BuscaBusca avançada
Larica de priprioca Liana John - 01/03/2012 às 16:59
Quem conhece, ou já sentiu o cheiro, identifica na hora. Quem não conhece parte direto para a experiência gastronômica. Mesmo com um pouquinho só de priprioca na receita, qualquer sobremesa adquire a personalidade conferida pelo perfume característico dessa raiz aromática amazônica, usada tradicionalmente para banhos-de-cheiro de boas vindas, no Pará, e consagrada como essência em perfumes mais sofisticados, como os da indústria de cosméticos Natura.
A priprioca (Cyperus articulatus) é parente da tiririca (Cyperus rotundus) e também é considerada uma planta invasora. Mas não prolifera tanto nem é tão competitiva quanto a erva daninha mais comum dos nossos jardins. Ocorre naturalmente em regiões de clima quente e úmido e suas raízes são tradicionalmente usadas tanto para água de cheiro e sabonetes como para sachês anti-mofo. O óleo extraído das raízes é avermelhado e contém limoneno, cineol, miternal, espatulenol e óxido-cariofileno.
Em uma de suas muitas viagens de pesquisa pela Amazônia, o chef Alex Atala testou o sabor do cheiro – não sem antes procurar saber se o cheiro realmente era comestível – e então levou a priprioca para os altos circuitos gastronômicos. Já existiam alguns poucos pratos paraenses preparados com a raiz, mas salgados, na linha dos ensopados e caldeiradas. Atala atacou logo de sobremesa, apostando no perfume amadeirado como uma alternativa à floral baunilha.
“Só sei dizer que quanto mais eu sabia sobre priprioca, mais fascinado ficava. Pensei, então, que, se um cheiro podia ser um gosto, priprioca poderia ser um ingrediente somado às minhas receitas”, escreveu o proprietário do restaurante D.O.M., em seu blog. “Ela tinha um cheiro que me era familiar, lembrava alguma coisa entre patchuli e maconha. Resolvi então fazer testes com esse aroma. Nesse processo, percebi que todas – todas, mesmo – as receitas que levam baunilha também podem levar priprioca. Assim sendo, ela é um sucedâneo. Ambas têm seu próprio caráter, e uma não substitui a outra. Mas, com ela, você pode dar uma nova nuance e caráter a velhas receitas ou a bases muito simples”.
A novidade de Alex Atala não passou despercebida dos melhores chefs pâtissiers de São Paulo. Como Diego Lozano, que chefiou a pâtisserie do D.O.M. até 2008 e depois saiu para montar sua Galeria Chocolate. “Um dia me lembrei da priprioca”, conta ele. “Eu tinha um sócio natural de Belém (PA), a quem perguntei se tinha facilidade em conseguir a raiz. Ele me arrumou na hora e comecei a testar várias técnicas para obter o melhor cozimento. Passei a embalar a priprioca a vácuo para depois cozinhar em banho-maria junto com creme de leite fresco. E fiz primeiro um ganache, depois inclui o aroma no recheio de um bombom de chocolate”.
A mistura com o chocolate aproxima o aroma de priprioca do cheiro de maconha. “Várias pessoas começam a rir após degustar o bombom. Algumas disfarçam e não comentam, outras perguntam o que tem naquele recheio. Já tive clientes que até pediram um pouco da raiz para secar e fumar”, diverte-se Diego Lozano. Mas a similaridade com a maconha limita-se ao cheiro. A priprioca não “dá barato” a não ser o simples prazer de comer um bombom diferenciado ou uma sobremesa para lá de refinada.
O chef pâtissier já não comanda mais a Galeria Chocolate, porém a casa ainda oferece os bombons. “A priprioca permite muitas aplicações e, hoje, em todos os cursos que dou, levo junto a raiz para fazer a preparação”. Até para o exterior o sabor de cheiro já foi, em competições como o Mondial des Arts Sucrés (Mundial de Artes em Açúcar, em tradução livre), realizado anualmente na França.Por sinal, era para onde Diego Lozano estava embarcando, na qualidade de jurado, quando concedeu esta entrevista. Que faça boa viagem enquanto ficamos aqui na torcida, na expectativa de que a priprioca conquiste muitos outros gourmets e gourmands, no Brasil e no Exterior, pois isso aumentaria a demanda e incentivaria o plantio da badalada raiz aromática amazônica.
