral renovável de que temos notícia!
Taí a sugestão para as concessionárias operadoras de hidrelétricas: além de produzir energia, que tal entrar no ramo das biosílicas?
Foto: Vanessa de Souza Machado Esponja (mancha verde) da espécie Oncosclera jewelii em ambiente natural, no rio Tainhas, RS
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11/10/2010 às 18:20 Anonymous - diz:
Isabel Pellizzer – diz:Que maravilha de informação! Pior que água poluída é água contaminada. A mancha verde até parece um limo e não será ela, também, pela sua presença, bioindicadora de ambiente contaminado?
12/10/2010 às 13:05 Anonymous - diz:
Andrea – diz:Muito interessante. Será que estão fazendo algum estudo com esponjas para o ambiente marinho?
14/10/2010 às 11:12 Anonymous - diz:
Marcos Terra – diz:Fantásticaz descoberta. QAuem podia pensar numa cosas dessas!
16/10/2010 às 13:00 Anonymous - diz:
Célia Galvão – diz:Só mesmo a Liana John para nos fazer descobrir de forma tão surpreendente a biosílica! E as esponjas de água doce e essas pesqusias fantásticas (e quase anônimas) que ocorrem em nossas Universidades. O pessoal de política científica e tecnológica do MCT deveria ler seu blog.
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Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.
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