ver este postcomente
Foto: ravióli de limão e banana, feito com priprioca (restaurante D.O.M./Alex Atala)
04/03/2012 às 00:08 Iris - diz:
Pode comer a foto? hehehe
04/03/2012 às 11:09 Ibsen Costa Manso - diz:
Ah, como é bom ler um texto bem escrito, de quem é sensível e entende do riscado… Parabéns, Liana! Parece até que senti o cheiro… De priprioca, quero dizer… Baci I
04/03/2012 às 11:25 Preciada Waismann - diz:
Conheci a priprioca atraves do Diego Lozano, pra mim, o melhor Chocolatier do Brasil. Fiquei encantada pelo bombom de priprioca. Triste é que só se encontra a erva em Belem.Já está na hora de termos fornecedor no Rio e em São Paulo.
18/07/2012 às 18:49 Cheirosa, gostosa e – porque não? – decorativa - Biodiversa - diz:
[...] • Larica de priprioca [...]
26/02/2013 às 13:17 Margareth Assi - diz:
Por favor gostaria de saber onde comprar priprioca, não consegui ainda descobrir. Obrigada, abraços
Deixe aqui seu comentário: Preencha os campos abaixo para comentar, solicitar ou acrescentar informações. Participe!
Enviar
Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.
13/06 • Pele protegida é com o goiabão
07/06 • Bom para o paladar, bom para o cérebro
23/05 • Do toco oco sai de tudo um pouco
16/05 • Óleos essenciais x fungicidas sintéticos
02/05 • Nanofibras com óleo geram tecidos medicinais
25/04 • Como passar uma borracha nos defeitos ósseos
18/04 • Sabor e conservação à moda Baniwa
11/04 • Sofisticação casa com sustentabilidade, sim senhor!
04/04 • Vai até o pelinho do caroço!
28/03 • Uma tijolada no desperdício
21/03 • Mais buriti: leve, claro e fresquinho
14/03 • Um substituto para o maldito isopor
07/03 • Gruda até debaixo d’água
28/02 • Um mato baixo contra a alta da malária
14/02 • Como se coloca uma baleia em um ventilador?
07/02 • Corta fadiga e apaga fogachos
31/01 • Erva-baleeira, a salvação dos esportistas bissextos
24/01 • Babaçu, o adsorvente eficiente
17/01 • Quando a inspiração vem do formigueiro
10/01 • Palmas para a carnaúba
03/01 • Pepinos e conchas contra trombose e tumores
27/12 • Orelha de onça acaba com asma, rinite e afins
13/12 • Uma cutia como opção amazônica
06/12 • Todo charme dos painéis de fibras naturais
29/11 • Pequi, o protetor dos atletas
15/11 • Fungos para curar nossos solos
08/11 • Uma microalga para dois macrodesejos: emagrecer e não envelhecer
01/11 • Para curtir sem poluir
25/10 • O fim (da picada) está próximo!
18/10 • Saúde embalada com estilo!
11/10 • Sentinelas nativos contra o estrangeiro voraz
05/10 • O lugar certo para a titica
27/09 • Pracaxi dá adeusinho às estrias
20/09 • Grandes lições de um pequeno construtor
13/09 • Ventilação à moda cupinzeiro
06/09 • Murumuru, a proteção que respira
30/08 • Do Cerrado, contra a dengue
23/08 • Quando as conchas entram pelo cano
16/08 • A proteção que vem da Caatinga
02/08 • Mesma forma, nova função, tremenda inovação
26/07 • Bom para a tosse e bom para o clima
18/07 • Cheirosa, gostosa e – porque não? – decorativa
12/07 • Às favas com as varizes
05/07 • De amarga já basta a vida
28/06 • Uma borracha que duuuuuuura…
21/06 • Vamos todos tomar caju!
14/06 • Problemas com glicose? Aposte no cambuci!
07/06 • Das lagoas para as indústrias
31/05 • Como canários numa mina de carvão
24/05 • Não adianta chorar pelo petróleo derramado
17/05 • Camucamu contra gripes e resfriados
11/05 • Uma ponte para dois remédios
03/05 • Guanandi reabilita a várzea amiga
26/04 • Coração forte como um touro
19/04 • Para viajar sem jet lag
12/04 • Mensageiras das boas águas
05/04 • Os poderes ocultos do X-Caboquinho
29/03 • Do couro n’água ao couro d’água
15/03 • Frutas com veneno, nunca mais!
08/03 • Uma invasora contra invasões
23/02 • Em passo de formiguinha…
16/02 • O toque de Midas da bromelina
09/02 • Curauá enfrenta até terremoto!
26/01 • Com mulungu, mamulengo é moleza!
19/01 • Com mandacaru não tem água turva
12/01 • Pode comer que… é batata!
05/01 • Um catavento contra o câncer de laringe
22/12 • Enfim um fim para micoses teimosas!
15/12 • A volta por cima da velha piaçava
08/12 • Quando a ferroada vira remédio
01/12 • Feijoa: guardem bem este nome!
24/11 • A proteção está no bagaço
17/11 • Coco no cabelo, casca no churrasco
10/11 • Novo etanol sairá do solo amazônico
03/11 • Caju com resíduos faz do piso à telha
20/10 • Sujeira da grossa pede bactérias faxineiras
13/10 • O conservante dos conservadores de beleza
06/10 • Com baguaçu, a febre vai pro brejo
29/09 • É a volta do cipó de aroeira
22/09 • Bom para bumbum de bebê
15/09 • Pimenta-de-macaco ajuda até a descascar abacaxi sem surpresas
08/09 • Quem disse que pau oco não faz milagre?
01/09 • Sinal vermelho para o sol
25/08 • Comigo ninguém pode… nem mesmo a poluição!
18/08 • Vacinar o cão para proteger o dono
11/08 • De veneno a fortificante
04/08 • Na horta marinha brota saúde e renda
28/07 • Patauá é prazer de cama e mesa!
14/07 • A inspiradora flexibilidade do pirarucu
07/07 • Para curar qualquer ferida
30/06 • Pau-terra contra os efeitos do estresse
23/06 • Viva São João! Lá no alto e aqui no chão!
09/06 • Erva pra cabeça, por dentro e por fora
02/06 • Há males que vêm pra bem
26/05 • Tucupi, tacacá e tá na cara
19/05 • Esse chá de cogumelo é do bom!
12/05 • Um dedal de esperança contra alergias
05/05 • Só uma santa para derrotar a celulite!
28/04 • Mosquitos contadores de histórias
21/04 • Tremiliques da grumixava
14/04 • Coquinhos para encher o tanque
07/04 • O rapa das bactérias mineradoras
31/03 • Pimenta na salmonela dos outros é antisséptico
24/03 • Como bem dizia Anchieta…
17/03 • Comer, beber, emagrecer
04/03 • Do lixo para as passarelas
03/03 • Para matar a sede de saúde
24/02 • Varre, varre a dengue, vassourinha…
17/02 • Microexército para macrobatalhas
03/02 • Para rejuvenescer, use o escorrega-macaco
27/01 • Cascavel na veia ou em cápsulas?
20/01 • Madeiras que cantam e encantam
13/01 • Falta ar? Recorra ao peixe venenoso!
06/01 • Comece bem, com a pata-de-vaca certa!
16/12 • Um toque de sabor e textura aos congelados
09/12 • Overdose agrícola tem cura!
02/12 • Uma torneirinha para o bem-estar
18/11 • Vírus por vírus, o nacional é melhor
11/11 • A criativa defesa das pererecas
04/11 • Como tirar plástico da mandioca
28/10 • O inibidor de serpentes
21/10 • Relaxe! Deixe o herpes com a marcela
14/10 • Contra gripes e resfriados, use o guarda-sol
07/10 • Para lavar a égua… Ops: a água!
30/09 • Regeneração óssea sai da zona do vinagre
23/09 • Lugar de caju é na escova de dentes
16/09 • E carrapato lá tem serventia?
09/09 • A aposta no picão-preto
02/09 • As vantagens de ser homem-aranha
26/08 • Vai antigraxa aí, doutor?
19/08 • Um segredinho para adiar a morte
12/08 • Alívio é com a cabeludinha
05/08 • Esponjas para lavar o Mal do Século
29/07 • Medidores bat-precisos e bat-econômicos
22/07 • Vazou petróleo no mar? Camarão nele!